quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A morte das palavras que repousam na obra

As palavras acabadas morreram. Agora tudo é editável! Morreram as histórias terminadas, as frases finalizadas. Agora tudo é discutível, tudo é debatido e anotado. A literatura já não é arte, o escritor já não é artista. Que escrita é essa a que carece de explicação? 

Um livro é o que é, uma obra acabada, um texto com um fim, com uma mensagem que lhe é inerente. Um livro representa uma história que um escritor quer transmitir, uma mensagem, um significado, algo... Algo que está entre a capa e a contracapa e que não vai para além disso senão no espírito do leitor e nas suas interrogações ou alterações de comportamento. Que livro é esse que é debatido, e alterado, e anotado, e reescrito, e censurado, e explicado? 

Um livro é um livro e nada mais. Não me expliquem uma história, por favor! Se ela carecer de explicação então não merece ser compreendida e muito menos merecia ser lida. Um livro é um livro, uma mensagem de alguém que me chega às mãos sobre essa forma, de um livro. O texto obrificado que vale por esse acabamento finalizado que não pode ser posto em causa, capaz de se fazer perceber de maneiras diferentes a cada leitura. Mediante discussão, explicação e alteração onde está a arte? O texto passa a ser um objeto, um ponto de partida para um debate que não faz sentido a quem o escreveu. A mensagem é do escritor que a escreve e do leitor que a lê. Não serve para escrutínio em praça pública por usurpadores de frases alheias. 

Sobre a escrita do escritor só vale a opinião do leitor, só isso e nada mais. Nem regras nem preconceitos, nem censura nem preceitos. Quem cria a obra é o artista, quem melhor para saber o que deve ou não ser feito? O gosto pessoal é conta de outro rosário, é isso mesmo, pessoal, pessoal e intransmissível. Agora já não há palavras acabadas nem livros fechados. São tudo ficheiros que andam por aí, perdidos em parte incerta. Nunca chegam a ser teus, nunca lhes tocas. Podes perdê-los sem nunca os teres encontrado. Não os podes folhear, levar debaixo do braço, emprestar a um amigo ou namorada, admirar numa estante. Agora já não há livros. São só palavras perdidas por esses computadores. Frases desordenadas que são baralhadas e distribuídas ao calhas, sem uma disposição cuidada na página, preparada ao milímetro a rigor com a história. 

Dizia-se que história e livro não podem viver um sem o outro. É uma capa dura ou mole que faz o livro, é a gramagem do papel que lhe dá alma é o tipo de letra que liberta a mensagem e a deixa voar para além das páginas. As palavras acabadas morreram. Agora tudo é editável!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Choro por dentro

Alguém muito especial na minha vida não pára de me pedir por uma carta de amor. Eu sempre lhe tenho dito que as melhores coisas vêm quando menos se espera. Espero conseguir surpreendê-la pois ela não está à espera de receber esta declaração de amor hoje e muito menos de uma forma tão pública como o meu blogue, mas eu acho que as melhores coisas da vida devem ser partilhadas e por isso aqui vai: Amo-te Mara. Aqui está a tua carta de amor. Espero que a espera se revele proveitosa e que tenha valido a pena!

--- <3 ---

Choro por dentro. Uma angústia terrível assola-me a alma de maneira violentamente subtil e deixa-me indefeso, sem capacidade de reação. Ontem encontrei-te, hoje desejo-te de volta. Será que nunca mais te verei, que foi coisa de uma só vez? Por que são sempre essas que me arrebatam o espírito e me submetem à insaciável vontade de ter mais? Penso que não te posso ter, cruel pensamento para quem te deseja com tanta força. Nunca antes tinha visto tamanha beleza e graciosidade, nem tampouco beijado e abraçado tão bela mulher. Agora que me deito, desejo não estar sozinho, desejo partilhar contigo a minha cama, aninhar-me contigo pela noite dentro. E não consigo adormecer. 

Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. Será que nunca mais beijarei os teus lábios? Pensamento que me consome qual labareda infernal dentro do meu estômago. Em torno do pescoço, sinto uma corda que se aperta mais e mais a cada momento, tornando-se extremamente complicado respirar. A garganta seca e o olhar vazio, a angústia. Sinto um apelo fortíssimo em deixar tudo e partir ao teu alcance enquanto a tua presença ainda se encontra no meu modesto raio de ação. Desejo ver-te outra vez mas será que algo irá mudar? A angústia não passará, apenas será adiada. Seja hoje ou amanhã, a nossa despedida é inevitável. Eu não pertenço aqui. Parto amanhã para de onde não é certo voltar. De que serve ver-te de novo, saciar a louca vontade de ti? Sei que nunca conseguirei captar-te a essência, guardar-te para mim. Hoje ou amanhã, irás sempre tornar-te numa memória e nada mais que isso. 

Oh, como eu desejo a evitabilidade do inevitável... Se ao menos fosse eu dono do destino, nunca partiria de junto de ti. Serias a tal e assim te trataria. A mulher mais bela que alguma vez conheci, beijei, abracei... E parto no dia seguinte. A diversão que dá lugar à lágrima, o êxtase que dá lugar à angústia. Pergunto-me se sentirás o mesmo, agora que também te deves estar a deitar numa cama vazia. Se ao menos houvesse alguma maneira de prolongar a sensação de te ter junto a mim, captá-la, guardá-la, senti-la sempre que quisesse... Sei que, invariavelmente, a memória acabará por se desvanecer e quero lutar contra isso com todas as minhas forças. Não anseio o amanhã. Não aguardo o futuro. De que serve um amanhã sem o hoje e um futuro desligado do presente? Terei eu algum futuro? Enquanto for hoje, tenho-te em mim, cada gesto e cada olhar marcados na memória. Amanhã não sei. Que surpresas me reservará o destino a que me forçam? Luto para eternizar o hoje, cristalizá-lo num globo de neve que exibo em cima do tampo da minha secretária. Não é fácil… O sol esconde-se, as pálpebras começam a pesar. 

