continua...
sábado, 27 de outubro de 2012
Crónica de um amor burguês - 1ª parte
Deixa-me contar-te uma coisa interessante sobre as canetas: quando não são usadas regularmente, a tinta contida na carga seca e esta tem de ser substituída. Falo das canetas de tinta permanente claro. Não me pronunciaria sobre as esferográficas deploráveis que por aí circulam em abundância. O mero pensamento desse objecto repugna-me. Nada têm de especial, são feitas para as banalidades diárias. Eu só uso a minha caneta de tinta permanente para escrever as cartas que te endereço, ocasiões especiais. Paras as listas de compras de supermercado uso as outras. A caneta tem uma escrita muito especial e refinada que não deve ser desperdiçada nos escritos quotidianos e a sua tinta é demasiado cara para textos sem sentido. Só as cartas que te escrevo me fazem desembrulhar a minha caneta de prata e espalhar a tinta que dela jorra na forma de bonitos caracteres que criam, por si, bonitas palavras. A maior dor no meu coração é quando tenho de me livrar de cargas de tinta que não estão totalmente vazias. Isso deve-se, não por ser um desperdício de elevados custos mas sim à ausência de uma carta tua. Como te disse, apenas uso a minha caneta quanto te escrevo. Se tenho de me livrar de uma carga ainda cheia, significa que passou tempo suficiente para a tinta secar sem ter uma carta tua para responder. Quando deito fora aquela carga, deito fora palavras que poderia ter formulado para te responder, sempre com a mais fina caligrafia. Porque o amor é assim, exige o melhor de nós, exige um esforço constante pela perfeição das demonstrações que te faço. Ainda para mais quando estás longe. Ainda para mais quando nunca te vi. Oh não, a simples esferográfica não me chega! A sua escrita arranhada e mal desenhada não é digna do meu amor por ti. Oh não, preciso de mais! Preciso de um instrumento criado pelos melhores mestres do fabrico da coisa. Preciso de prata e ouro, de uma tinta perfeita. Preciso de uma caneta que se adapte à minha ergonomia e me corrija os traços da caligrafia. Preciso do luxo aliado ao sublime.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O romance que está para vir - 3ª parte
António nunca conhecera a sua mãe. Esta morrera durante o parto, razão pela qual era filho único. Aos sete anos, o pai de António mandou-o para casa de uns vizinhos que tinham uma porção de terra na qual cultivavam tudo quanto era bom e inacessível para o seu dinheiro comprar. Adorou essa decisão. Aprendeu a arte da agricultura e ganhou a companhia de uma família simpática que tinha também um rapaz da sua idade. Esses foram os melhores momentos da sua mocidade. Ganhava uma quantia simbólica que entregava ao pai para ajudar nas despesas e brincava com Manuel Graça que ficou para toda a vida seu grande compincha. A vida não era fácil para António e seu pai, que vivia aterrorizado com a possibilidade de perder o trabalho de campino, ou pior, a vida. A lida de campino baseava-se no contacto com toiros. Todos os dias, levava a manada da ganadaria para o pasto por estradas frequentadas. De sua posse, era apenas a roupa que levava no corpo e a merenda que atava à sela do cavalo. Tudo o resto pertencia aos seus patrões e era cedido à sua responsabilidade, o que significava uma despesa insuportável para os seus rendimentos caso algo corresse mal. Um toiro perdido, um cavalo magoado ou até uma pessoa ferida eram encargos que lhe seriam imputados e que não conseguiria pagar nem que trabalhasse toda a sua vida. O facto de lidar com animais imprevisíveis e extremamente perigosos angustiava-o acima de tudo. Se algo lhe acontecesse, quem cuidaria de António? Enquanto pastava os animais, o pensamento costumava fugir-lhe para o sentimento de culpa que sentia por ter passado toda a infância de seu filho nas longas pastagens do Ribatejo. O remorso era grande, mas a evidência e a necessidade levantavam-se mais alto. Não lhe serviria de nada passar mais tempo com o seu filho e acompanhar o seu crescimento se mais tarde ou mais cedo acabasse a pouca comida que o seu salário ainda conseguia pôr na mesa.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
O romance que está para vir - 2ª parte
Até então tinha tido uma vida pacata em parte incerta do Ribatejo. Vivia com seu pai, campino da aldeia que habitavam. António via o seu pai trabalhar arduamente numa ocupação que aprendeu a odiar. De sol a sol, o pai de António guardava os bois dos fidalgos da região. O seu papel era verificar que os animais se criavam fortes e bonitos para que proporcionassem o melhor espectáculo possível nas arenas de todo o país. Divertimento de endinheirados, ao pai de António apenas lhe cabia a preparação dos animais. O cavalo que montava era-lhe cedido exclusivamente para o desempenho das suas funções e a fama que a lida a cavalo proporcionava nos meios nobres estava-lhe vedada. António nunca assistira a uma tourada. Esses acontecimentos destinavam-se a quem pertencia à nobreza, como diversão e passatempo. Quem não pertencia a esse meio distinto apenas podia assistir caso tivesse um trabalho como o de seu pai. O ódio de António a esta longa tradição surgira da solidão a que tinha sido abandonado. Normalmente, acordava às seis horas apenas para partilhar a bucha da manhã com o seu pai. Não o veria mais nesse dia senão à hora da ceia quando ele chegava a casa. O resultado deste modo de vida materializou-se no carácter forte e desenrascado que António desenvolveu. Marcado por este sofrimento e solidão, embruteceu o espírito numa manobra defensiva para encarar a vida. Tudo o que chegou a saber, António aprendeu sozinho. Nunca frequentou a escola. Naquela altura, a escola era um luxo inacessível à condição em que vivia. Aliás, na sua aldeia, apenas três meninos andavam na escola. Todos os outros, ficavam em casa com as suas mães a cuidar do cultivo da horta doméstica ou eram assalariados no campo de outrem desde muito cedo.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
O romance que está para vir
Estou a escrever um novo livro! Um romance histórico. Como vocês são os meus leitores e têm, diariamente, seguido os meus textos e as minhas mensagens decidi partilhar aqui partes desta minha nova aventura. Conto com a vossa opinião para me ajudar a construir e a melhorar esta nova obra. Quero também que vão seguindo a minha linha de pensamento ao longo deste processo de escrita que se adivinha longo.
