sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Crónica de um amor burguês - A carta que regressa da escuridão


- Larga-me o braço, estás-me a magoar!

- Não ouses dizer que te estou a magoar, tu não sabes nada sobre a mágoa! Já pensaste em como me senti ao descobrir aquela carta no fundo da gaveta? Todos esses sentimentos que guardaste só para ti, sabe Deus quanto tempo… E eu aqui, sem saber de nada, a fazer papel de idiota.

- Talvez te assente bem… A idiotice, claro está. O idiota é aquele que segue a sua vida errónea pensando enganar todos à sua volta. Pensavas o quê? Que eu não sabia onde andavas quando chegavas tarde a casa, que eu não sabia o que pensavas quando te cruzavas com outras mulheres, ou pior, o que fazias… Sei mais sobre tudo isso do que aquilo que podes imaginar, sei mais sobre ti do que tu alguma vez saberás, sempre soube…

- Olha bem para ti, armada em detetive… Sabes tudo, tu! És a encarnação da perfeição, um anjo caído do céu para iluminar esta Terra sombria. Tretas! Tudo tretas! Se sabes tanto quanto dizes porque te casaste comigo? Porque ainda continuas aqui, na nossa casa?

- Eu sempre te conheci o fundo da alma, desde a primeira carta que trocámos. Acontece que, nessa altura, tu ainda eras o artista por quem eu me apaixonei. Esse espírito livre conhecedor dos maiores segredos do universo, capaz de amar e de se comprometer. Não tinhas medo do compromisso. Espera aí um segundo… - disse a mulher enquanto se dirigia a passo apressado em direção ao seu roupeiro. Sem pausa, abriu a gaveta do fundo e retirou um molho de envelopes abertos, que já indiciavam a sua idade avançada, que folheou até encontrar o que desejava. – Toma, lê. Lê a primeira carta que tu próprio me endereçaste e diz-me se esse rapaz, autor de tão magníficas linhas, é o mesmo que encontro agora à minha frente.

O homem segurou o envelope, retirou a velha carta do seu interior, e começou a ler. A cada linha que passava, os seus olhos humedeciam-se até que, quando finalizou a sua leitura, uma e apenas uma lágrima foi derramada.

- Sabes? Penso que tens razão. Penso que merecia todas aquelas acusações que guardaste naquela gaveta, naquela carta que nunca me enviaste. Talvez já não seja o mesmo… Ou talvez sempre tenha sido assim, apenas com menos meios para me realizar. No outro dia, no escritório, quando falava com o meu sócio, ele disse-me que não devia adiar mais aquela viagem que tínhamos pensado fazer. Por momentos estive decidido a comprar os bilhetes, mas depois… Em menos de nada a ideia mudou por completo e a decisão passou a adiamento. Ainda queres viajar comigo? Eu sei que pensas que já não sou o mesmo, que mudei. Só quero uma oportunidade para mostrar que ainda te amo, que ainda te desejo, que ainda sou o mesmo que te escreveu aquela carta guiado pelo desejo do nosso primeiro encontro… Se procurares aí nesse molho vais encontrá-la. Diz-me, por favor. Ainda queres viajar comigo?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Se ao menos soubesse o que está do outro lado... - 2ª parte


