domingo, 31 de março de 2013

A rapariga dos cabelos cor-de-avelã


A escova deslizava suavemente entre os longos cabelos cor-de-avelã. O espelho refletia uma imagem serena, um rosto plácido, uma má interpretação do que a alma sentia e do que nos olhos se podia ler. A escova penetrava continuamente a generosa cabeleira em movimentos mecânicos que oscilavam entre a brusquidão e a carícia terna. O olhar era vago. Tinha deixado a sua mente à mercê dos pensamentos assaltantes que o sol do meio-dia propiciava e a sua nostalgia consentia. Pensava sobretudo no que já tinha passado e assustava-se com o que iria ainda acontecer. Não sabia se temia mais o que deixara para trás e perdera ou o que poderia vir a ganhar num distante cada vez mais próximo. 

Ou se teria perdido que deixara para trás, ou se ganharia algo com o que ainda estava para vir e nunca mais chegava. A incerteza dominava-a, retirava-lhe o espírito daquela sala que apenas o seu corpo habitava. Olhou para baixo e sabia que tinha de voltar, sabia que tinha chegado a altura de enfrentar sozinha todas as suas incertezas, viver a vida, jogar o jogo… E não queria. Preferia infinitas vezes ficar ali naquela quarto, indeciso entre a escuridão e a iluminação dos raios de sol, a deixar o seu espírito divagar e voar independente do seu corpo que bem podia permanecer sentado a pentear os cabelos sem cessar. Mas não sabia, os dados já estavam lançados, ela própria tinha-o feito quando escolhera estudar no estrangeiro durante um semestre. Agora era altura de assumir as consequências da sua decisão, tinha decidido ir a jogo. A sua mente divagava pelos momentos do dia anterior, o aterrar do avião, o pisar solo português pela primeira vez, as emoções que tudo isso despoletara. Foi nesse momento que percebeu que tinha chegado ao ponto de não retorno, que estava ali, sozinha naquele país estranho e que não iria regressar a casa durante seis longos meses. Mas sabia ela que, no final de tudo, o longo tempo que agora se agigantava à sua frente lhe iria parecer curto.

Tinha vindo para Lisboa ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes a fim de aprender o seu caminho junto da língua portuguesa e da cultura do país. Acima de tudo, queria algo diferente daquilo a que estava habituada nos Estados Unidos, tudo quanto tinha conhecido até então. Lisboa era, para si, uma porta de entrada na Europa, um ponto de partida para um novo mundo que queria explorar. O programa tinha-lhe atribuído uma família de acolhimento que lhe daria abrigo e orientação durante os seis meses. Era no quarto que lhe tinha sido destinado na casa da sua família de acolhimento que escovava agora os seus cabelos e deixava o pensamento fluir. Vinha-lhe à mente a saudade da mãe, a figura ausente do pai e a preocupação do irmão mais velho mas, sobretudo, pensava no companheiro de três anos que deixara em casa. Não sabia o que fazer: deixar fluir a saudade e derramar a primeira lágrima que já começava a aflorar no canto do olho ou conter as incertezas e pensar no momento presente, na sua grande experiência.

Nem por um segundo esquecia o motivo da sua viagem: excitação, paixão, sentir algo diferente do que aquilo que poderia alguma vez sentir nos Estados Unidos. Queria o exótico, buscava o diferente. Queria-se perder nos meandros de uma nova cultura, de uma língua fascinante. Sempre sentira uma falta de paixão na sua vida e viajava agora para preencher esse vazio. De certa forma queria-se encontrar e sabia que não seria capaz de o fazer perto de casa, na América. Precisava do modo europeu, ansiava por ele embora não soubesse exatamente do que se tratava. Não que Portugal fosse melhor que os Estados Unidos, ou o inverso, mas o ser humano sempre quer o que não tem, sempre busca o que não pode encontrar e sempre o faz no longe e na distância. É por isso que na casa do ferreiro o espeto é de pau e que o voluntário sempre escolhe combater a fome nalgum lugar perdido de África enquanto pessoas esfomeadas lutam ao seu lado por um pedaço de pão. É uma raça invulgar a humana, escolhe sempre o caminho mais difícil, o mais tortuoso, nem sempre onde o proveito é maior. Queria apenas o diferente. Nunca antes na sua vida se tinha sentido arrebatada, totalmente esmagada por uma sensação positiva que não conseguisse controlar e não tinha em mente emoções radicais ou perigos aventureiros. Queria algo profundo, algo permanente. Um bom vinho tomado à luz de uma vela, um passeio de descapotável sob o sol escaldante que sorri em Lisboa como em nenhum outro lugar. Não queria ver cultura como se estivesse num museu, queria vivê-la. 