Para já, ainda não vou revelar o título, mas irei colocar aqui com alguma frequência fragmentos da introdução que explica e contextualiza a obra. Volto a frisar que os vossos contributos e opiniões são muito bem vindos!
Queria também aproveitar este momento mais intimista para agradecer a todos vocês que lêem diariamente este meu blogue e o comentam, tornando este diário num espaço vivo e dinâmico do qual me orgulho muito. Lembrem-se que ele será tanto melhor e mais dinâmico quanto a vossa participação e interesse.
Esta mensagem ganha um novo significado no dia em que o blogue recebeu o visitante 1000 e entrou assim num novo ciclo.
Um obrigado sincero!
(Não vou revelar o título do livro, pelo menos para já...)
Descendo de gente simples. Consigo localizar as minhas origens na família que existe há já cinco gerações com as raízes no interior do desconhecido. A fama e a fortuna nunca estiveram no nosso horizonte mas nunca deixámos de lutar pelo que queremos alcançar. Somos essencialmente gente determinada, capaz de aprender qualquer ofício. Gostamos do que cresce e do que fazemos crescer. Acreditamos na família acima de tudo e no trabalho que a faz prosperar. Talvez tenha sido esse o motivo porque nunca fizemos fortuna, a família vem sempre primeiro lugar. É essa a nossa meta e é esse o nosso ponto de partida.
Conta-se que foi o meu bisavô e o seu pai que nos tornaram assim, ainda no tempo dos monarcas. Sobre esse tempo já nada sei. A minha realidade será talvez a oposta à dos meus antepassados mas o carácter de família é algo que passa de geração em geração. Eu acredito nessa história e sei que tudo o que alcançar nesta vida tem um germe que remonta à grande migração da minha família.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Da escrita e do escritor - 2ª parte
...continuação
Penso que a solução para esta questão reside perto da noção de que o escritor é quem escreve, apenas temos de aprofundar um pouco mais a definição. O escritor é o sujeito que escreve tendo por base uma reflexão, uma ideia ou um pensamento que explora numa dimensão filosófica e abstracta e o articula sob uma forma artística, seja ela prosa, poesia ou outra tipologia que se venha ainda a inventar. Desta forma, atribui-se ao escritor a sua função de escrever e retira-se da equação todo e qualquer indivíduo que escreva comentários ou pensamentos inférteis que não passaram pelo sublime processo de filtragem, reflexão e tratamento artístico. Este último ponto é fundamental. Um escritor é um artista, tal como um pintor, um bailarino ou um cantor. Um escritor é o que produz literatura, ou seja, coloca a sua visão do mundo e as suas perspectivas do mundo sob a forma de um texto artístico. Segundo esta definição, percebe-se rapidamente que há muitos escritores publicados que utilizam este "título" injustificadamente. Indivíduos que, apesar de serem autores de textos publicados em livro por uma editora, não cumprem os requisitos para serem nomeados de escritores, essencialmente devido à dimensão artística. É que o fenómeno da expansão da escrita criou várias gerações com uma grande multiplicidade de escritores que produzem textos difusos e desenquadrados artisticamente, ou seja, o corpo de escritores aumentou exponencialmente pois a escrita tornou-se acessível a todos mas os escritos produzidos por estes são criações meramente esporádicas fruto da imaginação do autor. Quero com isto dizer que não basta escrever um texto bem estruturado e com uma certa estética até, ele tem de ser enquadrado numa categoria ou corrente de pensamento, seja ela pré-existente ou criada de forma consciente pelo próprio escritor. É fundamental que a obra seja o fruto de uma determinada concepção da realidade adoptada pelo autor e que a reflicta de forma consciente e propositada. Tal não é o que acontece nos dias presentes. Arrisco-me até a dizer que já não existem escritores, ou melhor, que estão em vias de extinção e votados ao isolamento. Tudo isto é fruto da evolução da sociedade e reflecte-se não só na escrita mas também na arte em geral, na política e nos valores e normas sociais. É a morte da ideologia. É o advento da tecnocracia. Estes fenómenos têm o seu expoente máximo da sua visibilidade na política onde impera a tecnocracia, a capacidade de executar determinadas tarefas do ponto de vista meramente técnico. É a sociedade sem valores e sem ideologias, sem ideais. O prémio social vai para quem executa melhor determinada tarefa e o melhor, aqui, é determinado segundo parâmetros de eficácia meramente pragmáticos. Na literatura passa-se o mesmo e é também absolutamente evidente. É o advento dos best-sellers. Da produção em massa de livros arquitectados de forma técnica para que a construção do enredo, do diálogo e das personagens seja mecanicamente perfeito. São os livros extremamente bem escritos do ponto de vista técnico e extremamente pobres do ponto de vista da mensagem que transmitem. A vitória do conteúdo sobre a forma. As obras literárias são feitas segundo uma espécie de receita pré-determinada, orientada para o sucesso de mercado e de vendas, em que apenas muda o conteúdo da história. A forma é sempre a mesma, sagrada e invariável. As editoras passaram a orientar-se para o sucesso de vendas, como qualquer outra empresa privada, e começaram a preferir obras escritas desta forma, orientadas para o consumo rápido e massificado, que permite ao escritor escrever mais livros em menos tempo e ao leitor ler mais também num espaço de tempo mais reduzido. As leis do mercado vão ditando o fim da escrita elaborada e da leitura ponderada, onde o leitor de facto aprecia a obra e absorve o seu conteúdo. Hoje, seria impensável um escritor apresentar ao seu editor um livro escrito à moda dos Maias ou até do Guerra e Paz. O escritor seria ostracizado e não teria possibilidade de editar a sua obra simplesmente porque as leis do mercado não permitem obras tão grandes e pormenorizadas com uma mensagem tão rica e densa que provoque o pensamento e a reflexão ao leitor. Nem tão pouco haveria leitores para tal livro, que há já várias gerações somos habituados a literatura mais imediata, como o chamado "romance de cordel", tão apreciado pelas sociedades ditas evoluídas. Penso que seja este o conjunto de fenómenos que criou espaço para os múltiplos livros sobre vampiros e para os escritos das celebridades que vêm inundando o espaço público e as prateleiras das livrarias. O que falta então a todos estes autores modernos para serem considerados escritores? A arte. Falta o sentido artístico das suas obras. Falta produzirem textos enquadrados com um pensamento mais geral. Falta dizerem que escrevem as aventuras de determinada personagem de uma certa forma pois pensam desta ou daquela maneira, enquadrando-se com esta ou aquela corrente. Falta, provavelmente, conhecerem as correntes que já existem ou que já existiram para lançarem as bases de novas. Os escritores têm de se assumir como tal e dialogar entre si. Deixar de lado os egos inflamados e debater ideias. É urgente que a literatura volte a colocar a forma por cima do conteúdo. Não interessa se o livro fala sobre o amor ou sobre a guerra, sobre a amizade ou sobre a traição, o que verdadeiramente importa é a forma como o autor coloca a questão e a mensagem que passa. Se é prosa ou poesia, se é expressionista ou naturalista, o que importa é que o escritor demonstre um conteúdo segundo a forma que ache mais correcta, mais perfeita e com a qual se identifique mais. A forma deve ser livre e o escritor deve puder usar a que mais se identifica consigo mesmo. Quando escolho ler os Maias, não o faço porque a história é bonita e trata um romance encantador entre dois jovens, mas sim porque o autor transmite uma mensagem, uma moral, de uma forma naturalista que descreve a sociedade portuguesa da época e me ajuda a compreender melhor o comportamento e o pensamento de uma época ao mesmo tempo que, claro, leio uma bonita história.
