... continuação
Os seus modos voltaram-se a alterar, eram de
novo cuidadosos e gentis. Nas páginas, já só as pontas dos dedos tinham
permissão para tocar e o dedo mindinho estava de novo entesado, erguido como
uma antena que se esforça por sintonizar o relato. Os olhos não despregavam das
linhas, as quais seguia com feroz intensidade. O que parecia ser uma simples e
relaxada caminhada no parque, veio-se a revelar numa intensa corrida contra o
tempo, quase como se o mundo desabasse atrás dele e Eliseu se esforçasse por
atingir terreno seguro, a sua salvação. Mas não seria naquelas páginas que
Eliseu encontraria salvação, ou paz, ou felicidade, ou qualquer outra coisa de
maior que o ser humano tanto deseje e persiga. Entre as linhas daquele livro,
já meio desbotadas, espreitava o incerto, a inquietação, a perdição das
certezas em que nos habituámos a acreditar.
A história de uma vida comum, uma vivência sem
grandes feitos ou particularidades, uma história de amor como há tantas por aí.
O miolo do livro não tinha novidade, nem originalidade, nem frescura alguma.
Histórias como aquelas existem em abundância, sempre existiram, desde que o
primeiro dos homens olhou para a primeira das mulheres e se apaixonaram. As
páginas daquele velho livro eram o relato de uma velha vida, de uma vida comum
como as nossas. Nascer, viver e morrer. Sempre por esta ordem. Aquele livro era sobre viver, sobre a
vida, sobre todas as coisas que nos levam a levantar da cama diariamente.
Eliseu continuou a ler, quase sem conseguir despregar os olhos de cada página.
Já nem o pó incomodava a sua asma. E o livro continuava com a sua
história, escrita em jeito meio tosco. Mas era fluído, o raciocínio mesclava-se
bem com o pensamento de quem o lia. Talvez isso só acontecesse com Eliseu,
talvez porque achava tudo aquilo familiar, demasiado familiar. Estranho. Nunca
antes tinha visto aquele livro, nem lido aquela história, nem sentido aquele cheiro
peculiar que tinham as páginas.
Continua...