O céu está estrelado, salpicado de inúmeros pontinhos luminosos que aparecem aos meus olhos como puras recordações da mulher que amo. Tenho medo de me esquecer, de te esquecer quando largar o último suspiro. Não deve faltar muito para esse momento. Sei que o teu rosto será a última coisa que verei quando os meus se fecharem hoje. E amanhã? Verei o teu corpo no inimigo anónimo que me trespassará? Choro por dentro. Estes pensamentos consomem-me a alma. Com sorte, nem duro para ver o levantar do sol, morro já hoje, agonizado pelo dilaceramento dos meus interiores. Ao menos sei que partiria a pensar em ti. Tenho medo, nunca to disse mas tenho muito medo. Faltou o tempo para falar sobre estes assuntos, veio o tempo para os vivermos. Um dia parece uma vida mas não oferece o que uma vida tem para oferecer. Os sorrisos que poderíamos ter trocado, os passeios à beira-rio que poderíamos ter dado, os gelados que poderíamos ter comido a meias, as mãos-dadas, os espetáculos, as músicas, os livros, os corpos nus abrigados sob os lençóis… Não houve tempo para fazer tudo isso, apenas para o desejar. Bastou um dia como o de hoje para perceber que nunca antes conhecera a felicidade. Talvez ainda fuja. Talvez ainda passe em tua casa e te furte do mundo para que fujamos juntos desta vida que nos separa. E viveríamos para sempre escondidos, alheados de tudo, privados sequer de ver os carros circular e os prédios altos de cimento a brotar do chão? Tu és nova, não mereces tal sorte, a sorte de um amor libertador que te confinaria ao oculto de uma caverna. Que liberdade é essa? A liberdade de amar enquanto se foge incessantemente? Não te posso desejar tamanho mal quando nem sequer sei se o amor que sinto por ti se materializa na reciprocidade do teu afeto. Acho que nunca o saberei. Lá para onde parto não há serviço de correios. Esta é a primeira e também a última carta que trocaremos, uma carta sem direito a resposta. Quantas vezes na vida não temos o direito de resposta, ou sequer de escolha? 

Vinte e cinco anos desligado deste mundo e o amor escolhe emboscar o meu coração na véspera da minha inalterável partida? Que fado me assiste! Obrigam-me a uma partida sem retorno e, ainda que o houvesse, quando seria? E o que encontraria quando regressasse? Estarias ainda à minha espera ou seria eu condenado à vida sem a tua companhia? Antes a morte! Antes ficar sepultado por lá para onde vou! Espero que esta carta chegue ao seu destino, que chegue até ti e que a guardes. A memória do nosso amor morre comigo, desvanece-se em ti, apenas perpetuada pela tinta deste papel. Guarda-o bem! Que eu não te recorde frente à espada que me há-de perpassar mas que o futuro conserve inscrita a prova irrefutável de que te amo acima de qualquer outra coisa! 

Hoje não consigo adormecer. Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. A possibilidade inefável de nunca mais vir a beijar os teus lábios… Hoje já não adormeço, amanhã parto para a guerra.

P.S. - Não te preocupes que não vou a lado algum!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Limbo | poema

Limbo. O poema que andei a escrever durante os últimos tempos.
Deixo aqui apenas um excerto pois a versão completa é longa e está guardada para outra ocasião...
Que vos apraz dizer sobre isto?

Limbo.
Odeio o limbo.
A fronteira entre ser e não ser.
O caminho sinuoso da moralidade bafienta
que me arrasta para o pântano do que não quero ser,
do que abomino ser.
Uma linha ténue que não se vê,
que não se toca,
que não se cheira,
que não se sente
e, no entanto, que somos forçados a seguir,
calcando a sua distância com uma pegada certeira
que não admite o mínimo desvio.
O limbo.
Odeio o limbo.
Uma regra estabelecida,
um juízo alheio,
um preconceito.
E somos forçados a segui-lo!
E somos forçados a caminhar ao longo do já trilhado,
uma via rápida entre o certo e o errado,
entre o aceitável e o abominável...
Não poderei eu fazer as minhas escolhas?
Viver ao sabor das minhas próprias decisões,
discernir por onde caminhar.
A linha é reta.
A linha é estreita.
Não há margem para o erro
nem tampouco para o sucesso,
só para o sucesso dos outros,
para o dos que começaram ainda os caminhos não estavam abertos.
Agora são altos os muros erguidos,
que nos obrigam a manter a trajetória linear,
sempre igual a si própria
mantendo-nos sempre iguais,
iguais a nós próprios.
Escondem os prados verdejantes,
a areia dourada e a água turquesa,
as montanhas caiadas de branco no alto do seu pico,
a floresta velha na grossura dos seus troncos
e a jovem na frescura das suas folhas.
Tudo se esconde, oculto.
O caminho possível é pobre na sua estreiteza
e curto no horizonte.
O mundo está lá fora, do outro lado
do lado b da realidade que julgamos una.
Que tristeza a nossa limitação!
Que podridão se instala no interior!
O limbo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O livro que Eliseu leu - quinta parte

... continuação

Quinze horas. Eram já quinze horas quando olhou para o relógio que trazia preso ao pulso esquerdo. Eliseu espantou-se, tinha chegado ali ao meio dia para almoçar e já eram três da tarde. Nem tinha dado pelo tempo passar. A sua cabeça já não era como antes, estava cada vez mais distraído. Ou talvez o livro fosse assim tão interessante. Interessante o suficiente para o alienar do mundo real, para o mergulhar tão intensamente no imaginário da sua história. 

Eliseu decidiu que era tarde, que já não tinha idade nem disposição para uma tarde passada na esplanada. Levantou-se e arrumou a cadeira. A sua decisão fora tão forte e repentina que se esqueceu de pagar a despesa. E saiu. Morava perto, aliás, morava no quarto andar esquerdo do prédio do café, o estabelecimento onde almoçava todas as quintas-feiras, sempre à mesma hora. Dizem que os hábitos antigos custam a morrer. Eliseu tinha esse hábito. Criara-o pouco depois do falecimento da sua esposa. Nunca falhara uma quinta-feira desde então. O hábito era monótono, sempre igual. Apenas variava nas iguarias que Eliseu escolhia como refeição que, note-se, pecavam claramente na elaboração requintada. 

Apenas cinco anos depois, cinco anos de hábito e de rotina, algo de novo e surpreendente acontecera. Bastara um livro velho e poeirento, esquecido em cima de uma mesa, para criar um acontecimento, algo digno de espanto. Eliseu já não se interessava por muitas coisas na vida. Tudo lhe parecia sem cor, sem sabor, cada vez mais a progredir numa escala de cinzentos para o negrume. Para onde quer que olhasse, Eliseu via o perigo, o negativo, o risco, o desinteresse.