Penso que a solução para esta questão reside perto da noção de que o escritor é quem escreve, apenas temos de aprofundar um pouco mais a definição. O escritor é o sujeito que escreve tendo por base uma reflexão, uma ideia ou um pensamento que explora numa dimensão filosófica e abstracta e o articula sob uma forma artística, seja ela prosa, poesia ou outra tipologia que se venha ainda a inventar. Desta forma, atribui-se ao escritor a sua função de escrever e retira-se da equação todo e qualquer indivíduo que escreva comentários ou pensamentos inférteis que não passaram pelo sublime processo de filtragem, reflexão e tratamento artístico. Este último ponto é fundamental. Um escritor é um artista, tal como um pintor, um bailarino ou um cantor. Um escritor é o que produz literatura, ou seja, coloca a sua visão do mundo e as suas perspectivas do mundo sob a forma de um texto artístico. Segundo esta definição, percebe-se rapidamente que há muitos escritores publicados que utilizam este "título" injustificadamente. Indivíduos que, apesar de serem autores de textos publicados em livro por uma editora, não cumprem os requisitos para serem nomeados de escritores, essencialmente devido à dimensão artística. É que o fenómeno da expansão da escrita criou várias gerações com uma grande multiplicidade de escritores que produzem textos difusos e desenquadrados artisticamente, ou seja, o corpo de escritores aumentou exponencialmente pois a escrita tornou-se acessível a todos mas os escritos produzidos por estes são criações meramente esporádicas fruto da imaginação do autor. Quero com isto dizer que não basta escrever um texto bem estruturado e com uma certa estética até, ele tem de ser enquadrado numa categoria ou corrente de pensamento, seja ela pré-existente ou criada de forma consciente pelo próprio escritor. É fundamental que a obra seja o fruto de uma determinada concepção da realidade adoptada pelo autor e que a reflicta de forma consciente e propositada. Tal não é o que acontece nos dias presentes. Arrisco-me até a dizer que já não existem escritores, ou melhor, que estão em vias de extinção e votados ao isolamento. Tudo isto é fruto da evolução da sociedade e reflecte-se não só na escrita mas também na arte em geral, na política e nos valores e normas sociais. É a morte da ideologia. É o advento da tecnocracia. Estes fenómenos têm o seu expoente máximo da sua visibilidade na política onde impera a tecnocracia, a capacidade de executar determinadas tarefas do ponto de vista meramente técnico. É a sociedade sem valores e sem ideologias, sem ideais. O prémio social vai para quem executa melhor determinada tarefa e o melhor, aqui, é determinado segundo parâmetros de eficácia meramente pragmáticos. Na literatura passa-se o mesmo e é também absolutamente evidente. É o advento dos best-sellers. Da produção em massa de livros arquitectados de forma técnica para que a construção do enredo, do diálogo e das personagens seja mecanicamente perfeito. São os livros extremamente bem escritos do ponto de vista técnico e extremamente pobres do ponto de vista da mensagem que transmitem. A vitória do conteúdo sobre a forma. As obras literárias são feitas segundo uma espécie de receita pré-determinada, orientada para o sucesso de mercado e de vendas, em que apenas muda o conteúdo da história. A forma é sempre a mesma, sagrada e invariável. As editoras passaram a orientar-se para o sucesso de vendas, como qualquer outra empresa privada, e começaram a preferir obras escritas desta forma, orientadas para o consumo rápido e massificado, que permite ao escritor escrever mais livros em menos tempo e ao leitor ler mais também num espaço de tempo mais reduzido. As leis do mercado vão ditando o fim da escrita elaborada e da leitura ponderada, onde o leitor de facto aprecia a obra e absorve o seu conteúdo. Hoje, seria impensável um escritor apresentar ao seu editor um livro escrito à moda dos Maias ou até do Guerra e Paz. O escritor seria ostracizado e não teria possibilidade de editar a sua obra simplesmente porque as leis do mercado não permitem obras tão grandes e pormenorizadas com uma mensagem tão rica e densa que provoque o pensamento e a reflexão ao leitor. Nem tão pouco haveria leitores para tal livro, que há já várias gerações somos habituados a literatura mais imediata, como o chamado "romance de cordel", tão apreciado pelas sociedades ditas evoluídas. Penso que seja este o conjunto de fenómenos que criou espaço para os múltiplos livros sobre vampiros e para os escritos das celebridades que vêm inundando o espaço público e as prateleiras das livrarias. O que falta então a todos estes autores modernos para serem considerados escritores? A arte. Falta o sentido artístico das suas obras. Falta produzirem textos enquadrados com um pensamento mais geral. Falta dizerem que escrevem as aventuras de determinada personagem de uma certa forma pois pensam desta ou daquela maneira, enquadrando-se com esta ou aquela corrente. Falta, provavelmente, conhecerem as correntes que já existem ou que já existiram para lançarem as bases de novas. Os escritores têm de se assumir como tal e dialogar entre si. Deixar de lado os egos inflamados e debater ideias. É urgente que a literatura volte a colocar a forma por cima do conteúdo. Não interessa se o livro fala sobre o amor ou sobre a guerra, sobre a amizade ou sobre a traição, o que verdadeiramente importa é a forma como o autor coloca a questão e a mensagem que passa. Se é prosa ou poesia, se é expressionista ou naturalista, o que importa é que o escritor demonstre um conteúdo segundo a forma que ache mais correcta, mais perfeita e com a qual se identifique mais. A forma deve ser livre e o escritor deve puder usar a que mais se identifica consigo mesmo. Quando escolho ler os Maias, não o faço porque a história é bonita e trata um romance encantador entre dois jovens, mas sim porque o autor transmite uma mensagem, uma moral, de uma forma naturalista que descreve a sociedade portuguesa da época e me ajuda a compreender melhor o comportamento e o pensamento de uma época ao mesmo tempo que, claro, leio uma bonita história.
