sábado, 20 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 6ª parte

...continuação

A minha pertença é no verde. As árvores, os pássaros, as montanhas e o prado são a minha casa. É lá que  o meu espírito reside. Claro que não está todo lá, boa parte dele encontra-se junto da vastidão do oceano azul assim como na azáfama citadina. Estou espalhado por toda a parte. Seja nos lugares onde pertenço, nas pessoas que marquei, nos objectos que usei ou nos livros que escrevi eu estou e estarei sempre presente mesmo que mais ninguém o reconheça, pois, se já ninguém viver para o recordar, a história e a imaginação futuras farão o seu papel. É claro que o mais importante é partilhar tudo isto com a minha metade. A pessoa em quem depositei todo o meu amor e que me acompanha sempre nos devaneios da embriaguez psicológica. Oh, como eu adoro viajar contigo! Somos só nós pelo mundo fora. A paisagem altera-se constantemente a uma velocidade impressionante mas nós somos sempre os mesmos, constantes. Se fecharmos os olhos por um instante vamos perder, sem dúvida, o ténue elemento de ligação entre um lugar e o outro. Somos sempre os mesmos espectadores, sempre com a mesma relação entre nós, sempre com os mesmo pressupostos, enquanto que o mundo lá fora age de forma diametralmente oposta.
Essencialmente gosto de caminha de lugar em lugar sem nunca ficar muito tempo no mesmo sítio. Gosto de variar entre o campo e a cidade, entre a cidade e o oceano, entre o oceano e o campo. Penso que esta minha necessidade está ligada às saudades que sinto da parte de mim que não possuo no momento. Quando não me é permitido estar em movimento constante fico ansioso e descontrolado. Quando percebo que, por mais que viaje e veja o mundo, as experiências irão ficar retidas nesse espaço de tempo. Quando olho para as minhas mãos e as vejo nuas, despidas, vazias, reparo que não me é possível trazer comigo tudo quanto vivo nos lugares que me pertencem. Se trouxesse tudo comigo, esvaziaria o lugar de sentido e nunca mais precisaria de lá ir. Depois não haveria mais nada, tudo estava acabado. Não me sinto em harmonia e as minhas energias ficam descompensadas. Quando fecho os olhos, vejo um viajante a meditar num largo prado verde entre as montanhas. Resquícios do que costumava ser, certamente. Uma exigência para que o recupere, talvez.

