sexta-feira, 8 de março de 2013

A falsidade da criação


Li algures que um escritor está sempre a escrever a mesma coisa mas com diferentes palavras. A minha mente, o meu espírito ou o que quer que seja que intelectualiza todas estas emoções que sinto já há muito que não permite que da caneta brotem novas ideias, novos personagens. Ando sempre a escrever o mesmo. As mesmas situações, as mesmas ideias, os mesmos personagens, as mesmas emoções. Escrevo para me sentir livre, livre deste mundo onde o impossível impera mas, de alguma forma, não me sinto senão preso a esta bagagem que transporto sem que dela me consiga ver livre. Não sou mais que um prisioneiro. Um prisioneiro de mim próprio.

De onde me vem tudo isto? Do sofrimento, da alegria, da tristeza ou da euforia? Do excesso de emoções ou da falta delas. Ou será antes uma questão de qualidade antes da quantidade? A urgência em me exprimir é grande e aumenta sempre, a cada instante, a cada olhar. A urgência é tanta que o caudal da minha escrita sai atabalhoado, perdido neste mundo onde não pertence. As circunstâncias são outras, eu sou outro, mas o que de mim nasce permanece. A criação não segue o artista. Mudo o nome das personagens e sigo em frente mas o carácter permanece inalterado. Outros nomes, outras circunstâncias e elas iguais a si próprias fincando o pé ao seu criador e exigindo ser escritas, pintadas na tela da eternidade. Mudam os nomes, mudam as histórias e eu não pareço ter capacidade de desligar as personagens de mim próprio. Talvez por isso nunca tenha acabado nenhum romance, e já comecei vários… Dói demasiado, é tudo muito pessoal, muito real. As personagens parecem ter relutância em ganhar vida própria fora de mim mesmo, no paradoxo mais interessante com que já me confrontei. É uma batalha que perco inevitavelmente e as histórias, todas elas inacabadas, vão-se acumulando nas gavetas da consciência. Talvez o problema não se resolva enquanto não escrever algo definitivo que complete a criação e corte o cordão umbilical às personagens que desfilam na minha mente. Talvez aí elas ganhem vida própria. Talvez aí elas partam e iniciem o seu próprio caminho ao encontro de juízos alheios. Talvez aí consiga escrever outras coisas, outros personagens.

O que se espera de um autor? O que se espera de um livro ou de uma história? Certamente o mesmo que se espera de um filme, de uma música ou de uma pintura: cultura, entretenimento, catarse. A possibilidade de viajar sem sair do lugar, de conhecer sem travar conhecimento, de intelectualizar e apropriar as emoções do artista, um outro alguém fora de nós, e de compreender uma qualquer mensagem que a materialização da sua obra queira transmitir. O que interessa a inspiração? O que interessa o sofrimento do artista? O que interessa todo o processo que leva o livro às estantes de uma livraria ou a pintura às paredes de uma galeria? O que interessa tudo isto desde que nos possamos sentar e aplaudir quando gostamos ou vaiar quando odiamos? Provavelmente nada, provavelmente tudo. Se calhar, isso é o mais importante, o cerne da questão. De que vale um quadro perdido no meio do deserto, fora de todo e qualquer contexto e significado, para além dessa mesma circunstância curiosa e caricata? Terá a obra valor intrínseco? Terão estas palavras que escrevo agora à mesa da esplanada valor em si mesmo? Valor para além da minha vida, da minha obra, das vivências que as originaram… Sem isso penso que são apenas rabiscos, conjugações perversas de palavras que nada querem dizer.

Não sei se serei capaz de as abandonar dessa maneira. De certa forma, uma história é como um filho, um filho que não nasce do ventre mas sim da ponta da caneta. Não se abandona um filho assim como não se abandonam as palavras que se escreve. Tal como deve ser recusado o título de mãe a quem o seu filho abandona, também ao escritor se deve recusar esse título quando o objetivo da sua escrita é o abandono numa qualquer prateleira de supermercado, o cortar de relações com a sua escrita, a massificação. Tal como com a metáfora da mãe abandonante, o autor desligado das palavras que cria é alguém desligado de uma parte integrante de si próprio, numa separação que, se não é total, é pelo menos irreversível. Devo dizer que, normalmente, tal fenómeno é difícil de ter lugar. O processo criativo não cria coisas externas estranhas ao seu autor, antes traz ao mundo partes da sua visão e imaginação que quase sempre são metáforas ou distorções do que realmente existe ou aconteceu. A história está ligada à realidade e a invenção pura é nada mais que falácia e demagogia. Uma falsidade!