Continua...

domingo, 25 de agosto de 2013

O livro que Eliseu leu - quarta parte

... continuação

Os seus modos voltaram-se a alterar, eram de novo cuidadosos e gentis. Nas páginas, já só as pontas dos dedos tinham permissão para tocar e o dedo mindinho estava de novo entesado, erguido como uma antena que se esforça por sintonizar o relato. Os olhos não despregavam das linhas, as quais seguia com feroz intensidade. O que parecia ser uma simples e relaxada caminhada no parque, veio-se a revelar numa intensa corrida contra o tempo, quase como se o mundo desabasse atrás dele e Eliseu se esforçasse por atingir terreno seguro, a sua salvação. Mas não seria naquelas páginas que Eliseu encontraria salvação, ou paz, ou felicidade, ou qualquer outra coisa de maior que o ser humano tanto deseje e persiga. Entre as linhas daquele livro, já meio desbotadas, espreitava o incerto, a inquietação, a perdição das certezas em que nos habituámos a acreditar.


A história de uma vida comum, uma vivência sem grandes feitos ou particularidades, uma história de amor como há tantas por aí. 


O miolo do livro não tinha novidade, nem originalidade, nem frescura alguma. Histórias como aquelas existem em abundância, sempre existiram, desde que o primeiro dos homens olhou para a primeira das mulheres e se apaixonaram. As páginas daquele velho livro eram o relato de uma velha vida, de uma vida comum como as nossas. Nascer, viver e morrer. Sempre por esta ordem. Aquele livro era sobre viver, sobre a vida, sobre todas as coisas que nos levam a levantar da cama diariamente. Eliseu continuou a ler, quase sem conseguir despregar os olhos de cada página. Já nem o pó  incomodava a sua asma. E o livro continuava com a sua história, escrita em jeito meio tosco. Mas era fluído, o raciocínio mesclava-se bem com o pensamento de quem o lia. Talvez isso só acontecesse com Eliseu, talvez porque achava tudo aquilo familiar, demasiado familiar. Estranho. Nunca antes tinha visto aquele livro, nem lido aquela história, nem sentido aquele cheiro peculiar que tinham as páginas.

Continua...

sábado, 27 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - terceira parte

... continuação

Tal como se previra e Eliseu adivinhara. No seu juízo precipitado, apenas o julgamento da história se viu errado, não era impercetível, nem estranha, nem invulgar. Antes, era bem familiar e acolhedora. Sem saber muito bem como, nem porquê, a articulação daquelas letras feitas palavras formava um conjunto com um significado que Eliseu começava a achar próximo a cada página que passava. 

Como poderia aquele livro, perdido e encontrado, encontrado porque perdido, transportar uma qualquer mensagem capaz de penetrar Eliseu? «Que feitiçaria seria aquela?», pensou ele a determinado momento. Eliseu fechou o livro repentinamente. Tinha abandonado todos os cuidados e mariquices com que tratara aquele velho livro até então. Olhou em redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra; chegou até a virar-se para trás. Quem estaria a observá-lo? Não viu ninguém.


Levantou-se e arrumou a cadeira em que tinha estado sentado, debaixo da mesa. Pegou no chá fumegante que bebericava naquela tarde solarenga, olhou em redor uma vez mais (pertenceria aquele livro a alguém e o dono estaria a observá-lo?), pegou no livro e colocou-o debaixo do braço, preso no sovaco direito. Dirigiu-se para a esplanada do café. A mesa a que se sentou erguia-se junto ao pilar que ajudava a suportar as arcadas da fachada do prédio. O seu novo assento deixava-o de costas coladas ao pilar, de frente para o rio, com vista privilegiada a toda a sua volta. 

Eliseu não estava confortável em mexer naquele livro, nem com a situação, nem consigo mesmo. Escolhera um lugar que impossibilitasse a surpresa à retaguarda, aproveitando-se alguém do seu ângulo morto de visão. A razão por que o fez nem ele próprio a conhecia. Olhou de novo em seu redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra, como se alguém se interessasse pelos interesses de um velho homem num velho livro. Já tudo na sua ação era inconsciente, irrefletido, a roçar a paranoia. 
Então leu, abriu de novo o livro poeirento de capa velha e roçada e leu. 

Continua...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - segunda parte

... continuação

Eliseu olhava o livro. Parecia-lhe que ele causava alguma espécie de atração sobre si, uma atração que suplantava todos os pensamentos de rejeição àquele velho livro que lhe cruzavam a mente. Apesar de o seu pensamento tecer considerações pejorativas que formavam um juízo negativo sobre o livro, o seu olhar não conseguia não repousar sobre ele. Era um livro misterioso, velho mas misterioso, misterioso porque velho. Eliseu olhava-o. Olhou-o até se conseguir levantar da cadeira, mover-se até à mesa onde o livro se encontrava e lhe deitar a mão. Então segurou-o. Eliseu mexeu-lhe, folheou-o, cheirou-o, tossiu com a asma a dar de si. Eliseu era velho, tão velho quanto aquele livro. 

Eliseu estava gasto, tão gasto quanto aquele livro, tão roçado pela vida, tão comido pelo sol. Os anos tinham passado e com eles vieram as dores, o ranger dos ossos, as maleitas múltiplas que acusavam as múltiplas vivências. Sentou-se de novo no lugar que era seu apenas pela ocasião de se ter ali sentado primeiro que qualquer outra pessoa naquela tarde e leu. O livro rangeu ao abrir, tal como rangeu a anca de Eliseu ao sentar-se na cadeira. Segurava as páginas com cuidado, a medo, como se o papel se fosse desintegrar ao toque da pele ensebada e engrossar a poeira que jorrava de entre as mesmas. 

Eliseu segurava-o muito direito, pousado em cima da mesa, e manuseava-o com extremo cuidado e interesse. A cada virar de páginas servia a ponta do polegar e do indicador para segurar a pontinha da folha e o mindinho, esticado, para indicar a cautela da operação. O interior, esse, era aborrecido. As letras que enchiam as páginas amareladas e bolorentas formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. 

Continua...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - primeira parte

O livro poeirento de capa velha e roçada estava em cima da mesa mesmo no centro do café. Eliseu olhou-o. A tinta que dava forma às letras da capa estava sumida, gasta pelos anos de uso, tantos quantos tinha aquele livro - adivinhavam-se muitos e longos. Os cantos das páginas eram arredondados, não por qualquer opção editorial ou estética publicitária mas pelo envelhecimento natural do papel, pelo roçar dos cantos nas pastas de cabedal, e depois nas mochilas de tecido e também nas estantes de madeira e de metal pelas quais tinha passado. Era velho, usado, antigo. Era poeirento e comido, pelo sol claro está. A capa castanha, como se usava no seu tempo de publicação, conferia-lhe um ar pesado, aborrecido até. Fazia-se adivinhar que no seu interior as letras formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. Adivinhava-se também que a junção dessas palavras formava uma história sem interesse, um relato impercetível de uma vivência estranha e invulgar, como já não há nem pode haver. As histórias perdidas no tempo que já não é presente e que, por isso mesmo, já não têm lugar no mundo de hoje, no mundo que já não é o mesmo e que fechou as portas aos modos antigos de fazer, e de ser. Eliseu olhava-o. Pensava que ali não iria encontrar nada de interessante, nada digno do esforço da leitura, nada que o enriquecesse. O livro poeirento de capa velha e roçada repousava no tampo da mesa no centro do café, quase como se estivesse perdido e desejasse ser encontrado. Estranho pensamento, um livro não tem desejos, vive à mercê dos acontecimentos que resultam do desejado por outros. 

