É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!
sexta-feira, 24 de maio de 2013
I feel an overwhelming love
Alguma vez te sentiste arrebatada pelo amor? Um sentimento irresistível,
esmagador, opressivamente libertador. Um sentimento tão perfeito que parece não
ser real, não existir…
É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!
É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Choro por dentro
Choro por dentro. Uma angústia terrível assola-me a alma de uma maneira
violentamente subtil que me deixa indefeso e sem capacidade de reação. Ontem
encontrei-te, hoje desejo ter-te de volta. Sei que nunca mais te verei, que foi
coisa de uma única noite. Por que são sempre essas que me arrebatem o espírito
e me submetem à insaciável vontade de ter mais? Hoje sei que não te posso ter,
cruel destino para quem te deseja com tanta força. Nunca antes tinha visto
tamanha beleza e graciosidade, nem tão pouco beijado e abraçado tão bela
mulher. Agora que me deito, desejo não estar sozinho, desejo partilhar contigo
a minha cama, aninhar-me contigo pela noite dentro. E não consigo adormecer.
Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu
jeito de te moveres inigualável em subtileza.
Sei que nunca mais beijarei os
teus lábios e isso consome-me qual labareda infernal que arde dentro do meu
estômago. À volta do pescoço, sinto uma corda que se aperta mais a cada momento
tornando extremamente complicado a respiração. A garganta seca e o olhar vazio.
A angústia. Sinto um apelo fortíssimo em deixar tudo e partir ao teu alcance,
enquanto a tua presença ainda se encontra no meu modesto raio de ação. Desejo
ver-te outra vez mas sei que nada irá mudar. A angústia não passará, apenas
será adiada. Seja hoje ou amanhã, a nossa despedida é inevitável. Tu não
pertences aqui. De que serve ver-te de novo, saciar a louca vontade de ti? Sei
que nunca conseguirei captar-te a essência, guardar-te para mim. Hoje ou
amanhã, irás sempre tornar-te numa memória e nada mais que isso. Oh, como eu
desejo a evitabilidade do inevitável... Se ao menos fosse eu dono do destino,
nunca partirias de junto de mim. Serias a tal e assim te trataria. A mulher
mais bela que alguma vez conheci, beijei, abracei… E partes no dia seguinte. A
diversão que dá lugar à lágrima, o êxtase que dá lugar à angústia. Pergunto-me
se sentirás o mesmo, agora que também te deves estar a deitar numa cama vazia.
Se ao menos houvesse alguma maneira de prolongar a sensação de te ter
junto a mim, captá-la, guardá-la, senti-la sempre que quisesse... Sei que, invariavelmente,
a memória acabará por se desvanecer e quero lutar contra isso com todas as
minhas forças.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Diário de um voluntário
Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho
voluntário. Estava entusiasmado por ajudar as pessoas, por servir a comunidade!
Nessa noite, não consegui dormir… Nem nas seguintes. A miséria que presenciei,
os rostos que vi, nada me saía da mente quando finalmente repousava a cabeça na
almofada. Tantas histórias por aí perdidas, tantas vidas que ficaram a meio. E
nós, distraídos com os mais mundanos assuntos, chafurdando na riqueza que
chamamos de escassa. Quando cheguei a casa, por volta das três da manhã, depois
de fazer a volta numa carrinha por Lisboa a distribuir comida e mantas aos que
na rua se abrigam, comecei a digerir tudo quanto os meus olhos haviam visto
naquela noite. Só aí, quando a minha mente repousou, tanto quanto é possível
repousar depois da primeira vez que se desempenha tal tarefa, comecei a
processar tudo quanto vira e sentira. No momento, a urgência do bem-fazer e o
pragmatismo de ajudar tantos quanto possível não permitem que o cérebro elabore
sobre o que os olhos vêm e torna-os imunes ao que à nossa volta vai tendo
lugar. Mas depois não é assim...
Quando finalmente chegamos ao lar que chamamos
de nosso, disfrutamos de uma refeição quente e abundante e nos deitamos num
colchão macio é que nos apercebemos que aquela gente não tem nem lar, nem cama
e a refeição é escassa. O processo seguinte é olhar para o telemóvel de segunda
geração, para o computador já desatualizado e para o risco que se tem na porta
do carro e perceber que são esses os nossos problemas mais urgentes. Damos por
nós a desejar possuir a gama mais alta de tudo quanto tocamos e esse desejo só
desaparece naquele momento, quando chegamos à cama depois de uma volta nas
carrinhas da noite. E acreditem, elas andam aí todas as noites. Sempre que
estiverem confortavelmente a dormir nas vossas camas delicadas, sempre que
estiverem a desejar por um telemóvel mais avançado, por um computador topo de
gama ou por uma pintura nova para o carro. Têm de andar. Para aqueles voluntários
não há outra maneira, outra opção. Eles já viram a realidade, já não estão
protegidos no nosso castelo de marfim onde os sonhos vêm através de um ecrã de
alta resolução. Eles já viram a miséria, a pobreza, a dificuldade. Já não
conseguem ignorar o assunto.
Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho
voluntário. Lembro-me particularmente de estar no duche e lavar essencialmente
a alma, as mágoas, e não o corpo que não estava sujo comparado com a sujeira
que os meus olhos tinham visto nessa noite. Subitamente dei pela minha mente a
vaguear e os meus desejos já não eram os mesmos. Mil ideias assaltavam a minha
mente, ideias empreendedoras para combater a pobreza e acabar com tudo o que
tinha visto. E eram boas ideias! Numa só noite consegui identificar vários
problemas graves que necessitam de solução e identifiquei também algumas
soluções. Ideias... Ideias que a pequenez da idade e a ingenuidade do saber não
permitiram que saíssem da mente. Nunca na minha vida me senti tão impotente. Um
sentimento apenas comparável ao amor não correspondido. Algo tão arrebatador
que nos prende num colete-de-forças, corpo e alma. Somos esmagados pela vida,
por tudo quanto nos rodeia e não temos qualquer meio ao nosso alcance para
escapar a tal fado.
Lembro-me também que era uma sexta-feira, noite de festa
para muitos jovens. Lembro-me de uns bêbedos, outros a meio caminho, uns com as
namoradas, outros à procura delas, todos alheios à realidade que estava a
acontecer ali mesmo ao lado. Quantos passaram, no seu caminho para os bares ou
discotecas desta cidade, e nem um olhar de preocupação nos deitaram, nem
curiosidade tampouco. Jovens iludidos pelos prazeres mundanos, imediatos,
efemeridades que buscam incessantemente e que lhes roubam o tempo para pensarem
no que significa a vida. Será que só cá andamos para viver as coisas boas,
experimentar o radical, ir ao limite e ter a sensação que de facto estamos a
desafiar a perigosidade? Que há mais de limite do que alimentar um sem-abrigo
nas ruas de uma cidade indiferente? Que há mais de limite do que conhecer as
histórias de quem já foi como nós e agora vive assim, sem nada? Nada, eu vos
digo, nem que saltem de um avião. Aí, terão sempre um para-quedas... Não há
para-quedas que nos salve a alma quando olhamos nos olhos de um sem-abrigo e
não lhe sabemos explicar por que razão é ele quem está ali, vestindo as roupas
da sua condição, e não nós que nascemos numa família que nos deu pelo menos o
mínimo indispensável.
Um homem não é aquele que enfrenta o touro ou o abismo,
que faz truques com o carro ou com a bicicleta, que desafia o medo com qualquer
desporto estúpido. Um homem é aquele que chora ao ver a miséria, o sofrimento.
Não é um choro de prostração, de incapacidade. É sim um choro de quem se abre
ao mundo para o compreender, de quem se abre às emoções, às sensações, e se
deixa tocar. Já pouco toca o homem, ser que se fechou aos sentimentos. Já nem o
amor encontra o seu caminho até à alma do sujeito. Que esperança há para uma
humanidade assim? Uma humanidade que vê a miséria e desvia o olhar pensando
apenas na noite maravilhosa que vai ter com os seus amigos num bar qualquer por
aí... Não basta ver o sofrimento, nem tampouco ajudar a corrigi-lo. É preciso
sentir, sentir o mundo, sentir os nossos semelhantes. É isso que nos torna
humanos! A nossa capacidade de sentir e de nos deixamos tocar por sentimentos,
emoções e sensações. A ajuda é bem-vinda e necessária mas esgota-se em si mesma
quando não parte de uma alma tocada. Tal como acontece ao relacionamento
amoroso que não tem o amor por sua base.
Nessa noite não dormi. Foi a minha chamada de
atenção. Julgava que ia colecionar mais uma experiência, uma vivência sem
sentido, mas foram aquelas pessoas que acabaram por colecionar mais um
voluntário para a sua causa, mais uma alma tocada pela miséria que se esconde
debaixo de um viaduto secundário ou num canto resguardado dos olhares curiosos.
Senti uma tristeza muito grande. Ver-me naquela situação, conhecer aqueles que
nada têm e apenas me vinham à memória as caras dos transeuntes anónimos que passavam
alegremente por nós. Que alegres eles estavam, que felizes! Como se pode ser
alegre ou feliz quando ao nosso lado tem lugar a plena degradação humana? Como
pode isso não tocar a alma de alguém? Que angústia sentia eu naquela altura! O
peso nos ombros de toda aquela situação, carregar comigo aquela mala de viagem
tão pesada e os outros à minha volta sem me oferecer ajuda ou sequer reparar
que a transportava comigo.