FIM

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 5ª parte

...continuação

Já contei os meus medos mas isso de pouco importa, até porque ainda não me conhecem. Sou um Homem que vagueia perdido há cerca de quinhentos anos. Viajo sem cessar por todo o lado e nunca estou sozinho. Para onde vá, carrego uma sombra que, ora caminha a meu lado, ora caminha atrás de mim. Viajo porque quero ver tudo o que é meu, tudo o que me pertence e tenho por aí espalhado. Não sou peregrino nem movido por idealismos alheios. O meu incentivo é a minha causa. A cada passo que dou vou-me completando e, no entanto, há algo que perco. Sempre que descubro alguma coisa que procuro, lembro-me de quanto deixei para trás. Carrego isso na sombra, mas não é a mesma coisa. A sombra desvanece-se, não nos permite guardar tudo quanto tivemos ou fomos, apenas parte disso. Geralmente, a parte que carrego é a má e é essa a razão que a torna um fardo tão insuportável. As coisas boas e prazenteiras trago-as na memória, essa não me pesa nada. Está sempre comigo e nunca me impede de avançar a bom ritmo. Caminho pelas estradas e pelo mato, tudo me pertence. Sítios onde nunca fui, caminhos que nunca percorri, são-me estranhamente familiares. Há um pouco de mim em tudo quanto vejo. Penso na sua totalidade, esses sítios compõem-me e eu ficarei completo quando os experimentar a todos. Aí compreenderei quem sou e de onde vim e certamente ficarei numa melhor posição de decidir para onde quero ir. Saberei qual a minha vocação e terei plena consciência de todas as minhas capacidades. Descobrirei factos fantásticos sobre mim que agora ainda ignoro e habilidades espantosas que dar-me-ão uma projecção que agora não tenho capacidade de imaginar. Por outras palavras, irei procurar fora de mim, na terra que me pertence e que me tornou como sou, pelas minhas várias faces que, conjuntamente, formam o meu carácter. Nesse dia, libertar-me-ei do fardo que carrego e deixarei para trás tudo o que não pode contribuir para a realização do meu destino. Certamente que este processo não será fácil. Irei sentir que faço parte de lugares que não são nada naturais para a minha pertença. À partida, nada faz prever que me irei aí envolver ao máximo grau. Não nasci lá, não vivi lá nem socializei as minhas bases em determinado sítio. No entanto, a essência desse lugar terá para mim uma magia inerente que me envolverá sem pedir contas à minha racionalidade e sem conseguir compreender o motivo ou sequer combatê-lo. É isto que nos permite saber onde pertencemos. Podem haver sítios onde gostamos de ir e onde as pessoas nos recebem bem, mas nunca será a mesma coisa. Nós somos o que somos e o lugar reflecte isso. É certo que as coisas e lugares não têm valor próprio, intrínseco, mas têm uma história, uma memória, um legado narrativo deixado por outros e que nos vai influenciar e moldar. Esse é o sentimento de pertença. Estar perante algo e saber que pertencemos ali, e que aquilo nos pertence a nós, é uma relação mútua. Há características naturais no território que nos permitam reconhecer imediatamente quando passamos a fronteira, a fronteira entre o que é nosso, o que nos pertence e nos torna nós próprios e o que é do outro. É o sentimento de pertença que nos define pois coloca-nos em confrontação directa com o outro. O que é meu não é do outro e eu sou aquilo que o outro não é. O que é nosso fez-nos assim como somos e é aqui que somos felizes.

continua...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 4ª parte

...continuação

Tenho andado à deriva, consumido por estes pensamentos. O pior de tudo isto é a minha repulsa por este estado. Não gosto de me sentir dominado. Não gosto de perder as rédeas do meu espírito. Sinto o medo angustiante de não ser compreendido. De que vale possuir uma razão se ninguém a aceita nem se rege por ela? A verdade só existe quando há uma maioria que a aceita e vive segundo ela. Não há nada mais incapacitante do que estar certo e ninguém o reconhecer. Por mais argumentos válidos e verdadeiros que se apresente, eles não são aceites pelo outro. O mais assustador é pensar que todo o indivíduo tem este pensamento, esta inquietação pois cada um pensa diferente. Esta tem sido uma grande luta na minha vida e sinto que a estou a perder. Como se uma força maior me dominasse. Este sufoco constante não me proíbe, porém, de sentir um ligeiro agrado e um embriagante bem-estar quando a nostalgia me invade. Há algo de reconfortante em pensar que somos donos de uma verdade a que mais ninguém tem acesso. A estação que agora chega traz consigo essa nostalgia, o tempo arrefece e o espírito aquece. Parece ser uma reacção natural, instintiva até, que me irrita de um modo suportável e que me vence incondicionalmente sempre que a tento combater. O acumular excessivo de roupa sobre o corpo, o cheiro a molhado sobre os odores cosmopolitas, a brisa cortante que confronta as partes expostas. Não creio que haja algo mais odioso que o Inverno, mas o tempo frio tem em algo de acolhedor que supera naturalmente todos os meus problemas existenciais altamente refinados. Quantos mundos haverá por aí perdidos nas águas furtadas dos prédios da capital? Alguém como eu, alguém com os mesmos problemas, alguém que seja sempre derrotado pela natureza, a sua natureza, mas que ainda assim tente ver para além dela. Talvez seja esta incerteza que me faça avançar uma e outra vez sem desistir perante as bofetadas da vida. Avanço, mas avanço sozinho. Subitamente, estou isolado do mundo. Há algo de insuportável nas atitudes dos outros que me causa uma repulsa enorme. A estupidez alheia já não causa graça. É-me insuportável conviver com o ridículo do outro. Dou por mim a suspirar por melhores companhias. Já o fiz uma vez no passado e dessa vez consegui-o, mas não por muito tempo. Não durou muito até que o encanto desse lugar à repulsa. Agora de nada valem. Uma mentira, uma farsa. No conjunto, uma perda de tempo. Agora, quando suspiro, uma ideia invade-me a mente: será que as pessoas por quem suspiro existirão algures por aí? Se calhar sou bom demais para este mundo ou então estou a viver num engano à espera de quem não virá, de quem não existe. Espero pessoas à minha imagem que, obviamente, não existem, são uma ilusão. Penso que esta será a verdade, o arquétipo que projecto para o outro perfeito é um reflexo do meu próprio ser, mas ainda não estou pronto para a aceitar. Por enquanto, acomodei-me à resignação e ao mapa-mundo cinzento. De qualquer maneira, só há desilusão quando antecedida pela ilusão e talvez seja esta a chave para os meus problemas. Certamente sairei desta encruzilhada, tal como o fiz quando fui à descoberta do Novo Mundo. Nessa época, a resposta ao ambiente cinzento foi a aventura pelos mares do mundo e a fé de que alcançaria algo de melhor. Encontrava-me pressionado por todos os lados e olhem o que fiz: a empresa mais impressionante de todos os tempos. A crise não durará para sempre. Chegará o tempo de me erguer nas minhas pernas de gigante e, aí, o mundo estremecerá de novo! Derrotarei de novo qualquer mostrengo que se atravessar no meu caminho, esse produto da imaginação...