As pessoas não compram o que faz mas sim porque o faz. Esta é uma máxima que se aplica a cem por cento à literatura e à escrita. O importante não é a história em si, o conteúdo, mas sim a forma como a mensagem é transmitida. Como em tudo na vida, as coisas funcionam melhor quando existe uma baliza para orientar o comportamento e a acção. A escrita, só pode ser considerada como tal quando surge de um conceito, de uma ideia. Com isto não quero dizer que um escritor, quando escreve, deve estar preocupado em inserir-se numa corrente de pensamento artístico. O que pretendo dizer é que um escritor, quando se propõe a escrever algo, deve intelectualizar linhas de pensamento que orientem a sua escrita, para que o texto não seja uma história ou um diálogo vazio. Se isso não coincidir com nenhuma escola já existente, parabéns, acabou de criar uma nova!
FIM
domingo, 21 de outubro de 2012
Da escrita e do escritor - 1ª parte
A literatura moderna é difusa. Escrevo num tempo em que a consciência de classe dos indivíduos escritores é praticamente nula não existindo a articulação de ideias e pensamentos e o seu debate entre estas pessoas que, no seu todo, constroem o corpo de escritores contemporâneos portugueses. Isto deve-se ao fenómeno da proliferação da escrita e do alfabetismo que dotou praticamente toda a sociedade da capacidade de ler e escrever fluentemente. Como consequência, desapareceram os escritores. Agora todos escrevem em todas as plataformas que têm ao seu alcance e, diariamente, a escrita é banalizada em praça pública por milhares de mensagens que são partilhadas, noventa por cento delas sem qualquer conteúdo ou contributo para a cultura comum. Apesar de notável, o progresso na alfabetização e na proliferação da escrita não foi acompanhado por uma reflexão profunda sobre o sistema que se deveria adoptar para diferenciar claramente a literatura, reconhecida como arte, e a banalidade que é partilhada sem qualquer ponderação ou sentido de consciência por parte do seu autor. Este enquadramento social sobre o estado da escrita e a sua evolução leva-nos à questão de um milhão de dólares, a mais importante de todas, a que ninguém sabe responder: quem é escritor? Que características distinguem o escritor do resto da sociedade? De que necessita um indivíduo para se apresentar como escritor, tal como um praticante de medicina se apresenta como médico? É interessante abordar a questão do ponto de vista deste último exemplo: o médico é o que pratica a medicina; o advogado é o que pratica a advocacia; o professor é o que ensina. E o escritor? Seguindo o raciocínio, o escritor será aquele que escreve, o que me leva de novo à minha introdução: hoje em dia, todo o indivíduo não só sabe ler e escrever como o faz a todo o instante do seu dia. Certamente que não podemos seguir este caminho, senão todo o indivíduo seria escritor e não mais faria sentido utilizar esse conceito para descrever e categorizar alguém. Da mesma forma que todos os que escrevem com grande regularidade não são escritores, também não são médicos todos os que medicam um doente (como faz a mãe ao dar comprimidos ao filho sem terem sido prescritos pelo médico; ou como fazemos todos ao adoptar certos hábitos para mantermos a nossa saúde e qualidade de vida), não são advogados todos o que julgam e argumentam a favor ou contra outros indivíduos, nem são professores todos os que ensinam algo a alguém. Então se não podemos distinguir o escritor pela sua actividade que outro elemento explicativo podemos nós encontrar? Podemos tentar seguir um caminho, também extensamente apoiado pela opinião pública que tudo sabe e tudo ignora, que nomeia um indivíduo de escritor quando tem um livro publicado e acessível para consulta por parte da sociedade em geral. Não me parece que assim seja, nem que esta tipologia sirva para o efeito. Segundo ela, um médico só o seria após ter curado um doente, um advogado só o seria após defender um arguido e um professor só o seria após ter ensinado um aluno. Esta definição não contém nada senão problemas. Em primeiro lugar não se pode classificar um profissional pelo seu sucesso em determinada tarefa pois, para a ter executado, ele já precisa ser considerado como tal. Não parece lógico a ninguém que um médico cure o seu primeiro doente com sucesso antes de ser considerado médico, tal como também não é admissível que um advogado defenda um arguido antes de ter o certificado em como está habilitado para tal. O mesmo acontece com o professor que não será admitido em nenhuma escola se não for considerado apto para desempenhar tal tarefa previamente. Também o escritor não pode adquirir o seu conceito distintivo apenas após ter publicado o primeiro livro. Quantos indivíduos há por aí que têm uma grande quantidade de obras e textos arrumados na gaveta, nunca publicados? Não serão também eles escritores? E os que escrevem blogues, crónicas, colunas, opinião, não serão também eles escritores também apesar não terem um texto publicado no formato a que nos habituámos a chamar livro? E aqueles que contam já com um ou mais livros publicados por grandes editoras cujo conteúdo é, por exemplo, dedicado à culinária e apenas contém receitas compiladas e imagens ilustrativas? Serão esses escritores, apesar de terem publicado um livro sem uma única frase criativa?
