Quinze horas. Eram já quinze horas quando olhou
para o relógio que trazia preso ao pulso esquerdo. Eliseu espantou-se, tinha
chegado ali ao meio dia para almoçar e já eram três da tarde. Nem tinha dado
pelo tempo passar. A sua cabeça já não era como antes, estava cada vez mais
distraído. Ou talvez o livro fosse assim tão interessante. Interessante o
suficiente para o alienar do mundo real, para o mergulhar tão intensamente no
imaginário da sua história.
Eliseu decidiu que era tarde, que já não tinha
idade nem disposição para uma tarde passada na esplanada. Levantou-se e arrumou
a cadeira. A sua decisão fora tão forte e repentina que se esqueceu de pagar a
despesa. E saiu. Morava perto, aliás, morava no quarto andar esquerdo do prédio
do café, o estabelecimento onde almoçava todas as quintas-feiras, sempre à
mesma hora. Dizem que os hábitos antigos custam a morrer. Eliseu tinha esse
hábito. Criara-o pouco depois do falecimento da sua esposa. Nunca falhara uma
quinta-feira desde então. O hábito era monótono, sempre igual. Apenas variava
nas iguarias que Eliseu escolhia como refeição que, note-se, pecavam claramente
na elaboração requintada.
Apenas cinco anos depois, cinco anos de hábito e de
rotina, algo de novo e surpreendente acontecera. Bastara um livro velho e
poeirento, esquecido em cima de uma mesa, para criar um acontecimento, algo
digno de espanto. Eliseu já não se interessava por muitas coisas na vida. Tudo
lhe parecia sem cor, sem sabor, cada vez mais a progredir numa escala de
cinzentos para o negrume. Para onde quer que olhasse, Eliseu via o perigo, o
negativo, o risco, o desinteresse.
Continua...