quinta-feira, 9 de maio de 2013

Estarei lá perto? 2/2

...continuação

E ela não veio. Não era suposto que tivesse vindo, não posso dizer que tenha ficado desapontado. Triste talvez, vazio de uma esperança filha do pensamento que eu próprio tinha criado e alimentado. A conferência começou e acabou. Eu escutei tudo com muita atenção, se lá tivesse estado seria provável que nem me tivesse apercebido do seu tema. E depois, como faria a notícia, como faria o meu trabalho do qual depende a comida na minha mesa? Não queiras ser a causa da minha desgraça! Oh, mas que digo eu? Não será a desgraça emocional, espiritual, a da pior espécie? De que vale um pão a alguém sem esperança? Ou a alguém de esperança traída... Não digo que fosse este o caso, estou só a divagar. Deixem-me divagar, faz-me bem ao pensamento, abstrai-me das infinitas preocupações que me enchem a minha limitada mente. Por que teria eu de ter limitações, por que haveria o ser humano de carregar o tão pesado fardo da sua constante auto-superação? Que canseira!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Estou lá perto?


Sentado ali, naquela sala repleta de gente, sentia-me sozinho, mergulhado nos pensamentos que me surgiam ao ler o livro que pegava pela primeira vez. Daquelas páginas com cheiro a novo só me arrancava a incerteza da sua chegada, a certeza de que não viria. Ou viria? Como poderia vir? Disse-me que não vinha, que estaria ocupada. É certo que não a veria naquele dia. Mas a cada página que passava, levantava os olhar para espreitar em redor. E a cada pessoa que passava? Pensava sempre ser ela. Mas não era. Estava sentado perto da entrada e o meu campo de visão fazia um ângulo reto com a porta. A expectativa aumentava ainda mais, a incerteza era soberana!


A ideia ocorreu-me no caminho para lá, a ideia de que poderia aparecer, como que de surpresa. Que significado teria isso! Dava-se ao trabalho de me surpreender, de interromper o processo natural da vida para ali estar, não sei se por mim se pela ocasião (mas também que interessa isso para o caso?). Claro que a esperança era infértil, infundada, e teimava em morrer. Eu sabia que não iria, ela própria me tinha dito! Mas seria mesmo assim, seria isso verdade? A minha perceção da realidade limitava-se às quatro paredes daquela sala e à minha imaginação sobre o que poderia atravessar aquela porta. 
Continua...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vencida

Ela olhava-me do fundo da sala. Um olhar penetrante, vago, trespassava-me o corpo, carne e osso, e parecia contemplar um qualquer objeto  à minha retaguarda, inacessível ao normal olhar humano por escondido pela minha presença. Pensei que me olhava com os seus dois olhos, grandes, azuis. Mas que via ela? Que veria ela em mim digno de lhe prender a atenção de tal forma? Tanta interrogação me surgia na mente, o meu espírito irrequieto. E eu sentado, na poltrona, quase no centro do salão. Naquela altura escrevia, ou pelo menos tentava. Escrevinhava qualquer coisa invertebrada que nem se punha de pé. Desconexa. Era o ruído da televisão, ali bem do meu lado direito a berrar-me no ouvido coisas sem qualquer interesse e o olhar dela que me atraía como um íman. Que irrequieto eu estava! As palavras saiam-me às golfadas, sem tempo de se articularem entre si, o burburinho da televisão soava junto a mim e o olhar dela captava com muita eficiência a minha atenção. 

O esforço que fazia para escrever era anulado pelo que me rodeava, e pelo meu estado de espírito. Lutava para me prender ao papel, para articular o meu raciocínio com aquela tinta azul mas parecia que o meu pensamento acabava sempre por ser atraído pela força vinda do canto da sala. Não sei que escrevia, nem porquê. Sei apenas que não conseguia parar. Não tinha consciência das letras que desenhava, das palavras que constituía, do raciocínio que formava (ou se formava algum). A minha mente estava num frenesim. A atenção fixamente presa à interrogação que se impunha no momento era sempre soberana sobre a luta que travava por me concentrar na escrita. Mas que pensava ela sobre mim? Mas que via ela no meu ser ali sentado, ou através dele? Os seus olhos não mexiam, não pestanejavam. O olhar era fixo e ininterrupto. Penetrava tão fundo que indicava o vazio de objetivo. Olhava mas não via. Ou pelo menos assim parecia ser. Se calhar apenas tinha conseguido retirar esse filtro, o da visão. Mantinha apenas um olhar concentrado que recolhia toda e qualquer informação, por mais insignificante que parece-se, e levava-a diretamente ao cérebro onde o pensamento tratava de formar o juízo. Mas que juízo seria essa? A interrogação matava-me, consumia-me por dentro! Oh, que inferno! Que inquietação! E, no entanto, ali estava eu, sentado na poltrona, tão sereno quanto a um homem convém, dando a impressão de não me importar com a sua presença, de não me sentir afetado com as suas ações (ou falta delas). Porque um homem deve sempre ser sereno e altivo, deixar as emoções de lado no trato com a mulher, guardá-las para si, para o seu eu enquanto pensa ou escreve. 

A mulher testa o homem, põem-no à prova, mede a sua paciência e o seu carácter, a sua versatilidade face aos ambientes mais estranhos e adversos. Pelo menos aquela procedia assim e eu, nada. Sereno como o trigo nos campos sob o sol que abana ligeiramente de um lado para outro ao sabor da brisa. Ela queria-me testar mas eu não respondia aos estímulos, ficava para ali, altivo e sereno, como a um homem convém. E reparem que ela tentava de tudo! Olhar especada para mim durante tempos infinitos era a menor das provocações. Oh, mas só eu sei como isso me afligia! Só eu sei porque nunca mencionei nada relacionado ao tema, nem dei a entender. A sala estava tranquila, o silêncio apenas era interrompido pelo som entediante da televisão e por um ronco ou outro do que dormitava no sofá, mas travava-se ali uma batalha, uma luta épica, um braço de ferro renhido que, no fim, eu iria ganhar.