...continuação
Penso que a solução para esta questão reside perto da noção de que o escritor é quem escreve, apenas temos de aprofundar um pouco mais a definição. O escritor é o sujeito que escreve tendo por base uma reflexão, uma ideia ou um pensamento que explora numa dimensão filosófica e abstracta e o articula sob uma forma artística, seja ela prosa, poesia ou outra tipologia que se venha ainda a inventar. Desta forma, atribui-se ao escritor a sua função de escrever e retira-se da equação todo e qualquer indivíduo que escreva comentários ou pensamentos inférteis que não passaram pelo sublime processo de filtragem, reflexão e tratamento artístico. Este último ponto é fundamental. Um escritor é um artista, tal como um pintor, um bailarino ou um cantor. Um escritor é o que produz literatura, ou seja, coloca a sua visão do mundo e as suas perspectivas do mundo sob a forma de um texto artístico. Segundo esta definição, percebe-se rapidamente que há muitos escritores publicados que utilizam este "título" injustificadamente. Indivíduos que, apesar de serem autores de textos publicados em livro por uma editora, não cumprem os requisitos para serem nomeados de escritores, essencialmente devido à dimensão artística. É que o fenómeno da expansão da escrita criou várias gerações com uma grande multiplicidade de escritores que produzem textos difusos e desenquadrados artisticamente, ou seja, o corpo de escritores aumentou exponencialmente pois a escrita tornou-se acessível a todos mas os escritos produzidos por estes são criações meramente esporádicas fruto da imaginação do autor. Quero com isto dizer que não basta escrever um texto bem estruturado e com uma certa estética até, ele tem de ser enquadrado numa categoria ou corrente de pensamento, seja ela pré-existente ou criada de forma consciente pelo próprio escritor. É fundamental que a obra seja o fruto de uma determinada concepção da realidade adoptada pelo autor e que a reflicta de forma consciente e propositada. Tal não é o que acontece nos dias presentes. Arrisco-me até a dizer que já não existem escritores, ou melhor, que estão em vias de extinção e votados ao isolamento. Tudo isto é fruto da evolução da sociedade e reflecte-se não só na escrita mas também na arte em geral, na política e nos valores e normas sociais. É a morte da ideologia. É o advento da tecnocracia. Estes fenómenos têm o seu expoente máximo da sua visibilidade na política onde impera a tecnocracia, a capacidade de executar determinadas tarefas do ponto de vista meramente técnico. É a sociedade sem valores e sem ideologias, sem ideais. O prémio social vai para quem executa melhor determinada tarefa e o melhor, aqui, é determinado segundo parâmetros de eficácia meramente pragmáticos. Na literatura passa-se o mesmo e é também absolutamente evidente. É o advento dos best-sellers. Da produção em massa de livros arquitectados de forma técnica para que a construção do enredo, do diálogo e das personagens seja mecanicamente perfeito. São os livros extremamente bem escritos do ponto de vista técnico e extremamente pobres do ponto de vista da mensagem que transmitem. A vitória do conteúdo sobre a forma. As obras literárias são feitas segundo uma espécie de receita pré-determinada, orientada para o sucesso de mercado e de vendas, em que apenas muda o conteúdo da história. A forma é sempre a mesma, sagrada e invariável. As editoras passaram a orientar-se para o sucesso de vendas, como qualquer outra empresa privada, e começaram a preferir obras escritas desta forma, orientadas para o consumo rápido e massificado, que permite ao escritor escrever mais livros em menos tempo e ao leitor ler mais também num espaço de tempo mais reduzido. As leis do mercado vão ditando o fim da escrita elaborada e da leitura ponderada, onde o leitor de facto aprecia a obra e absorve o seu conteúdo. Hoje, seria impensável um escritor apresentar ao seu editor um livro escrito à moda dos Maias ou até do Guerra e Paz. O escritor seria ostracizado e não teria possibilidade de editar a sua obra simplesmente porque as leis do mercado não permitem obras tão grandes e pormenorizadas com uma mensagem tão rica e densa que provoque o pensamento e a reflexão ao leitor. Nem tão pouco haveria leitores para tal livro, que há já várias gerações somos habituados a literatura mais imediata, como o chamado "romance de cordel", tão apreciado pelas sociedades ditas evoluídas. Penso que seja este o conjunto de fenómenos que criou espaço para os múltiplos livros sobre vampiros e para os escritos das celebridades que vêm inundando o espaço público e as prateleiras das livrarias. O que falta então a todos estes autores modernos para serem considerados escritores? A arte. Falta o sentido artístico das suas obras. Falta produzirem textos enquadrados com um pensamento mais geral. Falta dizerem que escrevem as aventuras de determinada personagem de uma certa forma pois pensam desta ou daquela maneira, enquadrando-se com esta ou aquela corrente. Falta, provavelmente, conhecerem as correntes que já existem ou que já existiram para lançarem as bases de novas. Os escritores têm de se assumir como tal e dialogar entre si. Deixar de lado os egos inflamados e debater ideias. É urgente que a literatura volte a colocar a forma por cima do conteúdo. Não interessa se o livro fala sobre o amor ou sobre a guerra, sobre a amizade ou sobre a traição, o que verdadeiramente importa é a forma como o autor coloca a questão e a mensagem que passa. Se é prosa ou poesia, se é expressionista ou naturalista, o que importa é que o escritor demonstre um conteúdo segundo a forma que ache mais correcta, mais perfeita e com a qual se identifique mais. A forma deve ser livre e o escritor deve puder usar a que mais se identifica consigo mesmo. Quando escolho ler os Maias, não o faço porque a história é bonita e trata um romance encantador entre dois jovens, mas sim porque o autor transmite uma mensagem, uma moral, de uma forma naturalista que descreve a sociedade portuguesa da época e me ajuda a compreender melhor o comportamento e o pensamento de uma época ao mesmo tempo que, claro, leio uma bonita história.
As pessoas não compram o que faz mas sim porque o faz. Esta é uma máxima que se aplica a cem por cento à literatura e à escrita. O importante não é a história em si, o conteúdo, mas sim a forma como a mensagem é transmitida. Como em tudo na vida, as coisas funcionam melhor quando existe uma baliza para orientar o comportamento e a acção. A escrita, só pode ser considerada como tal quando surge de um conceito, de uma ideia. Com isto não quero dizer que um escritor, quando escreve, deve estar preocupado em inserir-se numa corrente de pensamento artístico. O que pretendo dizer é que um escritor, quando se propõe a escrever algo, deve intelectualizar linhas de pensamento que orientem a sua escrita, para que o texto não seja uma história ou um diálogo vazio. Se isso não coincidir com nenhuma escola já existente, parabéns, acabou de criar uma nova!
FIM