domingo, 27 de janeiro de 2013

Composição VIII


Composição VIII, parte do meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis"

Nunca tive intenção de acabar o que foi outrora começado. A enorme sombra que se reflectia no solo quando entrelaçava-mos as mãos dava ao que nos unia uma aparência sobrenatural. Mas a intocabilidade reflectida na sombra nunca se figurou sozinha. Desde sempre que no negrume sombrio se expiava uma dor agónica que não era fácil de suportar. O medo crescia face ao perigo desconhecido mas ainda assim nunca pretendi roubar o que teu era por direito. E o que era teu também meu era e muito me custou perdê-lo. Mas agora tenho tudo quanto quero. O prazer de partilhar a vida contigo foi agora substituído pela satisfação de ver realizados os mais loucos desejos que se escondiam num canto da alma. 

A explosão imensurável de prazer que me trouxe a descoberta de novas coisas estrangulou a dor e a memória que já se vinham afirmando no meu pensamento. As amarras que nasciam do solo e me castravam os movimentos, nada puderam contra a inviolável leveza do ser que se manifesta quando da nossa mente apenas provém a liberdade. As condições exteriores são as que nos prendem menos. É na nossa mente que a fera fica enjaulada e se acaba por amestrar mesmo sem darmos conta. O instinto que nos incita a fugir de qualquer coisa desconfortável é inimigo da descontracção que poderíamos ter. Por mais rápido que consigamos correr, a nossa sombra acompanha-nos sempre. A flor que cresce lá no fundo deslumbra os sentidos. Pela janela fito a dança eterna que decorre onde não posso conhecer. O preto que o homem traja funde-se com o branco que a mulher ostenta. O vulto daquela cena ficará para sempre gravado no muro despido que se impõe à direita de quem entra. 

De incógnitos a realizados, fiz tudo o que me satisfazia e nada disso te envolveu. Agora, a tristeza mora ao lado e o passado também. Posso não ser o escolhido mas quem elege tem a condição de júri. A distinção não está em quem é preferido mas sim em quem o prefere, e isso faz toda a diferença. É uma oportunidade que se perde, uma porta que se fecha. As janelas que se abrem são mais pequenas e dificultam a passagem. É claro que são um caminho e que a diversos sítios conduzirão, mas estão longe de ser a opção óptima. Não existem segundas oportunidades. A vida não volta atrás nem se apaga a ela própria. Existem apenas outros caminhos distintos e outras oportunidades que são também elas únicas. 

E quando a memória se desvanecer sei que a posso substituir. Sei também que estive fora por muito tempo. Cheguei a pensar que já não estava vivo. Mas a vida agora encarregou-se de me presentear com circunstâncias que são tão boas quanto novas e adapto-me a elas para as aproveitar. A vida já nos impõe tantos combates e tantas decisões que não vale o sacrifício estar sempre a desejar algo mais. Se as nossas acções nos levaram a certa situação, então é porque podemos aprender algo daí. A plenitude está em nós, não nos momentos ou coisas. 

Ai que prazer! Poder desfrutar da vida sem os grilhões da consciência. O prazer está algures entre o querer e o poder. Isto digo eu… Outros, algo diferente dirão.