Continua...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Aos escritores

No topo digladiam-se. Entretêm-se os comandantes em jogos de poder, combatem-se em jogadas palacianas. E nós que assistimos a partir da base, território que nos pertence. Esquecem-se os chefes que comandam o povo, lembra-se o povo que tem nas mãos o poder, aquele que preenche os jogos. E as mesas começam a virar: manifestos aqui, encontros acolá... Os que comandam estão entretidos em birras sem nexo e decisões sem fundamento, cá em baixo, o resto das gentes está a acordar, está a mexer. Subitamente compreende-se que o livro é o do escritor e depois do leitor, que o livro só existe nesta interação, que escrever ainda é uma arte... E começamos a sair para a rua. Tempos perigosos estes que vivemos…

sexta-feira, 24 de maio de 2013

I feel an overwhelming love

Alguma vez te sentiste arrebatada pelo amor? Um sentimento irresistível, esmagador, opressivamente libertador. Um sentimento tão perfeito que parece não ser real, não existir…

É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Choro por dentro

Choro por dentro. Uma angústia terrível assola-me a alma de uma maneira violentamente subtil que me deixa indefeso e sem capacidade de reação. Ontem encontrei-te, hoje desejo ter-te de volta. Sei que nunca mais te verei, que foi coisa de uma única noite. Por que são sempre essas que me arrebatem o espírito e me submetem à insaciável vontade de ter mais? Hoje sei que não te posso ter, cruel destino para quem te deseja com tanta força. Nunca antes tinha visto tamanha beleza e graciosidade, nem tão pouco beijado e abraçado tão bela mulher. Agora que me deito, desejo não estar sozinho, desejo partilhar contigo a minha cama, aninhar-me contigo pela noite dentro. E não consigo adormecer. Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. 

Sei que nunca mais beijarei os teus lábios e isso consome-me qual labareda infernal que arde dentro do meu estômago. À volta do pescoço, sinto uma corda que se aperta mais a cada momento tornando extremamente complicado a respiração. A garganta seca e o olhar vazio. A angústia. Sinto um apelo fortíssimo em deixar tudo e partir ao teu alcance, enquanto a tua presença ainda se encontra no meu modesto raio de ação. Desejo ver-te outra vez mas sei que nada irá mudar. A angústia não passará, apenas será adiada. Seja hoje ou amanhã, a nossa despedida é inevitável. Tu não pertences aqui. De que serve ver-te de novo, saciar a louca vontade de ti? Sei que nunca conseguirei captar-te a essência, guardar-te para mim. Hoje ou amanhã, irás sempre tornar-te numa memória e nada mais que isso. Oh, como eu desejo a evitabilidade do inevitável... Se ao menos fosse eu dono do destino, nunca partirias de junto de mim. Serias a tal e assim te trataria. A mulher mais bela que alguma vez conheci, beijei, abracei… E partes no dia seguinte. A diversão que dá lugar à lágrima, o êxtase que dá lugar à angústia. Pergunto-me se sentirás o mesmo, agora que também te deves estar a deitar numa cama vazia.

Se ao menos houvesse alguma maneira de prolongar a sensação de te ter junto a mim, captá-la, guardá-la, senti-la sempre que quisesse... Sei que, invariavelmente, a memória acabará por se desvanecer e quero lutar contra isso com todas as minhas forças.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Diário de um voluntário


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Estava entusiasmado por ajudar as pessoas, por servir a comunidade! Nessa noite, não consegui dormir… Nem nas seguintes. A miséria que presenciei, os rostos que vi, nada me saía da mente quando finalmente repousava a cabeça na almofada. Tantas histórias por aí perdidas, tantas vidas que ficaram a meio. E nós, distraídos com os mais mundanos assuntos, chafurdando na riqueza que chamamos de escassa. Quando cheguei a casa, por volta das três da manhã, depois de fazer a volta numa carrinha por Lisboa a distribuir comida e mantas aos que na rua se abrigam, comecei a digerir tudo quanto os meus olhos haviam visto naquela noite. Só aí, quando a minha mente repousou, tanto quanto é possível repousar depois da primeira vez que se desempenha tal tarefa, comecei a processar tudo quanto vira e sentira. No momento, a urgência do bem-fazer e o pragmatismo de ajudar tantos quanto possível não permitem que o cérebro elabore sobre o que os olhos vêm e torna-os imunes ao que à nossa volta vai tendo lugar. Mas depois não é assim... 

Quando finalmente chegamos ao lar que chamamos de nosso, disfrutamos de uma refeição quente e abundante e nos deitamos num colchão macio é que nos apercebemos que aquela gente não tem nem lar, nem cama e a refeição é escassa. O processo seguinte é olhar para o telemóvel de segunda geração, para o computador já desatualizado e para o risco que se tem na porta do carro e perceber que são esses os nossos problemas mais urgentes. Damos por nós a desejar possuir a gama mais alta de tudo quanto tocamos e esse desejo só desaparece naquele momento, quando chegamos à cama depois de uma volta nas carrinhas da noite. E acreditem, elas andam aí todas as noites. Sempre que estiverem confortavelmente a dormir nas vossas camas delicadas, sempre que estiverem a desejar por um telemóvel mais avançado, por um computador topo de gama ou por uma pintura nova para o carro. Têm de andar. Para aqueles voluntários não há outra maneira, outra opção. Eles já viram a realidade, já não estão protegidos no nosso castelo de marfim onde os sonhos vêm através de um ecrã de alta resolução. Eles já viram a miséria, a pobreza, a dificuldade. Já não conseguem ignorar o assunto.