Aquela noite foi decisiva na minha maneira de
pensar, de ver o mundo. Não mais poderia ser um caçador de experiências
efémeras, de futilidades passageiras. Não mais seria o mesmo, não depois de
experienciar todos aqueles sentimentos tão fortes e poderosos. Decidi que
chegara o momento de fazer algo por aquela gente e por esta sociedade que vive
tão despreocupada e enganada. Decidi que iria dedicar a minha vida a criar
algo, a desenvolver uma obra, algo que fizesse a diferença na vida das pessoas,
na sociedade do meu país. Decidi que iria meter mãos à obra para, um dia mais
tarde, ser capaz de dar o meu contributo para reverter ou, pelo menos, atenuar
esta situação. Foi assim que abri os olhos para o que está a acontecer à minha
volta, foi assim que percebi o significado de ser humano, de estar vivo, de
habitar este mundo. Foi assim que me tornei num voluntário.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
A rapariga do fundo da sala
Um olhar indiscreto. O embaraço
de uma espreitadela demorada, daquelas em que os olhares se cruzam e se
demoram, como que presos um ao outro. E depois a vergonha, as faces a corar, a atrapalhação
de não saber que posição dar ao corpo. Dizem que a primeira impressão é
fundamental na formação do juízo que se tem sobre a pessoa. Esta foi a minha
primeira impressão: eras a rapariga do fundo da sala. Aquela para quem eu
olhava quando já não suportava a monotonia do restante, aquela para quem eu
olhava para me sentir mais vivo, para sentir que não estava a definhar por
dentro. Causavas várias reações em mim e promovias os mais diversos
pensamentos. Fazias mexer o mecanismo cá dentro e, assim, eu sabia que não
estava morto, a definhar. Já não estamos aí, já não podemos estar aí. Estamos
noutro lado qualquer, talvez melhor, sem dúvida mais interessante. Caminhamos
em direção a algo que desconhecemos, que ignoramos, que tememos. Mas eu sei que
é aí que quero estar. Eu sei que é esse o caminho que quero percorrer.
Dás-me a tua mão?
domingo, 19 de maio de 2013
Atenciosamente, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã
Paralisada no banco do
autocarro, entorpecida pelo sol do fim de tarde, os seus pensamentos teimavam
em repetir as palavras ditas pela amiga que, no seu discurso habitual e
tipicamente característico, descrevia um rapaz…
Por instinto ou puro devaneio, sentiu que tinha de conhecê-lo ou pelo menos tentar. Impulso estranho esse, que a fazia começar a duvidar da sua sanidade mental. Sentir tanta atração, tanto desejo, tanta curiosidade? Nunca antes fora dada a esse tipo de atitudes, parecia uma miúda de quinze anos. E ainda nem o conhecia! Talvez fosse essa a lenha que alimentava o fogo que agora lhe crescia por dentro. Da rapariga que escovava os cabelos naquele quarto escuro sobrava já muito pouco, quase nada, um nada disforme. Agora envolvia-se violentamente, a placidez parecida ter ficado guardada na mesa da cómoda do quarto. Normalmente não fazia isso, não se deixava envolver dessa maneira. Normalmente controlava a ansiedade, reprimia o desejo pelo mistério e desconhecido. Mas que teria a perder agora? Já não estava em casa, nem tão pouco perto dela, já não estava no seu “normalmente”, era tempo do diferente. Na sua mente decidiu deixar o fogo alastrar, como se tivesse escolha. E como se tivesse escolha deixou o seu coração palpitar com força e rapidez.
Queria conhecer o rapaz. Sentada naquele banco de autocarro, pensava na melhor maneira de perguntar à amiga a seu lado como o poderia fazer. Não queria parecer uma qualquer desesperada que corre atrás de um qualquer rapaz. Não conhecia a amiga há tanto tempo assim e não tinha com ela essa cumplicidade que permite ver para além das palavras. Por isso, tinha de as escolher bem. Estava em Lisboa não fazia ainda uma semana e aquela era a sua única amiga, ainda não tivera tempo de conhecer outras pessoas. Com aquela dividia a sua casa, ou melhor, a amiga é que dividia a sua casa consigo. Filha da família que a acolhera, tecnicamente sua “irmã de acolhimento”, era imperativo transparecer uma boa imagem. Não queria parecer muito interessada no rapaz que a amiga descrevia, ainda para mais depois de uma longa conversa sobre o seu namorado deixado em casa, no outro continente. Não era correto. Mas também não o era reprimir aquela vontade, aquele desejo do diferente, do novo, do desconhecido. Afinal era para isso que ali estava. Olhou simplesmente nos olhos da sua companheira e, calmamente, disse-lhe:
- Tenho de o conhecer.
A resposta foi o
silêncio, um olhar cúmplice que lhe penetrou a alma e a acalmou como quem diz
«relaxa, está tudo tratado». Do bolso da mala, a sua amiga tirou uma folha e
uma caneta. Passou-lhe papel e entregou-lhe a caneta ordenando-lhe que lhe
escrevesse as seguintes palavras:
“Concede-me
a honra de o conhecer?
Atenciosamente,
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã”
Nada mais precisou de ser
dito, nada mais precisou de ser escrito. A rapariga viria a conhecer o rapaz e
esse evento mudaria a sua vida.
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