continua...
sábado, 20 de outubro de 2012
O meu pequeno caderno de escritor - 6ª parte
...continuação
A minha pertença é no verde. As árvores, os pássaros, as montanhas e o prado são a minha casa. É lá que o meu espírito reside. Claro que não está todo lá, boa parte dele encontra-se junto da vastidão do oceano azul assim como na azáfama citadina. Estou espalhado por toda a parte. Seja nos lugares onde pertenço, nas pessoas que marquei, nos objectos que usei ou nos livros que escrevi eu estou e estarei sempre presente mesmo que mais ninguém o reconheça, pois, se já ninguém viver para o recordar, a história e a imaginação futuras farão o seu papel. É claro que o mais importante é partilhar tudo isto com a minha metade. A pessoa em quem depositei todo o meu amor e que me acompanha sempre nos devaneios da embriaguez psicológica. Oh, como eu adoro viajar contigo! Somos só nós pelo mundo fora. A paisagem altera-se constantemente a uma velocidade impressionante mas nós somos sempre os mesmos, constantes. Se fecharmos os olhos por um instante vamos perder, sem dúvida, o ténue elemento de ligação entre um lugar e o outro. Somos sempre os mesmos espectadores, sempre com a mesma relação entre nós, sempre com os mesmo pressupostos, enquanto que o mundo lá fora age de forma diametralmente oposta.
Essencialmente gosto de caminha de lugar em lugar sem nunca ficar muito tempo no mesmo sítio. Gosto de variar entre o campo e a cidade, entre a cidade e o oceano, entre o oceano e o campo. Penso que esta minha necessidade está ligada às saudades que sinto da parte de mim que não possuo no momento. Quando não me é permitido estar em movimento constante fico ansioso e descontrolado. Quando percebo que, por mais que viaje e veja o mundo, as experiências irão ficar retidas nesse espaço de tempo. Quando olho para as minhas mãos e as vejo nuas, despidas, vazias, reparo que não me é possível trazer comigo tudo quanto vivo nos lugares que me pertencem. Se trouxesse tudo comigo, esvaziaria o lugar de sentido e nunca mais precisaria de lá ir. Depois não haveria mais nada, tudo estava acabado. Não me sinto em harmonia e as minhas energias ficam descompensadas. Quando fecho os olhos, vejo um viajante a meditar num largo prado verde entre as montanhas. Resquícios do que costumava ser, certamente. Uma exigência para que o recupere, talvez.
A minha pertença é no verde. As árvores, os pássaros, as montanhas e o prado são a minha casa. É lá que o meu espírito reside. Claro que não está todo lá, boa parte dele encontra-se junto da vastidão do oceano azul assim como na azáfama citadina. Estou espalhado por toda a parte. Seja nos lugares onde pertenço, nas pessoas que marquei, nos objectos que usei ou nos livros que escrevi eu estou e estarei sempre presente mesmo que mais ninguém o reconheça, pois, se já ninguém viver para o recordar, a história e a imaginação futuras farão o seu papel. É claro que o mais importante é partilhar tudo isto com a minha metade. A pessoa em quem depositei todo o meu amor e que me acompanha sempre nos devaneios da embriaguez psicológica. Oh, como eu adoro viajar contigo! Somos só nós pelo mundo fora. A paisagem altera-se constantemente a uma velocidade impressionante mas nós somos sempre os mesmos, constantes. Se fecharmos os olhos por um instante vamos perder, sem dúvida, o ténue elemento de ligação entre um lugar e o outro. Somos sempre os mesmos espectadores, sempre com a mesma relação entre nós, sempre com os mesmo pressupostos, enquanto que o mundo lá fora age de forma diametralmente oposta.
Essencialmente gosto de caminha de lugar em lugar sem nunca ficar muito tempo no mesmo sítio. Gosto de variar entre o campo e a cidade, entre a cidade e o oceano, entre o oceano e o campo. Penso que esta minha necessidade está ligada às saudades que sinto da parte de mim que não possuo no momento. Quando não me é permitido estar em movimento constante fico ansioso e descontrolado. Quando percebo que, por mais que viaje e veja o mundo, as experiências irão ficar retidas nesse espaço de tempo. Quando olho para as minhas mãos e as vejo nuas, despidas, vazias, reparo que não me é possível trazer comigo tudo quanto vivo nos lugares que me pertencem. Se trouxesse tudo comigo, esvaziaria o lugar de sentido e nunca mais precisaria de lá ir. Depois não haveria mais nada, tudo estava acabado. Não me sinto em harmonia e as minhas energias ficam descompensadas. Quando fecho os olhos, vejo um viajante a meditar num largo prado verde entre as montanhas. Resquícios do que costumava ser, certamente. Uma exigência para que o recupere, talvez.