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Lembro-me particularmente de estar no duche e lavar essencialmente a alma, as mágoas, e não o corpo que não estava sujo comparado com a sujeira que os meus olhos tinham visto nessa noite. Subitamente dei pela minha mente a vaguear e os meus desejos já não eram os mesmos. Mil ideias assaltavam a minha mente, ideias empreendedoras para combater a pobreza e acabar com tudo o que tinha visto. E eram boas ideias! Numa só noite consegui identificar vários problemas graves que necessitam de solução e identifiquei também algumas soluções. Ideias... Ideias que a pequenez da idade e a ingenuidade do saber não permitiram que saíssem da mente. Nunca na minha vida me senti tão impotente. Um sentimento apenas comparável ao amor não correspondido. Algo tão arrebatador que nos prende num colete-de-forças, corpo e alma. Somos esmagados pela vida, por tudo quanto nos rodeia e não temos qualquer meio ao nosso alcance para escapar a tal fado. 


Lembro-me também que era uma sexta-feira, noite de festa para muitos jovens. Lembro-me de uns bêbedos, outros a meio caminho, uns com as namoradas, outros à procura delas, todos alheios à realidade que estava a acontecer ali mesmo ao lado. Quantos passaram, no seu caminho para os bares ou discotecas desta cidade, e nem um olhar de preocupação nos deitaram, nem curiosidade tampouco. Jovens iludidos pelos prazeres mundanos, imediatos, efemeridades que buscam incessantemente e que lhes roubam o tempo para pensarem no que significa a vida. Será que só cá andamos para viver as coisas boas, experimentar o radical, ir ao limite e ter a sensação que de facto estamos a desafiar a perigosidade? Que há mais de limite do que alimentar um sem-abrigo nas ruas de uma cidade indiferente? Que há mais de limite do que conhecer as histórias de quem já foi como nós e agora vive assim, sem nada? Nada, eu vos digo, nem que saltem de um avião. Aí, terão sempre um para-quedas... Não há para-quedas que nos salve a alma quando olhamos nos olhos de um sem-abrigo e não lhe sabemos explicar por que razão é ele quem está ali, vestindo as roupas da sua condição, e não nós que nascemos numa família que nos deu pelo menos o mínimo indispensável.


Um homem não é aquele que enfrenta o touro ou o abismo, que faz truques com o carro ou com a bicicleta, que desafia o medo com qualquer desporto estúpido. Um homem é aquele que chora ao ver a miséria, o sofrimento. Não é um choro de prostração, de incapacidade. É sim um choro de quem se abre ao mundo para o compreender, de quem se abre às emoções, às sensações, e se deixa tocar. Já pouco toca o homem, ser que se fechou aos sentimentos. Já nem o amor encontra o seu caminho até à alma do sujeito. Que esperança há para uma humanidade assim? Uma humanidade que vê a miséria e desvia o olhar pensando apenas na noite maravilhosa que vai ter com os seus amigos num bar qualquer por aí... Não basta ver o sofrimento, nem tampouco ajudar a corrigi-lo. É preciso sentir, sentir o mundo, sentir os nossos semelhantes. É isso que nos torna humanos! A nossa capacidade de sentir e de nos deixamos tocar por sentimentos, emoções e sensações. A ajuda é bem-vinda e necessária mas esgota-se em si mesma quando não parte de uma alma tocada. Tal como acontece ao relacionamento amoroso que não tem o amor por sua base.


Nessa noite não dormi. Foi a minha chamada de atenção. Julgava que ia colecionar mais uma experiência, uma vivência sem sentido, mas foram aquelas pessoas que acabaram por colecionar mais um voluntário para a sua causa, mais uma alma tocada pela miséria que se esconde debaixo de um viaduto secundário ou num canto resguardado dos olhares curiosos. Senti uma tristeza muito grande. Ver-me naquela situação, conhecer aqueles que nada têm e apenas me vinham à memória as caras dos transeuntes anónimos que passavam alegremente por nós. Que alegres eles estavam, que felizes! Como se pode ser alegre ou feliz quando ao nosso lado tem lugar a plena degradação humana? Como pode isso não tocar a alma de alguém? Que angústia sentia eu naquela altura! O peso nos ombros de toda aquela situação, carregar comigo aquela mala de viagem tão pesada e os outros à minha volta sem me oferecer ajuda ou sequer reparar que a transportava comigo.

Aquela noite foi decisiva na minha maneira de pensar, de ver o mundo. Não mais poderia ser um caçador de experiências efémeras, de futilidades passageiras. Não mais seria o mesmo, não depois de experienciar todos aqueles sentimentos tão fortes e poderosos. Decidi que chegara o momento de fazer algo por aquela gente e por esta sociedade que vive tão despreocupada e enganada. Decidi que iria dedicar a minha vida a criar algo, a desenvolver uma obra, algo que fizesse a diferença na vida das pessoas, na sociedade do meu país. Decidi que iria meter mãos à obra para, um dia mais tarde, ser capaz de dar o meu contributo para reverter ou, pelo menos, atenuar esta situação. Foi assim que abri os olhos para o que está a acontecer à minha volta, foi assim que percebi o significado de ser humano, de estar vivo, de habitar este mundo. Foi assim que me tornei num voluntário.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A rapariga do fundo da sala


Um olhar indiscreto. O embaraço de uma espreitadela demorada, daquelas em que os olhares se cruzam e se demoram, como que presos um ao outro. E depois a vergonha, as faces a corar, a atrapalhação de não saber que posição dar ao corpo. Dizem que a primeira impressão é fundamental na formação do juízo que se tem sobre a pessoa. Esta foi a minha primeira impressão: eras a rapariga do fundo da sala. Aquela para quem eu olhava quando já não suportava a monotonia do restante, aquela para quem eu olhava para me sentir mais vivo, para sentir que não estava a definhar por dentro. Causavas várias reações em mim e promovias os mais diversos pensamentos. Fazias mexer o mecanismo cá dentro e, assim, eu sabia que não estava morto, a definhar. Já não estamos aí, já não podemos estar aí. Estamos noutro lado qualquer, talvez melhor, sem dúvida mais interessante. Caminhamos em direção a algo que desconhecemos, que ignoramos, que tememos. Mas eu sei que é aí que quero estar. Eu sei que é esse o caminho que quero percorrer.
Dás-me a tua mão?

domingo, 19 de maio de 2013

Atenciosamente, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã


Paralisada no banco do autocarro, entorpecida pelo sol do fim de tarde, os seus pensamentos teimavam em repetir as palavras ditas pela amiga que, no seu discurso habitual e tipicamente característico, descrevia um rapaz…

