As palavras acabadas morreram. Agora tudo é
editável! Morreram as histórias terminadas, as frases finalizadas. Agora tudo é
discutível, tudo é debatido e anotado. A literatura já não é arte, o escritor
já não é artista. Que escrita é essa a que carece de explicação?
Um livro é o
que é, uma obra acabada, um texto com um fim, com uma mensagem que lhe é
inerente. Um livro representa uma história que um escritor quer transmitir, uma
mensagem, um significado, algo... Algo que está entre a capa e a contracapa e
que não vai para além disso senão no espírito do leitor e nas suas
interrogações ou alterações de comportamento. Que livro é esse que é debatido,
e alterado, e anotado, e reescrito, e censurado, e explicado?
Um livro é um
livro e nada mais. Não me expliquem uma história, por favor! Se ela carecer de
explicação então não merece ser compreendida e muito menos merecia ser lida. Um
livro é um livro, uma mensagem de alguém que me chega às mãos sobre essa forma,
de um livro. O texto obrificado que vale por esse acabamento finalizado que não
pode ser posto em causa, capaz de se fazer perceber de maneiras diferentes a
cada leitura. Mediante discussão, explicação e alteração onde está a arte? O
texto passa a ser um objeto, um ponto de partida para um debate que não faz
sentido a quem o escreveu. A mensagem é do escritor que a escreve e do leitor
que a lê. Não serve para escrutínio em praça pública por usurpadores de frases
alheias.
Sobre a escrita do escritor só vale a opinião do leitor, só isso e
nada mais. Nem regras nem preconceitos, nem censura nem preceitos. Quem cria a
obra é o artista, quem melhor para saber o que deve ou não ser feito? O gosto
pessoal é conta de outro rosário, é isso mesmo, pessoal, pessoal e intransmissível.
Agora já não há palavras acabadas nem livros fechados. São tudo ficheiros que
andam por aí, perdidos em parte incerta. Nunca chegam a ser teus, nunca lhes
tocas. Podes perdê-los sem nunca os teres encontrado. Não os podes folhear,
levar debaixo do braço, emprestar a um amigo ou namorada, admirar numa estante.
Agora já não há livros. São só palavras perdidas por esses computadores. Frases
desordenadas que são baralhadas e distribuídas ao calhas, sem uma disposição
cuidada na página, preparada ao milímetro a rigor com a história.
Dizia-se que
história e livro não podem viver um sem o outro. É uma capa dura ou mole que
faz o livro, é a gramagem do papel que lhe dá alma é o tipo de letra que
liberta a mensagem e a deixa voar para além das páginas. As palavras acabadas morreram. Agora tudo é editável!
Sem comentários:
Enviar um comentário