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 3ª parte

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Encontro-me a escrever num mundo bem distante. No entanto, pela minha caneta já não saem as palavras de outrora. O meu estilo de escrita encontra-se irreconhecível, as minhas ideias não são as que costumava exprimir. A minha mundividência alterou-se. A minha experiência neste curto espaço de tempo, deixou marcas em mim. As pequenas coisas do dia-a-dia e os contactos banais que tive com o mundo exterior deixaram-me diferente. Estas alterações criam grandes expectativas, planos que são imaginados e que saem frustrados porque tudo continua igual, permanece. À medida que escrevo, sinto que caminho para a minha perdição. É um pedaço da minha alma que coloco num papel em forma de uma mancha de rabiscos que não passa disso quando alguém a despreza. Quando escrevo, deposito no leitor uma confiança tácita. Sabe-se lá o que ele fará com as minhas palavras, as minhas ideias. Eu joguei as minhas cartas e fiquei ali em frente ao mundo, despido de mim mesmo. O mundo pode-me agraciar com raios de sol que me aquecem a pele despida e me reconfortam a alma indefesa ou pode-me agredir com vento cortante e chuva deprimente. O leitor está resguardado no seu próprio habitat. Pode escolher como e quando travar contacto com a minha obra e reclama para si o poder de a julgar. As suas opiniões são inúmeras e a sua vantagem é gritante. Vai ser ele a decidir se o escritor é aclamado ou se é renegado e enxovalhado. O seu livre arbítrio ditará a apreciação final sendo esta a avaliação que o autor terá de suportar aos seus ombros. Boas ou más, as palavras que constituem uma obra são a expressão da mundividência do artista, um produto do seu mapa cognitivo, um espelho da sua alma. Tal não pode ter uma avaliação honesta e imparcial porque esta será sempre uma opinião de uma expressão cultural diferente. O leitor pode achar a obra boa ou má, mas na verdade isso é irrelevante pois o trabalho já existe e a mensagem que ela encerra será assim perpetuada. Por detrás da conjugação de palavras há sempre uma mensagem que quer ser descodificada e apreciada. O livro representa uma faceta de quem o escreveu pois é o resultado de algo que foi imaginado pela sua mente. Só me resta então esperar que o leitor acaricie o meu pedaço de alma e o coloque numa estante junto das almas de outros artistas para que possa com eles conversar eternamente. Perco-me com este medo, esta esperança. As pistas que me são enviadas serão sempre mal interpretadas. Umas falsas, outras mal expressas, nunca conseguirei aceder à mente do leitor para compreender os sentimentos que nele despertei.