Por instinto ou puro devaneio, sentiu que tinha de conhecê-lo ou pelo menos tentar. Impulso estranho esse, que a fazia começar a duvidar da sua sanidade mental. Sentir tanta atração, tanto desejo, tanta curiosidade? Nunca antes fora dada a esse tipo de atitudes, parecia uma miúda de quinze anos. E ainda nem o conhecia! Talvez fosse essa a lenha que alimentava o fogo que agora lhe crescia por dentro. Da rapariga que escovava os cabelos naquele quarto escuro sobrava já muito pouco, quase nada, um nada disforme. Agora envolvia-se violentamente, a placidez parecida ter ficado guardada na mesa da cómoda do quarto. Normalmente não fazia isso, não se deixava envolver dessa maneira. Normalmente controlava a ansiedade, reprimia o desejo pelo mistério e desconhecido. Mas que teria a perder agora? Já não estava em casa, nem tão pouco perto dela, já não estava no seu “normalmente”, era tempo do diferente. Na sua mente decidiu deixar o fogo alastrar, como se tivesse escolha. E como se tivesse escolha deixou o seu coração palpitar com força e rapidez. 


Queria conhecer o rapaz. Sentada naquele banco de autocarro, pensava na melhor maneira de perguntar à amiga a seu lado como o poderia fazer. Não queria parecer uma qualquer desesperada que corre atrás de um qualquer rapaz. Não conhecia a amiga há tanto tempo assim e não tinha com ela essa cumplicidade que permite ver para além das palavras. Por isso, tinha de as escolher bem. Estava em Lisboa não fazia ainda uma semana e aquela era a sua única amiga, ainda não tivera tempo de conhecer outras pessoas. Com aquela dividia a sua casa, ou melhor, a amiga é que dividia a sua casa consigo. Filha da família que a acolhera, tecnicamente sua “irmã de acolhimento”, era imperativo transparecer uma boa imagem. Não queria parecer muito interessada no rapaz que a amiga descrevia, ainda para mais depois de uma longa conversa sobre o seu namorado deixado em casa, no outro continente. Não era correto. Mas também não o era reprimir aquela vontade, aquele desejo do diferente, do novo, do desconhecido. Afinal era para isso que ali estava. Olhou simplesmente nos olhos da sua companheira e, calmamente, disse-lhe:
- Tenho de o conhecer.

A resposta foi o silêncio, um olhar cúmplice que lhe penetrou a alma e a acalmou como quem diz «relaxa, está tudo tratado». Do bolso da mala, a sua amiga tirou uma folha e uma caneta. Passou-lhe papel e entregou-lhe a caneta ordenando-lhe que lhe escrevesse as seguintes palavras:
Concede-me a honra de o conhecer?
Atenciosamente,
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã


Nada mais precisou de ser dito, nada mais precisou de ser escrito. A rapariga viria a conhecer o rapaz e esse evento mudaria a sua vida.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Estarei lá perto? 2/2

...continuação

E ela não veio. Não era suposto que tivesse vindo, não posso dizer que tenha ficado desapontado. Triste talvez, vazio de uma esperança filha do pensamento que eu próprio tinha criado e alimentado. A conferência começou e acabou. Eu escutei tudo com muita atenção, se lá tivesse estado seria provável que nem me tivesse apercebido do seu tema. E depois, como faria a notícia, como faria o meu trabalho do qual depende a comida na minha mesa? Não queiras ser a causa da minha desgraça! Oh, mas que digo eu? Não será a desgraça emocional, espiritual, a da pior espécie? De que vale um pão a alguém sem esperança? Ou a alguém de esperança traída... Não digo que fosse este o caso, estou só a divagar. Deixem-me divagar, faz-me bem ao pensamento, abstrai-me das infinitas preocupações que me enchem a minha limitada mente. Por que teria eu de ter limitações, por que haveria o ser humano de carregar o tão pesado fardo da sua constante auto-superação? Que canseira!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Estou lá perto?


Sentado ali, naquela sala repleta de gente, sentia-me sozinho, mergulhado nos pensamentos que me surgiam ao ler o livro que pegava pela primeira vez. Daquelas páginas com cheiro a novo só me arrancava a incerteza da sua chegada, a certeza de que não viria. Ou viria? Como poderia vir? Disse-me que não vinha, que estaria ocupada. É certo que não a veria naquele dia. Mas a cada página que passava, levantava os olhar para espreitar em redor. E a cada pessoa que passava? Pensava sempre ser ela. Mas não era. Estava sentado perto da entrada e o meu campo de visão fazia um ângulo reto com a porta. A expectativa aumentava ainda mais, a incerteza era soberana!


A ideia ocorreu-me no caminho para lá, a ideia de que poderia aparecer, como que de surpresa. Que significado teria isso! Dava-se ao trabalho de me surpreender, de interromper o processo natural da vida para ali estar, não sei se por mim se pela ocasião (mas também que interessa isso para o caso?). Claro que a esperança era infértil, infundada, e teimava em morrer. Eu sabia que não iria, ela própria me tinha dito! Mas seria mesmo assim, seria isso verdade? A minha perceção da realidade limitava-se às quatro paredes daquela sala e à minha imaginação sobre o que poderia atravessar aquela porta. 
Continua...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vencida

Ela olhava-me do fundo da sala. Um olhar penetrante, vago, trespassava-me o corpo, carne e osso, e parecia contemplar um qualquer objeto  à minha retaguarda, inacessível ao normal olhar humano por escondido pela minha presença. Pensei que me olhava com os seus dois olhos, grandes, azuis. Mas que via ela? Que veria ela em mim digno de lhe prender a atenção de tal forma? Tanta interrogação me surgia na mente, o meu espírito irrequieto. E eu sentado, na poltrona, quase no centro do salão. Naquela altura escrevia, ou pelo menos tentava. Escrevinhava qualquer coisa invertebrada que nem se punha de pé. Desconexa. Era o ruído da televisão, ali bem do meu lado direito a berrar-me no ouvido coisas sem qualquer interesse e o olhar dela que me atraía como um íman. Que irrequieto eu estava! As palavras saiam-me às golfadas, sem tempo de se articularem entre si, o burburinho da televisão soava junto a mim e o olhar dela captava com muita eficiência a minha atenção. 