...continuação

Penso que nada mudaria se soubesse aquilo que busco… Não o faço pelo resultado, mas sim pelo processo. Faço-o por mim, porque sinto um apelo. Se soubesse o que está do outro lado continuaria a tentar alcançá-lo. Não o busco por mera curiosidade, por capricho. Busco-o porque sei que está lá algo de valor, que servirá para completar as partes que me faltam. Não sei se todas, era isso que eu descobriria se me deixasses saltar o muro. Desde que te vi pela primeira vez que sei que guardas algo que também me pertence. Quando me cumprimentaste, na primeira vez em que estivemos juntos, a minha mente foi tomada de assalto por imagens que se seguiam tão depressa que quase pareciam formar um filme. Éramos nós que figurávamos nessas imagens, de mãos dadas, num jardim, juntos… Soube então que tinha de estar contigo, que tínhamos de viver esses momentos. Recostei-me para trás, na cadeira onde me encontrava sentado. Estava satisfeito, tinha finalmente encontrado aquilo que procurava há já tempo demasiado. Só ainda não sabia que ter esse conhecimento em meu poder, cedo demais, seria a condição do meu falhanço. Como um messias, sabia demasiado, sabia coisas que ainda não eram para ser sabidas. O mundo não estava preparado para a revelação da minha descoberta. Nesse momento, deixámos de estar em pé de igualdade. Todo o meu comportamento mudou. Sabia que tinha de estar contigo, que era esse o futuro, mas tu não fazias ideia de tal sorte. Pensei então que deveria conquistar a tua atenção, despertar o teu afeto, mas não fui capaz. Há coisas que não se devem saber, existem para ser descobertas. Neste caso deveríamos descobrir a dois, num processo… Antecipei-me e quis forçar os acontecimentos, antecipar o futuro. A minha mente desarmou a minha guarda, deixou-me despido em frente a ti. Tu continuaste altiva, no teu castelo fortificado, inalcançável. Mas eu sabia que, eventualmente, ficaríamos juntos, vi-o na minha mente, e então continuei. Tentei saltar o muro que nos separava, alcançar o teu ser. Foi então que a nossa relação falhou. Avancei para ti sem uma estratégia, confiante na inevitabilidade do nosso amor. Claro que só eu pensava assim… Foi como enfrentar um exército inteiro sem sequer carregar a minha espada. Uma loucura, uma ilusão. Gostei tanto de ti que não te quis conquistar, abri-me para ti e esperei o teu beijo, com naturalidade. Um suicídio…

Fim

domingo, 13 de janeiro de 2013

Se ao menos soubesse o que está do outro lado… - 1ª parte


A mesma mesa, o mesmo café, o mesmo cenário. A mesma expressão, a mesma dicção, o mesmo sentimento. A situação é a mesma, a sensação também. Agora já sei o significado daquilo a que costumam chamar déjà-vu: uma situação estranhamente familiar que nunca vivi anteriormente e cujo resultado já sei de antemão. O mesmo cenário, o mesmo resultado. Apesar de já saber isso não consigo evitar cair no erro. O sentimento começa a aflorar e surge com uma força incontrolável. Já conheço o resultado, já conheço o processo. Nada muda, avanço na mesma, desta vez com mais entusiasmo ainda. Após um primeiro impacto comandado pelo desagrado com um toque de desprezo, o gosto cresce forte e alimenta-se da mágoa de outrora. O mesmo café, a mesma mesa. Diferentes pessoas, diferente pessoa. A situação é idêntica. Agora, nos olhos dela, não vejo a mágoa de uma relação falhada, de um amor distante, vejo o desconhecido. Vejo um muro que não consigo ultrapassar, um código que não consigo decifrar. Ninguém me deu a matriz para o resolver, nem pistas tampouco. Parece que a intencionalidade lhe desvia o olhar para que, entre nós, não haja o mínimo de contato visual e eu não possa assistir à construção da vedação, da cerca, do muro que está a ser construído para me manter à distância. Tento desesperadamente espreitar pelos buracos da parede, pelo muro inacabado. Se ao menos soubesse alguma coisa sobre o que existe no outro lado, no interior da sua alma, nos confins do deu pensamento… Tento reverter o processo mas sinto que perco a batalha. Não consigo compreender o motivo de tanta resistência à minha aproximação e, em breve, também será cavado um fosso entre nós, e que profundo será… Sinto um déjà-vu e sou atraído por ele. Penso que é esperança o que me faz continuar mesmo já sabendo o resultado. Se ao menos soubesse o que está do outro lado…

Continua...