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 2ª parte

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O individualismo urbano e o anonimato envergonhado não renovaram os clubes de artistas e pensadores que costumavam existir. Hoje todos pensam à sua maneira e não se mostram disponíveis para a partilha de ideias. Quantos de nós costuma abrir o espírito a tomar um café curto vindo das colónias enquanto se aprecia uma obra de arte, os transeuntes extravagantes ou se discute preferências vanguardistas? Parece que os pequenos hábitos prazenteiros dos artistas cosmopolitas desapareceram. Esse local de criatividade infinita que era a capital já não existe e eu exponho agora a minha obra a um vazio.Todo o processo se inverteu e agora já não debato as minhas ideias, vendo-as a quem me de pagar o suficiente para me sustentar. Quando a minha racionalidade produz novas linhas, elas não atingem lugar nenhum senão o meu pequeno caderno de couro fechado por uma fita elástica e não enriquecem ninguém senão o meu ego. É a coisa mais triste de se ver, um artista a representar e ninguém para aplaudir! Toda a obra deve ser apreciada, todo o artista deve ter público. Escrevo para exprimir ideias, de natureza inacabada, sobre os quais algum outro ser humano irá demonstrar interesse ou até apreço e completá-las com as suas próprias. Esta é a maneira que o escritor tem de influenciar a realidade colocando sobre ela a sua perspectiva. Este é o caminho do escritor. É assim que deve ser! Diria mesmo que um escritor tem tanto quanto a sua influência na realidade que o envolve. A equação reforça-se com a longevidade das suas ideias mesmo depois da sua morte. Se este fim não se puder concretizar, então a escrita será inútil, todas as ideias definharão e o escritor não será mais do que um escriba a soldo.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 1ª parte

O meu caderno de notas está a rebentar com ideias que se vão interligando entre si por finos laços sem sentido. Na minha cabeça, infindáveis. No papel, revelam-se deveras frágeis. Incontáveis são as sementes que repousam na espera de serem germinadas. Não há, no entanto, ninguém que se interesse por elas. O mundo cosmopolita já não fervilha num pote de oportunidades como antigamente. A criatividade boémia da grande cidade está morta e jaz mesmo no seu centro esperando ser ressuscitada. Sinto que sou a última esperança para recuperar as velhas práticas culturais dos antepassados intelectuais. O potencial não abandonou o lugar, mas as práticas mudaram radicalmente. Não se lê nem se escreve. Não se discute nem se debate. Já não nascem pinturas em cada esquina e os indivíduos já não observam. Já ninguém dá valor ou atenção ao potencial das artes. Ninguém reclama para si o legado inventivo das gerações anteriores. Por qualquer razão, essa dimensão da acção humana está estagnada no seu epicentro. É como uma contradição. A proliferação da escrita e a banalização da leitura acabaram por ser agentes da estagnação da cultura. Normalmente, o ser humano não dá valor ao que tem em abundância e, este caso, não é diferente. Nos dias que correm, todo o indivíduo é albaroado com letras em tudo o que é lugar. Em todo o lado se lêem notas, em todo o lugar se escrevem recados. A escrita foi domesticada e passou a ser parte do quotidiano, um mero instrumento para facilitar as tarefas diárias. A dimensão artística foi-se desvanecendo e, agora, encontra-se num estado extremamente débil. Escreve-se em quantidade e não em qualidade. Lêem-se frases soltas e textos sem nexo por toda a parte. Antigamente, quando a escrita e a leitura eram artes a que poucos tinham acesso e quando a sua produção era difícil e incómoda, apenas se escrevia coisas com sentido e com ponderação. Na Idade Média não havia corrector e não se vêem por aí muitos manuscritos rasurados. Havia a clara consciência do que se queria escrever e isso tinha sentido. As outras artes seguiram o mesmo caminho...
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domingo, 14 de outubro de 2012