O esforço que fazia para escrever era anulado pelo que me rodeava, e pelo meu estado de espírito. Lutava para me prender ao papel, para articular o meu raciocínio com aquela tinta azul mas parecia que o meu pensamento acabava sempre por ser atraído pela força vinda do canto da sala. Não sei que escrevia, nem porquê. Sei apenas que não conseguia parar. Não tinha consciência das letras que desenhava, das palavras que constituía, do raciocínio que formava (ou se formava algum). A minha mente estava num frenesim. A atenção fixamente presa à interrogação que se impunha no momento era sempre soberana sobre a luta que travava por me concentrar na escrita. Mas que pensava ela sobre mim? Mas que via ela no meu ser ali sentado, ou através dele? Os seus olhos não mexiam, não pestanejavam. O olhar era fixo e ininterrupto. Penetrava tão fundo que indicava o vazio de objetivo. Olhava mas não via. Ou pelo menos assim parecia ser. Se calhar apenas tinha conseguido retirar esse filtro, o da visão. Mantinha apenas um olhar concentrado que recolhia toda e qualquer informação, por mais insignificante que parece-se, e levava-a diretamente ao cérebro onde o pensamento tratava de formar o juízo. Mas que juízo seria essa? A interrogação matava-me, consumia-me por dentro! Oh, que inferno! Que inquietação! E, no entanto, ali estava eu, sentado na poltrona, tão sereno quanto a um homem convém, dando a impressão de não me importar com a sua presença, de não me sentir afetado com as suas ações (ou falta delas). Porque um homem deve sempre ser sereno e altivo, deixar as emoções de lado no trato com a mulher, guardá-las para si, para o seu eu enquanto pensa ou escreve. 

A mulher testa o homem, põem-no à prova, mede a sua paciência e o seu carácter, a sua versatilidade face aos ambientes mais estranhos e adversos. Pelo menos aquela procedia assim e eu, nada. Sereno como o trigo nos campos sob o sol que abana ligeiramente de um lado para outro ao sabor da brisa. Ela queria-me testar mas eu não respondia aos estímulos, ficava para ali, altivo e sereno, como a um homem convém. E reparem que ela tentava de tudo! Olhar especada para mim durante tempos infinitos era a menor das provocações. Oh, mas só eu sei como isso me afligia! Só eu sei porque nunca mencionei nada relacionado ao tema, nem dei a entender. A sala estava tranquila, o silêncio apenas era interrompido pelo som entediante da televisão e por um ronco ou outro do que dormitava no sofá, mas travava-se ali uma batalha, uma luta épica, um braço de ferro renhido que, no fim, eu iria ganhar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Nova cara, texto velho

O blogue está a passar por uma fase de mudança. Alterei muitas coisas, essencialmente a nível de design, e a minha assinatura tem de fazer desaparecer o texto inicial. Desta forma, e para que ele não se perca, afinal foi o primeiro texto que aqui escrevi (ainda antes da primeira mensagem), decidi colocá-lo aqui:

O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Desapareceu a rapariga dos cabelos cor-de-avelã

É com grande pesar que escrevo este comentário. Acima de tudo, tristeza, revolta. A lágrima no canto do olho ao ver trabalho único e irrepetível a ser perdido para sempre. Pois é, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã perdeu-se, foi roubada! Dela, sobrou apenas o texto que resgatei no comentário anterior e a memória vaga da sua sombra. 

Assaltara-me o carro na passada semana, violaram o meu espaço pessoal, privado. Como se não bastasse o trespasse imperdoável, foram-me remexidas as coisas e levados pertences pessoais. Entre esses estava a rapariga dos cabelos cor-de-avelã. Um pequeno caderno preto, recheado de páginas escritas, com dizeres que aprisionavam aqui e ali pedaços da alma da rapariga que queria imortalizar. Agora só resta a memória. Estava ali, naquelas páginas entre as capas pretas duras, uma série de frases, um conjunto de palavras que jamais poderei reproduzir na sua formulação original. Foi-me levado! Páginas e páginas escritas, poucas por escrever. Um pequeno caderno preto, selado por um elástico, que me acompanhava para todo o destino e que era ele próprio destino dos meus pensamentos e ideias, embriões manuscritos dos textos que por aqui param. 

A rapariga dos cabelos cor-de-avelã estava lá, quase completa. Já se percebia os contornos do seu corpo, já se anteviam os traços do seu carácter. Pedaços desse ser, musa irrealizável, repousavam ali até que a obra estive pronta e, nas suas linhas, pudesse desfilar em toda a sua plenitude. Agora só resta a memória que muito pouco reteve. Descarreguei naquelas páginas o nexo de palavras que lhe dava a sua específica forma, a forma que eu queria que ela tivesse, a forma que deveria ter, a forma sem a qual não pode existir. Limpei a memória pesada confiando as minhas ideias à segurança daquele elástico, daquelas capas duras pretas. Descansei o pensamento e libertei-o do fardo de carregar permanentemente a lembrança de cada gesto, de cada olhar daquela rapariga, musa da minha escrita. Agora a memória prega-me uma partida, brinca comigo, faz de mim seu  escravo. 

Claro que a situação imaginei-a eu e a rapariga saiu da minha invenção. Voltarei a refazer a história, a reviver as emoções. Voltarei a fingir a vivência, a dissimular a criação. Fica porém a nota de que, fruto de um furto caprichoso de algum bruto, analfabeto por certo, foi-me roubada a rapariga dos cabelos cor-de-avelã e foi-me tirada a espontaneidade na sua descrição.

domingo, 31 de março de 2013

A rapariga dos cabelos cor-de-avelã


A escova deslizava suavemente entre os longos cabelos cor-de-avelã. O espelho refletia uma imagem serena, um rosto plácido, uma má interpretação do que a alma sentia e do que nos olhos se podia ler. A escova penetrava continuamente a generosa cabeleira em movimentos mecânicos que oscilavam entre a brusquidão e a carícia terna. O olhar era vago. Tinha deixado a sua mente à mercê dos pensamentos assaltantes que o sol do meio-dia propiciava e a sua nostalgia consentia. Pensava sobretudo no que já tinha passado e assustava-se com o que iria ainda acontecer. Não sabia se temia mais o que deixara para trás e perdera ou o que poderia vir a ganhar num distante cada vez mais próximo. 

Ou se teria perdido que deixara para trás, ou se ganharia algo com o que ainda estava para vir e nunca mais chegava. A incerteza dominava-a, retirava-lhe o espírito daquela sala que apenas o seu corpo habitava. Olhou para baixo e sabia que tinha de voltar, sabia que tinha chegado a altura de enfrentar sozinha todas as suas incertezas, viver a vida, jogar o jogo… E não queria. Preferia infinitas vezes ficar ali naquela quarto, indeciso entre a escuridão e a iluminação dos raios de sol, a deixar o seu espírito divagar e voar independente do seu corpo que bem podia permanecer sentado a pentear os cabelos sem cessar. Mas não sabia, os dados já estavam lançados, ela própria tinha-o feito quando escolhera estudar no estrangeiro durante um semestre. Agora era altura de assumir as consequências da sua decisão, tinha decidido ir a jogo. A sua mente divagava pelos momentos do dia anterior, o aterrar do avião, o pisar solo português pela primeira vez, as emoções que tudo isso despoletara. Foi nesse momento que percebeu que tinha chegado ao ponto de não retorno, que estava ali, sozinha naquele país estranho e que não iria regressar a casa durante seis longos meses. Mas sabia ela que, no final de tudo, o longo tempo que agora se agigantava à sua frente lhe iria parecer curto.