FIM
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
O meu pequeno caderno de escritor - 5ª parte
...continuação
Já contei os meus medos mas isso de pouco importa, até porque ainda não me conhecem. Sou um Homem que vagueia perdido há cerca de quinhentos anos. Viajo sem cessar por todo o lado e nunca estou sozinho. Para onde vá, carrego uma sombra que, ora caminha a meu lado, ora caminha atrás de mim. Viajo porque quero ver tudo o que é meu, tudo o que me pertence e tenho por aí espalhado. Não sou peregrino nem movido por idealismos alheios. O meu incentivo é a minha causa. A cada passo que dou vou-me completando e, no entanto, há algo que perco. Sempre que descubro alguma coisa que procuro, lembro-me de quanto deixei para trás. Carrego isso na sombra, mas não é a mesma coisa. A sombra desvanece-se, não nos permite guardar tudo quanto tivemos ou fomos, apenas parte disso. Geralmente, a parte que carrego é a má e é essa a razão que a torna um fardo tão insuportável. As coisas boas e prazenteiras trago-as na memória, essa não me pesa nada. Está sempre comigo e nunca me impede de avançar a bom ritmo. Caminho pelas estradas e pelo mato, tudo me pertence. Sítios onde nunca fui, caminhos que nunca percorri, são-me estranhamente familiares. Há um pouco de mim em tudo quanto vejo. Penso na sua totalidade, esses sítios compõem-me e eu ficarei completo quando os experimentar a todos. Aí compreenderei quem sou e de onde vim e certamente ficarei numa melhor posição de decidir para onde quero ir. Saberei qual a minha vocação e terei plena consciência de todas as minhas capacidades. Descobrirei factos fantásticos sobre mim que agora ainda ignoro e habilidades espantosas que dar-me-ão uma projecção que agora não tenho capacidade de imaginar. Por outras palavras, irei procurar fora de mim, na terra que me pertence e que me tornou como sou, pelas minhas várias faces que, conjuntamente, formam o meu carácter. Nesse dia, libertar-me-ei do fardo que carrego e deixarei para trás tudo o que não pode contribuir para a realização do meu destino. Certamente que este processo não será fácil. Irei sentir que faço parte de lugares que não são nada naturais para a minha pertença. À partida, nada faz prever que me irei aí envolver ao máximo grau. Não nasci lá, não vivi lá nem socializei as minhas bases em determinado sítio. No entanto, a essência desse lugar terá para mim uma magia inerente que me envolverá sem pedir contas à minha racionalidade e sem conseguir compreender o motivo ou sequer combatê-lo. É isto que nos permite saber onde pertencemos. Podem haver sítios onde gostamos de ir e onde as pessoas nos recebem bem, mas nunca será a mesma coisa. Nós somos o que somos e o lugar reflecte isso. É certo que as coisas e lugares não têm valor próprio, intrínseco, mas têm uma história, uma memória, um legado narrativo deixado por outros e que nos vai influenciar e moldar. Esse é o sentimento de pertença. Estar perante algo e saber que pertencemos ali, e que aquilo nos pertence a nós, é uma relação mútua. Há características naturais no território que nos permitam reconhecer imediatamente quando passamos a fronteira, a fronteira entre o que é nosso, o que nos pertence e nos torna nós próprios e o que é do outro. É o sentimento de pertença que nos define pois coloca-nos em confrontação directa com o outro. O que é meu não é do outro e eu sou aquilo que o outro não é. O que é nosso fez-nos assim como somos e é aqui que somos felizes.
Já contei os meus medos mas isso de pouco importa, até porque ainda não me conhecem. Sou um Homem que vagueia perdido há cerca de quinhentos anos. Viajo sem cessar por todo o lado e nunca estou sozinho. Para onde vá, carrego uma sombra que, ora caminha a meu lado, ora caminha atrás de mim. Viajo porque quero ver tudo o que é meu, tudo o que me pertence e tenho por aí espalhado. Não sou peregrino nem movido por idealismos alheios. O meu incentivo é a minha causa. A cada passo que dou vou-me completando e, no entanto, há algo que perco. Sempre que descubro alguma coisa que procuro, lembro-me de quanto deixei para trás. Carrego isso na sombra, mas não é a mesma coisa. A sombra desvanece-se, não nos permite guardar tudo quanto tivemos ou fomos, apenas parte disso. Geralmente, a parte que carrego é a má e é essa a razão que a torna um fardo tão insuportável. As coisas boas e prazenteiras trago-as na memória, essa não me pesa nada. Está sempre comigo e nunca me impede de avançar a bom ritmo. Caminho pelas estradas e pelo mato, tudo me pertence. Sítios onde nunca fui, caminhos que nunca percorri, são-me estranhamente familiares. Há um pouco de mim em tudo quanto vejo. Penso na sua totalidade, esses sítios compõem-me e eu ficarei completo quando os experimentar a todos. Aí compreenderei quem sou e de onde vim e certamente ficarei numa melhor posição de decidir para onde quero ir. Saberei qual a minha vocação e terei plena consciência de todas as minhas capacidades. Descobrirei factos fantásticos sobre mim que agora ainda ignoro e habilidades espantosas que dar-me-ão uma projecção que agora não tenho capacidade de imaginar. Por outras palavras, irei procurar fora de mim, na terra que me pertence e que me tornou como sou, pelas minhas várias faces que, conjuntamente, formam o meu carácter. Nesse dia, libertar-me-ei do fardo que carrego e deixarei para trás tudo o que não pode contribuir para a realização do meu destino. Certamente que este processo não será fácil. Irei sentir que faço parte de lugares que não são nada naturais para a minha pertença. À partida, nada faz prever que me irei aí envolver ao máximo grau. Não nasci lá, não vivi lá nem socializei as minhas bases em determinado sítio. No entanto, a essência desse lugar terá para mim uma magia inerente que me envolverá sem pedir contas à minha racionalidade e sem conseguir compreender o motivo ou sequer combatê-lo. É isto que nos permite saber onde pertencemos. Podem haver sítios onde gostamos de ir e onde as pessoas nos recebem bem, mas nunca será a mesma coisa. Nós somos o que somos e o lugar reflecte isso. É certo que as coisas e lugares não têm valor próprio, intrínseco, mas têm uma história, uma memória, um legado narrativo deixado por outros e que nos vai influenciar e moldar. Esse é o sentimento de pertença. Estar perante algo e saber que pertencemos ali, e que aquilo nos pertence a nós, é uma relação mútua. Há características naturais no território que nos permitam reconhecer imediatamente quando passamos a fronteira, a fronteira entre o que é nosso, o que nos pertence e nos torna nós próprios e o que é do outro. É o sentimento de pertença que nos define pois coloca-nos em confrontação directa com o outro. O que é meu não é do outro e eu sou aquilo que o outro não é. O que é nosso fez-nos assim como somos e é aqui que somos felizes.
continua...
