É com grande pesar que escrevo este comentário. Acima de tudo, tristeza, revolta. A lágrima no canto do olho ao ver trabalho único e irrepetível a ser perdido para sempre. Pois é, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã perdeu-se, foi roubada! Dela, sobrou apenas o texto que resgatei no comentário anterior e a memória vaga da sua sombra.
Assaltara-me o carro na passada semana, violaram o meu espaço pessoal, privado. Como se não bastasse o trespasse imperdoável, foram-me remexidas as coisas e levados pertences pessoais. Entre esses estava a rapariga dos cabelos cor-de-avelã. Um pequeno caderno preto, recheado de páginas escritas, com dizeres que aprisionavam aqui e ali pedaços da alma da rapariga que queria imortalizar. Agora só resta a memória. Estava ali, naquelas páginas entre as capas pretas duras, uma série de frases, um conjunto de palavras que jamais poderei reproduzir na sua formulação original. Foi-me levado! Páginas e páginas escritas, poucas por escrever. Um pequeno caderno preto, selado por um elástico, que me acompanhava para todo o destino e que era ele próprio destino dos meus pensamentos e ideias, embriões manuscritos dos textos que por aqui param.
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã estava lá, quase completa. Já se percebia os contornos do seu corpo, já se anteviam os traços do seu carácter. Pedaços desse ser, musa irrealizável, repousavam ali até que a obra estive pronta e, nas suas linhas, pudesse desfilar em toda a sua plenitude. Agora só resta a memória que muito pouco reteve. Descarreguei naquelas páginas o nexo de palavras que lhe dava a sua específica forma, a forma que eu queria que ela tivesse, a forma que deveria ter, a forma sem a qual não pode existir. Limpei a memória pesada confiando as minhas ideias à segurança daquele elástico, daquelas capas duras pretas. Descansei o pensamento e libertei-o do fardo de carregar permanentemente a lembrança de cada gesto, de cada olhar daquela rapariga, musa da minha escrita. Agora a memória prega-me uma partida, brinca comigo, faz de mim seu escravo.
Claro que a situação imaginei-a eu e a rapariga saiu da minha invenção. Voltarei a refazer a história, a reviver as emoções. Voltarei a fingir a vivência, a dissimular a criação. Fica porém a nota de que, fruto de um furto caprichoso de algum bruto, analfabeto por certo, foi-me roubada a rapariga dos cabelos cor-de-avelã e foi-me tirada a espontaneidade na sua descrição.