Ela olhava-me do fundo da
sala. Um olhar penetrante, vago, trespassava-me o corpo, carne e osso, e
parecia contemplar um qualquer objeto à minha retaguarda, inacessível ao
normal olhar humano por escondido pela minha presença. Pensei que me olhava com
os seus dois olhos, grandes, azuis. Mas que via ela? Que veria ela em mim digno
de lhe prender a atenção de tal forma? Tanta interrogação me surgia na mente, o
meu espírito irrequieto. E eu sentado, na poltrona, quase no centro do salão.
Naquela altura escrevia, ou pelo menos tentava. Escrevinhava qualquer coisa invertebrada
que nem se punha de pé. Desconexa. Era o ruído da televisão, ali bem do meu
lado direito a berrar-me no ouvido coisas sem qualquer interesse e o olhar dela
que me atraía como um íman. Que irrequieto eu estava! As palavras saiam-me às
golfadas, sem tempo de se articularem entre si, o burburinho da televisão soava
junto a mim e o olhar dela captava com muita eficiência a minha atenção.
O
esforço que fazia para escrever era anulado pelo que me rodeava, e pelo meu
estado de espírito. Lutava para me prender ao papel, para articular o meu raciocínio
com aquela tinta azul mas parecia que o meu pensamento acabava sempre por ser
atraído pela força vinda do canto da sala. Não sei que escrevia, nem porquê.
Sei apenas que não conseguia parar. Não tinha consciência das letras que
desenhava, das palavras que constituía, do raciocínio que formava (ou se
formava algum). A minha mente estava num frenesim. A atenção fixamente presa à
interrogação que se impunha no momento era sempre soberana sobre a luta que
travava por me concentrar na escrita. Mas que pensava ela sobre mim? Mas que
via ela no meu ser ali sentado, ou através dele? Os seus olhos não mexiam, não
pestanejavam. O olhar era fixo e ininterrupto. Penetrava tão fundo que indicava
o vazio de objetivo. Olhava mas não via. Ou pelo menos assim parecia ser. Se
calhar apenas tinha conseguido retirar esse filtro, o da visão. Mantinha apenas
um olhar concentrado que recolhia toda e qualquer informação, por mais
insignificante que parece-se, e levava-a diretamente ao cérebro onde o
pensamento tratava de formar o juízo. Mas que juízo seria essa? A interrogação
matava-me, consumia-me por dentro! Oh, que inferno! Que inquietação! E, no
entanto, ali estava eu, sentado na poltrona, tão sereno quanto a um homem
convém, dando a impressão de não me importar com a sua presença, de não me
sentir afetado com as suas ações (ou falta delas). Porque um homem deve sempre
ser sereno e altivo, deixar as emoções de lado no trato com a mulher,
guardá-las para si, para o seu eu enquanto pensa ou escreve.
A mulher testa o
homem, põem-no à prova, mede a sua paciência e o seu carácter, a sua
versatilidade face aos ambientes mais estranhos e adversos. Pelo menos aquela
procedia assim e eu, nada. Sereno como o trigo nos campos sob o sol que abana
ligeiramente de um lado para outro ao sabor da brisa. Ela queria-me testar mas
eu não respondia aos estímulos, ficava para ali, altivo e sereno, como a um
homem convém. E reparem que ela tentava de tudo! Olhar especada para mim
durante tempos infinitos era a menor das provocações. Oh, mas só eu sei como
isso me afligia! Só eu sei porque nunca mencionei nada relacionado ao tema, nem
dei a entender. A sala estava tranquila, o silêncio apenas era interrompido
pelo som entediante da televisão e por um ronco ou outro do que dormitava no
sofá, mas travava-se ali uma batalha, uma luta épica, um braço de ferro renhido
que, no fim, eu iria ganhar.