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
O meu pequeno caderno de escritor - 4ª parte
...continuação
Tenho andado à deriva, consumido por estes pensamentos. O pior de tudo isto é a minha repulsa por este estado. Não gosto de me sentir dominado. Não gosto de perder as rédeas do meu espírito. Sinto o medo angustiante de não ser compreendido. De que vale possuir uma razão se ninguém a aceita nem se rege por ela? A verdade só existe quando há uma maioria que a aceita e vive segundo ela. Não há nada mais incapacitante do que estar certo e ninguém o reconhecer. Por mais argumentos válidos e verdadeiros que se apresente, eles não são aceites pelo outro. O mais assustador é pensar que todo o indivíduo tem este pensamento, esta inquietação pois cada um pensa diferente. Esta tem sido uma grande luta na minha vida e sinto que a estou a perder. Como se uma força maior me dominasse. Este sufoco constante não me proíbe, porém, de sentir um ligeiro agrado e um embriagante bem-estar quando a nostalgia me invade. Há algo de reconfortante em pensar que somos donos de uma verdade a que mais ninguém tem acesso. A estação que agora chega traz consigo essa nostalgia, o tempo arrefece e o espírito aquece. Parece ser uma reacção natural, instintiva até, que me irrita de um modo suportável e que me vence incondicionalmente sempre que a tento combater. O acumular excessivo de roupa sobre o corpo, o cheiro a molhado sobre os odores cosmopolitas, a brisa cortante que confronta as partes expostas. Não creio que haja algo mais odioso que o Inverno, mas o tempo frio tem em algo de acolhedor que supera naturalmente todos os meus problemas existenciais altamente refinados. Quantos mundos haverá por aí perdidos nas águas furtadas dos prédios da capital? Alguém como eu, alguém com os mesmos problemas, alguém que seja sempre derrotado pela natureza, a sua natureza, mas que ainda assim tente ver para além dela. Talvez seja esta incerteza que me faça avançar uma e outra vez sem desistir perante as bofetadas da vida. Avanço, mas avanço sozinho. Subitamente, estou isolado do mundo. Há algo de insuportável nas atitudes dos outros que me causa uma repulsa enorme. A estupidez alheia já não causa graça. É-me insuportável conviver com o ridículo do outro. Dou por mim a suspirar por melhores companhias. Já o fiz uma vez no passado e dessa vez consegui-o, mas não por muito tempo. Não durou muito até que o encanto desse lugar à repulsa. Agora de nada valem. Uma mentira, uma farsa. No conjunto, uma perda de tempo. Agora, quando suspiro, uma ideia invade-me a mente: será que as pessoas por quem suspiro existirão algures por aí? Se calhar sou bom demais para este mundo ou então estou a viver num engano à espera de quem não virá, de quem não existe. Espero pessoas à minha imagem que, obviamente, não existem, são uma ilusão. Penso que esta será a verdade, o arquétipo que projecto para o outro perfeito é um reflexo do meu próprio ser, mas ainda não estou pronto para a aceitar. Por enquanto, acomodei-me à resignação e ao mapa-mundo cinzento. De qualquer maneira, só há desilusão quando antecedida pela ilusão e talvez seja esta a chave para os meus problemas. Certamente sairei desta encruzilhada, tal como o fiz quando fui à descoberta do Novo Mundo. Nessa época, a resposta ao ambiente cinzento foi a aventura pelos mares do mundo e a fé de que alcançaria algo de melhor. Encontrava-me pressionado por todos os lados e olhem o que fiz: a empresa mais impressionante de todos os tempos. A crise não durará para sempre. Chegará o tempo de me erguer nas minhas pernas de gigante e, aí, o mundo estremecerá de novo! Derrotarei de novo qualquer mostrengo que se atravessar no meu caminho, esse produto da imaginação...
Tenho andado à deriva, consumido por estes pensamentos. O pior de tudo isto é a minha repulsa por este estado. Não gosto de me sentir dominado. Não gosto de perder as rédeas do meu espírito. Sinto o medo angustiante de não ser compreendido. De que vale possuir uma razão se ninguém a aceita nem se rege por ela? A verdade só existe quando há uma maioria que a aceita e vive segundo ela. Não há nada mais incapacitante do que estar certo e ninguém o reconhecer. Por mais argumentos válidos e verdadeiros que se apresente, eles não são aceites pelo outro. O mais assustador é pensar que todo o indivíduo tem este pensamento, esta inquietação pois cada um pensa diferente. Esta tem sido uma grande luta na minha vida e sinto que a estou a perder. Como se uma força maior me dominasse. Este sufoco constante não me proíbe, porém, de sentir um ligeiro agrado e um embriagante bem-estar quando a nostalgia me invade. Há algo de reconfortante em pensar que somos donos de uma verdade a que mais ninguém tem acesso. A estação que agora chega traz consigo essa nostalgia, o tempo arrefece e o espírito aquece. Parece ser uma reacção natural, instintiva até, que me irrita de um modo suportável e que me vence incondicionalmente sempre que a tento combater. O acumular excessivo de roupa sobre o corpo, o cheiro a molhado sobre os odores cosmopolitas, a brisa cortante que confronta as partes expostas. Não creio que haja algo mais odioso que o Inverno, mas o tempo frio tem em algo de acolhedor que supera naturalmente todos os meus problemas existenciais altamente refinados. Quantos mundos haverá por aí perdidos nas águas furtadas dos prédios da capital? Alguém como eu, alguém com os mesmos problemas, alguém que seja sempre derrotado pela natureza, a sua natureza, mas que ainda assim tente ver para além dela. Talvez seja esta incerteza que me faça avançar uma e outra vez sem desistir perante as bofetadas da vida. Avanço, mas avanço sozinho. Subitamente, estou isolado do mundo. Há algo de insuportável nas atitudes dos outros que me causa uma repulsa enorme. A estupidez alheia já não causa graça. É-me insuportável conviver com o ridículo do outro. Dou por mim a suspirar por melhores companhias. Já o fiz uma vez no passado e dessa vez consegui-o, mas não por muito tempo. Não durou muito até que o encanto desse lugar à repulsa. Agora de nada valem. Uma mentira, uma farsa. No conjunto, uma perda de tempo. Agora, quando suspiro, uma ideia invade-me a mente: será que as pessoas por quem suspiro existirão algures por aí? Se calhar sou bom demais para este mundo ou então estou a viver num engano à espera de quem não virá, de quem não existe. Espero pessoas à minha imagem que, obviamente, não existem, são uma ilusão. Penso que esta será a verdade, o arquétipo que projecto para o outro perfeito é um reflexo do meu próprio ser, mas ainda não estou pronto para a aceitar. Por enquanto, acomodei-me à resignação e ao mapa-mundo cinzento. De qualquer maneira, só há desilusão quando antecedida pela ilusão e talvez seja esta a chave para os meus problemas. Certamente sairei desta encruzilhada, tal como o fiz quando fui à descoberta do Novo Mundo. Nessa época, a resposta ao ambiente cinzento foi a aventura pelos mares do mundo e a fé de que alcançaria algo de melhor. Encontrava-me pressionado por todos os lados e olhem o que fiz: a empresa mais impressionante de todos os tempos. A crise não durará para sempre. Chegará o tempo de me erguer nas minhas pernas de gigante e, aí, o mundo estremecerá de novo! Derrotarei de novo qualquer mostrengo que se atravessar no meu caminho, esse produto da imaginação...
