A minha pertença é no verde. As árvores, os pássaros, as montanhas e o prado são a minha casa. É lá que o meu espírito reside. Claro que não está todo lá, boa parte dele encontra-se junto da vastidão do oceano azul assim como na azáfama citadina. Estou espalhado por toda a parte. Seja nos lugares onde pertenço, nas pessoas que marquei, nos objectos que usei ou nos livros que escrevi eu estou e estarei sempre presente mesmo que mais ninguém o reconheça, pois, se já ninguém viver para o recordar, a história e a imaginação futuras farão o seu papel. É claro que o mais importante é partilhar tudo isto com a minha metade. A pessoa em quem depositei todo o meu amor e que me acompanha sempre nos devaneios da embriaguez psicológica. Oh, como eu adoro viajar contigo! Somos só nós pelo mundo fora. A paisagem altera-se constantemente a uma velocidade impressionante mas nós somos sempre os mesmos, constantes. Se fecharmos os olhos por um instante vamos perder, sem dúvida, o ténue elemento de ligação entre um lugar e o outro. Somos sempre os mesmos espectadores, sempre com a mesma relação entre nós, sempre com os mesmo pressupostos, enquanto que o mundo lá fora age de forma diametralmente oposta.
Essencialmente gosto de caminha de lugar em lugar sem nunca ficar muito tempo no mesmo sítio. Gosto de variar entre o campo e a cidade, entre a cidade e o oceano, entre o oceano e o campo. Penso que esta minha necessidade está ligada às saudades que sinto da parte de mim que não possuo no momento. Quando não me é permitido estar em movimento constante fico ansioso e descontrolado. Quando percebo que, por mais que viaje e veja o mundo, as experiências irão ficar retidas nesse espaço de tempo. Quando olho para as minhas mãos e as vejo nuas, despidas, vazias, reparo que não me é possível trazer comigo tudo quanto vivo nos lugares que me pertencem. Se trouxesse tudo comigo, esvaziaria o lugar de sentido e nunca mais precisaria de lá ir. Depois não haveria mais nada, tudo estava acabado. Não me sinto em harmonia e as minhas energias ficam descompensadas. Quando fecho os olhos, vejo um viajante a meditar num largo prado verde entre as montanhas. Resquícios do que costumava ser, certamente. Uma exigência para que o recupere, talvez.
FIM