Tinha vindo para Lisboa ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes a fim de aprender o seu caminho junto da língua portuguesa e da cultura do país. Acima de tudo, queria algo diferente daquilo a que estava habituada nos Estados Unidos, tudo quanto tinha conhecido até então. Lisboa era, para si, uma porta de entrada na Europa, um ponto de partida para um novo mundo que queria explorar. O programa tinha-lhe atribuído uma família de acolhimento que lhe daria abrigo e orientação durante os seis meses. Era no quarto que lhe tinha sido destinado na casa da sua família de acolhimento que escovava agora os seus cabelos e deixava o pensamento fluir. Vinha-lhe à mente a saudade da mãe, a figura ausente do pai e a preocupação do irmão mais velho mas, sobretudo, pensava no companheiro de três anos que deixara em casa. Não sabia o que fazer: deixar fluir a saudade e derramar a primeira lágrima que já começava a aflorar no canto do olho ou conter as incertezas e pensar no momento presente, na sua grande experiência.

Nem por um segundo esquecia o motivo da sua viagem: excitação, paixão, sentir algo diferente do que aquilo que poderia alguma vez sentir nos Estados Unidos. Queria o exótico, buscava o diferente. Queria-se perder nos meandros de uma nova cultura, de uma língua fascinante. Sempre sentira uma falta de paixão na sua vida e viajava agora para preencher esse vazio. De certa forma queria-se encontrar e sabia que não seria capaz de o fazer perto de casa, na América. Precisava do modo europeu, ansiava por ele embora não soubesse exatamente do que se tratava. Não que Portugal fosse melhor que os Estados Unidos, ou o inverso, mas o ser humano sempre quer o que não tem, sempre busca o que não pode encontrar e sempre o faz no longe e na distância. É por isso que na casa do ferreiro o espeto é de pau e que o voluntário sempre escolhe combater a fome nalgum lugar perdido de África enquanto pessoas esfomeadas lutam ao seu lado por um pedaço de pão. É uma raça invulgar a humana, escolhe sempre o caminho mais difícil, o mais tortuoso, nem sempre onde o proveito é maior. Queria apenas o diferente. Nunca antes na sua vida se tinha sentido arrebatada, totalmente esmagada por uma sensação positiva que não conseguisse controlar e não tinha em mente emoções radicais ou perigos aventureiros. Queria algo profundo, algo permanente. Um bom vinho tomado à luz de uma vela, um passeio de descapotável sob o sol escaldante que sorri em Lisboa como em nenhum outro lugar. Não queria ver cultura como se estivesse num museu, queria vivê-la. 

Mais que apreciar a obra do artista, queria viver o processo antes da chegada ao quadro que pende na parede da galeria. Ser o modelo que é pintado ou a musa que é escrita, cantada nos poemas eternos que sempre serão lidos pela humanidade. Também não queria ver o filme ou ler o livro, queria viver a história, criá-la, ser parte dela, conhecer e influenciar os personagens, manipulá-los como marionetas. Ver-se envolvida em situações desconhecidas que jamais poderia controlar. Queria esquecer as tardes no shopping, as compras de impulso, o acumular de tralha que a sua casa conhecia e o cartão de crédito permitia. Ansiava por ver mais além, para além da maquilhagem que cobre os autómatos na vivência do quotidiano, da rotina. «Abaixo a rotina! Que morram os planos», pensava com convicção. Queria conhecer, viver, rir e sonhar. Não sabia o que queria, apenas que o queria todo, a experiência completa, tudo quanto houvesse. E, no entanto, ali estava ela, sentada naquele quarto inundado pela escuridão, trespassado pelos raios de sol que atravessavam a janela entreaberta. Escovava o seu cabelo de forma automática. O olhar vago indicava a ausência do seu espírito, o devaneio da sua mente que fervilhava na excitação da proximidade dos seus desejos, tudo tão perto e ela permitia ao seu corpo permanecer ali sentado, a escovar os cabelos incessantemente e a fitar o espelho como que à procura do sentido de profundidade, inibido de toda a ação, de todo o ato que poderia tornar realidade os seus desejos mais profundos. 

Era como se esperasse pacientemente pela concretização das suas vontades sem que para isso colocasse algum esforço, alguma procura, como se elas se fossem concretizar por si próprias. Inconscientemente, tomava a posição de um cidadão da civilização que visita a selva e espera observar a interação animal na sua máxima amplitude e de forma instantânea ou como o turista que passa pelos lugares recônditos do mundo e assume uma postura resguardada, de algum modo superior aos locais tidos como inferiores por não verem o mesmo horizonte, como se não houvessem vários horizontes nesta vida ou como se o mesmo não pudesse ser visto de várias perspetivas. Como se Portugal fosse um país de poetas apaixonados que espreitam o mundo em cada jardim, cada esquina, em cada janela. Como se na Europa todo o indivíduo fosse dotado da sensibilidade artística e da capacidade para a concretizar. Tinha pensado em tudo mas não sabia nada. 

Queria-se envolver com a cultura, descobrir um mundo pitoresco de emoções e sensações onde a natureza e a natureza humana se imiscuíssem e sobrepusessem ao artifício da sociedade mas não tinha pensado que para concretizar tal objetivo teria de o procurar, nem como o iria fazer. Como o leão que caminha pela floresta caçando as suas presas para o turista ou o menino faminto que corre atrás do jipe do ocidental que está de passagem espalhando a magia e a felicidade, ela pensava que poetas e escritores, pintores e escultores viriam ter com ela, fazendo fila para a conhecer e lhe apresentar um qualquer segredo da sua cultura. Esperava tacitamente que, tal como artifício da sociedade moderna, tudo acontecia naturalmente, tudo lhe seria dado e revelado sem que de fato o procurasse. O mais estranho e improvável é que, de alguma maneira, aquela rapariga que escovava os cabelos sentada na escuridão do quarto que a luz lutava por penetrar tinha, de fato, razão.