continua...
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
O meu pequeno caderno de escritor - 3ª parte
...continuação
Encontro-me a escrever num mundo bem distante. No entanto, pela minha caneta já não saem as palavras de outrora. O meu estilo de escrita encontra-se irreconhecível, as minhas ideias não são as que costumava exprimir. A minha mundividência alterou-se. A minha experiência neste curto espaço de tempo, deixou marcas em mim. As pequenas coisas do dia-a-dia e os contactos banais que tive com o mundo exterior deixaram-me diferente. Estas alterações criam grandes expectativas, planos que são imaginados e que saem frustrados porque tudo continua igual, permanece. À medida que escrevo, sinto que caminho para a minha perdição. É um pedaço da minha alma que coloco num papel em forma de uma mancha de rabiscos que não passa disso quando alguém a despreza. Quando escrevo, deposito no leitor uma confiança tácita. Sabe-se lá o que ele fará com as minhas palavras, as minhas ideias. Eu joguei as minhas cartas e fiquei ali em frente ao mundo, despido de mim mesmo. O mundo pode-me agraciar com raios de sol que me aquecem a pele despida e me reconfortam a alma indefesa ou pode-me agredir com vento cortante e chuva deprimente. O leitor está resguardado no seu próprio habitat. Pode escolher como e quando travar contacto com a minha obra e reclama para si o poder de a julgar. As suas opiniões são inúmeras e a sua vantagem é gritante. Vai ser ele a decidir se o escritor é aclamado ou se é renegado e enxovalhado. O seu livre arbítrio ditará a apreciação final sendo esta a avaliação que o autor terá de suportar aos seus ombros. Boas ou más, as palavras que constituem uma obra são a expressão da mundividência do artista, um produto do seu mapa cognitivo, um espelho da sua alma. Tal não pode ter uma avaliação honesta e imparcial porque esta será sempre uma opinião de uma expressão cultural diferente. O leitor pode achar a obra boa ou má, mas na verdade isso é irrelevante pois o trabalho já existe e a mensagem que ela encerra será assim perpetuada. Por detrás da conjugação de palavras há sempre uma mensagem que quer ser descodificada e apreciada. O livro representa uma faceta de quem o escreveu pois é o resultado de algo que foi imaginado pela sua mente. Só me resta então esperar que o leitor acaricie o meu pedaço de alma e o coloque numa estante junto das almas de outros artistas para que possa com eles conversar eternamente. Perco-me com este medo, esta esperança. As pistas que me são enviadas serão sempre mal interpretadas. Umas falsas, outras mal expressas, nunca conseguirei aceder à mente do leitor para compreender os sentimentos que nele despertei.
Encontro-me a escrever num mundo bem distante. No entanto, pela minha caneta já não saem as palavras de outrora. O meu estilo de escrita encontra-se irreconhecível, as minhas ideias não são as que costumava exprimir. A minha mundividência alterou-se. A minha experiência neste curto espaço de tempo, deixou marcas em mim. As pequenas coisas do dia-a-dia e os contactos banais que tive com o mundo exterior deixaram-me diferente. Estas alterações criam grandes expectativas, planos que são imaginados e que saem frustrados porque tudo continua igual, permanece. À medida que escrevo, sinto que caminho para a minha perdição. É um pedaço da minha alma que coloco num papel em forma de uma mancha de rabiscos que não passa disso quando alguém a despreza. Quando escrevo, deposito no leitor uma confiança tácita. Sabe-se lá o que ele fará com as minhas palavras, as minhas ideias. Eu joguei as minhas cartas e fiquei ali em frente ao mundo, despido de mim mesmo. O mundo pode-me agraciar com raios de sol que me aquecem a pele despida e me reconfortam a alma indefesa ou pode-me agredir com vento cortante e chuva deprimente. O leitor está resguardado no seu próprio habitat. Pode escolher como e quando travar contacto com a minha obra e reclama para si o poder de a julgar. As suas opiniões são inúmeras e a sua vantagem é gritante. Vai ser ele a decidir se o escritor é aclamado ou se é renegado e enxovalhado. O seu livre arbítrio ditará a apreciação final sendo esta a avaliação que o autor terá de suportar aos seus ombros. Boas ou más, as palavras que constituem uma obra são a expressão da mundividência do artista, um produto do seu mapa cognitivo, um espelho da sua alma. Tal não pode ter uma avaliação honesta e imparcial porque esta será sempre uma opinião de uma expressão cultural diferente. O leitor pode achar a obra boa ou má, mas na verdade isso é irrelevante pois o trabalho já existe e a mensagem que ela encerra será assim perpetuada. Por detrás da conjugação de palavras há sempre uma mensagem que quer ser descodificada e apreciada. O livro representa uma faceta de quem o escreveu pois é o resultado de algo que foi imaginado pela sua mente. Só me resta então esperar que o leitor acaricie o meu pedaço de alma e o coloque numa estante junto das almas de outros artistas para que possa com eles conversar eternamente. Perco-me com este medo, esta esperança. As pistas que me são enviadas serão sempre mal interpretadas. Umas falsas, outras mal expressas, nunca conseguirei aceder à mente do leitor para compreender os sentimentos que nele despertei.
continua...
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