Um país que já não existe - 4ª parte

...continuação

Não obstante, consegui livrar-me da minha sombra. O passado negro, do qual já nada resta, ficou enterrado junto daquele semáforo. Acho que simplesmente ganhei uma nova prioridade que me fez esquecer os meus infortúnios. Comecei a pensar na estupidez do meu acto de meditação e ridicularizei-me a mim próprio. Penso que foi isso que me salvou. Fazer uma prática milenar tão sábia e importante como a meditação com base em algo tão idiota. Deveria-me ter refugiado na natureza, na floresta ou no deserto. Deveria ter fugido da cidade, da construção humana. Consegui recuperar a capacidade de me auto-ridicularizar que tinha há muito perdido. Olhei para a minha vida criticamente e fui capaz de troçar sem me censurar. Então ri. Tinha até muita graça. Conseguia inventar bons gracejos sobre mim próprio. Foi a primeira vez que me lembro de ter rido. Libertei toda a tensão que tinha acumulada sobre os meus ombros e senti-me um homem novo. Ah, como é importante rir... Algo tão simples como um sorriso do qual, por vezes, nos esquecemos. Deixei me ter em tão alta consideração e percebi que sou como todos os outros, pelo menos naquilo que é fundamental.
Costumo contar muitas vezes esta história aos meus netos. Eles parecem gostar de me ouvir. Sentam-se em meu redor com as perninhas cruzadas e o mais pequeno gosta de ficar ao meu colo. Esbugalham sempre os olhos e abrem as pequenas bocas em sinal de espanto quando lhe conto que aquele não era eu, apenas uma fábula sobre o país em que vivia. Eu acho que, ainda hoje, eles não acreditam na minha história, ou talvez não a percebam... Esse país perdido e cinzento já não existe. Portugal onde eles nasceram já não anda à deriva sem destino certo e esperança para o guiar. Realmente é uma história em que é difícil acreditar. Na sua visão do mundo, Portugal sempre foi o jardim à beira-mar plantado onde o verão dura para sempre e o som das ondas do mar se houve em toda a parte.
Sempre senti um amor inexplicável por este lugar e nunca consegui compreender porquê. A verdade é que é um sítio maravilhoso com tudo o que se pode desejar em grande abundância e com características sublimes que não se encontram em mais nenhum lugar do mundo mas, a época em que eu cresci, foi o apogeu do adormecimento disto tudo que eu amo. Quando eu estava na idade de conhecer os segredos mais profundos das coisas e as características mais sublimes da existência, tudo à minha volta estava no definhamento que costumo descrever aos meus netos. O país estava fechado, para mim e para todos. Por mais que me esforce não consigo discernir porque razão sinto uma ligação incontrolável com este pedaço de terra, apesar de ele me ter tratado tão mal quando eu era jovem e queria aproveitar a vida. Parte de mim sabe a resposta. Há qualquer coisa de especial no ar que se respira, na terra em que se caminha, nas ruas que se palminha. Há algo que paira no ar, do Minho ao Algarve, que me faz sentir em casa e com a qual me identifico. Uma força profunda, uma energia incontrolável. Ah, como eu anseio por um dia ter netos...