Mais que apreciar a obra do artista, queria viver o processo antes da chegada ao quadro que pende na parede da galeria. Ser o modelo que é pintado ou a musa que é escrita, cantada nos poemas eternos que sempre serão lidos pela humanidade. Também não queria ver o filme ou ler o livro, queria viver a história, criá-la, ser parte dela, conhecer e influenciar os personagens, manipulá-los como marionetas. Ver-se envolvida em situações desconhecidas que jamais poderia controlar. Queria esquecer as tardes no shopping, as compras de impulso, o acumular de tralha que a sua casa conhecia e o cartão de crédito permitia. Ansiava por ver mais além, para além da maquilhagem que cobre os autómatos na vivência do quotidiano, da rotina. «Abaixo a rotina! Que morram os planos», pensava com convicção. Queria conhecer, viver, rir e sonhar. Não sabia o que queria, apenas que o queria todo, a experiência completa, tudo quanto houvesse. E, no entanto, ali estava ela, sentada naquele quarto inundado pela escuridão, trespassado pelos raios de sol que atravessavam a janela entreaberta. Escovava o seu cabelo de forma automática. O olhar vago indicava a ausência do seu espírito, o devaneio da sua mente que fervilhava na excitação da proximidade dos seus desejos, tudo tão perto e ela permitia ao seu corpo permanecer ali sentado, a escovar os cabelos incessantemente e a fitar o espelho como que à procura do sentido de profundidade, inibido de toda a ação, de todo o ato que poderia tornar realidade os seus desejos mais profundos. 

Era como se esperasse pacientemente pela concretização das suas vontades sem que para isso colocasse algum esforço, alguma procura, como se elas se fossem concretizar por si próprias. Inconscientemente, tomava a posição de um cidadão da civilização que visita a selva e espera observar a interação animal na sua máxima amplitude e de forma instantânea ou como o turista que passa pelos lugares recônditos do mundo e assume uma postura resguardada, de algum modo superior aos locais tidos como inferiores por não verem o mesmo horizonte, como se não houvessem vários horizontes nesta vida ou como se o mesmo não pudesse ser visto de várias perspetivas. Como se Portugal fosse um país de poetas apaixonados que espreitam o mundo em cada jardim, cada esquina, em cada janela. Como se na Europa todo o indivíduo fosse dotado da sensibilidade artística e da capacidade para a concretizar. Tinha pensado em tudo mas não sabia nada. 

Queria-se envolver com a cultura, descobrir um mundo pitoresco de emoções e sensações onde a natureza e a natureza humana se imiscuíssem e sobrepusessem ao artifício da sociedade mas não tinha pensado que para concretizar tal objetivo teria de o procurar, nem como o iria fazer. Como o leão que caminha pela floresta caçando as suas presas para o turista ou o menino faminto que corre atrás do jipe do ocidental que está de passagem espalhando a magia e a felicidade, ela pensava que poetas e escritores, pintores e escultores viriam ter com ela, fazendo fila para a conhecer e lhe apresentar um qualquer segredo da sua cultura. Esperava tacitamente que, tal como artifício da sociedade moderna, tudo acontecia naturalmente, tudo lhe seria dado e revelado sem que de fato o procurasse. O mais estranho e improvável é que, de alguma maneira, aquela rapariga que escovava os cabelos sentada na escuridão do quarto que a luz lutava por penetrar tinha, de fato, razão.