FIM

sábado, 13 de outubro de 2012

Um país que já não existe - 3ª parte

...continuação

Desse tempo já nada resta. Ingressei recentemente na busca incessante de algo novo. A confusão e a paranóia que me rodeavam eram elementos perturbadores da serenidade de que necessitava para procurar o meu caminho. Decidi, certa tarde, alhear-me do mundo e torná-lo no pano de fundo das minhas reflexões. Foi aí que fiquei, para esse efeito, um dia inteiro a contemplar um sinal luminoso. O verde dava lugar ao amarelo que não tardava a apagar-se para que o vermelho pudesse brilhar, voltando depois ao verde e novamente ao amarelo, construindo um ciclo interminável que, pelo menos para mim, durou um dia inteiro, vinte e quatro horas. Certamente que para esse semáforo, a rotina é bem mais longa. A minha concentração estava no máximo isolando-me de toda a azáfama citadina dos automóveis que passavam e das pessoas apressadas que entravam em casa. Naquele dia estive sozinho. Então meditei, reflecti... Foi uma busca introspectiva pelas características da minha alma, daquilo que realmente sou. Contemplei aquele movimento que o semáforo fazia e tentei compreender algum mistério do universo. Como um profeta, esperava que a minha meditação me ajudasse a compreender o caminho e me desse clara noção de que qual era o meu lugar. Parece que compreendi perfeitamente aquilo que eu não era. Não era Jesus ou profeta algum. O meu retiro revelou-se completamente inútil, uma idiotice. Do universo fiquei a saber o mesmo e da natureza apenas percebi que tinha ficado um dia mais velho sem que essa idade se convertesse em experiências proveitosas ou ensinamento sábios. A minha experiência, um delírio, apenas me serviu para saber onde não procurar respostas. Seja o que for que se procura, não se irá encontrar em lugar fora de nós próprios. Cada um vê o mundo à sua maneira e, portanto, ao procurar respostas em algo que vê apenas encontra as suas próprias ideias projectadas para fora do seu eu, mas com base nele. Percebi que qualquer resposta que se procure está dentro de nós, pois somos nós que agimos sobre o mundo que nos rodeia e fazemo-lo segundo perspectivas próprias. Por outras palavras, o mundo que vemos é o mundo em que acreditamos. Procuramos com tanta força determinadas respostas quando nem paramos para perceber se fizemos as perguntas certas. Vemos aquilo que queremos ver, como uma projecção tridimensional que o nosso cérebro partindo das bases que são as nossas crenças, ideias, experiências e vivências. Espera lá! Será este o ensinamento que procurava? E o semáforo? Certamente que não aprendeu sozinho aquele movimento repetitivo. Todo ele foi construído artificialmente por alguém. Que mais se pode apreender de algo assim? Algo que não é genuíno, que não é natural. Mentiras certamente. Ou talvez inutilidades...

continua...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um país que já não existe - 2ª parte

continuação...

Houve uma altura em que tive tudo e nada tive. Tudo estava à distância de uma preocupação mas eu não queria saber. As coisas ofereciam-se-me, subjugadas, e eu não as queria, não sabia como as aproveitar. Preferia reclamar e culpar alguém por essa mesma coisa não estar ainda mais próxima, a um alcance mais fácil. Nessa altura, uma preocupação minha tinha um valor incalculável e não a podia dar assim ao desbarato. Nada tinha sentido e não chegava ninguém que lhe devolvesse a importância. A angústia que sentia dentro de mim era terrível. O azul acinzentado da atmosfera de nevoeiro e as fortes luzes cosmopolitas que me encandeavam acentuavam esse mal-estar. O meu mundo, embrenhado de problemas, acelerava a minha vivência a um ritmo estonteante que me inibia a clareza do pensamento. Quando parava para pensar, a incerteza instalava-se e o medo generalizava-se. Olhava em meu redor e nada via, apenas olhava. Havia uma imensidão que engolia a minha individualidade e reprimia a espontaneidade mental. Lembro-me também que, nessa altura, quis fugir para o meu refúgio natural onde sempre conseguia recuperar e harmonizar as minhas energias. Quando lá cheguei, o oceano e a areia continuavam em seu lugar mas não dei pela sua essência. O mar tinha perdido a sua vastidão e a areia já não era suave. Então chorei. As coisas estavam lá no seu esplendor físico mas as características essenciais, aquelas que lhes atribuem significado e que as tornam especiais, tinham desaparecido. O que é uma manifestação da realidade sem a importância valorativa que lhe damos? Um corpo sem significado, um conceito vazio... Não me lembro de mais alguma vez, na minha vida mundana, ter chorado assim. Caí, sentado sobre as minhas pernas, e chorei durante o que me pareceu três semanas. Ao fim desse tempo, levantei-me e voltei para o buraco a que costumava chamar de casa. Percebi que quando se chora e ninguém acode, o acto banaliza-se e deixa de ser útil para simbolizar e demonstrar a tristeza. Tal como a areia e o mar, tinha perdido o sentido. Desde então, nunca mais uma lágrima me escorreu pela face. Que gesto inútil é chorar! Se alguém souber de outro que seja melhor para me trazer consolo, que me diga por favor! De qualquer modo penso que não vale a pena. De que serve demonstrar tristeza quando ninguém está lá para nos ajudar, para se preocupar? As coisas e os actos não têm valor intrínseco, não valem nada. Só valem quando lhes atribuímos um valor. É tudo uma construção nossa. Como chorar...
continua...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Recuerdo de Madrid

Aquela tarde passada entre a barbáries ajudou-me a compreender e a admirar melhor as minhas gentes. Estive entre um povo que reúne massivamente ao fim do seu dia de trabalho para desacarregar as suas frustrações e recalcamentos numa cerimónia de evocação de uma memória colectiva que tem tanto de abstracta como de estúpida e bárbara. Eram aos milhares aqueles que, naquela que é a maior praça da Europa, celebraram o sangramento e morte de seis touros num exercício colectivo que nada tem de espectáculo e que conta com muito poucos floreados artísticos. O touro entra, é toureado com capas, picado com lanças e estacas e logo depois é morto em plena arena com um sabre enfiado pelas costras dentro, por um indivíduo que tem o papel máximo em toda a cerimónia. O ritual repete-se mais cinco vezes e, em todas elas, não há uma emoção, um espectáculo, uma situação que nos faça ficar ansiosos ou até ficar perto de atingir algum tipo de catarse. Não... É apenas um ritual, chato e repetitivo, muito apreciado pelos locais. Para eles, todas essas emoções acontecem quando vêm o touro morrer diante de seus olhos. Porém, isso acontece sempre da mesma forma, o toureiro, a pé, toureia o touro com uma capa vermelha, praticamente sempre da mesma maneira e depois espeta-lhe uma comprida espada no zona do pescoço, sendo tanto a melhor a sua prestação quantas menos vezes ele necessitar de voltar a espetar o animal. É sempre tudo igual. Não há surpresas, não emoções, não há criatividade humana. Às vezes, quando a situação falha ao controlo do toureiro e o animal lá se consegue libertar do hipnotismo da capa para ir marrar em cheio na carne humana diante de si, lá escapa uma emoçãozinha que, fugazmente, preocupa e emociona toda a audiência. Fora isso, nada... Oh meu povo, como eu desdenhava de ti e dos teus costumes! Perdoa-me a minha ignorância e as minhas duras críticas! Nunca da minha boca ouvirás uma palavra de apreco pelas touradas, mas, percebo agora o esforço que empreendeste para criar um espectáculo onde antes só havia morte. Sejam os toureiros a tourear com o seu resplandecente cavalo, sejam os forcados que, demonstrando enorme coragem, defrontam o touro de igual para igual, há qualquer coisa de diferente no espectáculo que criaste. Conseguiste dar a uma tradição bárbara um floreado artístico capaz de até a mim me empolgar quando o vejo. Criaste uma massa de aficcionadas por um espectáculo e não por uma simples morte, bárbara e sem sentido. Por tudo isso tens mérito mas nunca deixarás também de ter a culpa.