terça-feira, 13 de novembro de 2012

Requiem


E agora que morreste. Partiste para onde sei que te encontras e que eu não posso ver. E agora que morreste. Quem será o meu amigo, quem me guiará? E agora que morreste. Separa-se a alma e o corpo, fica a memória e a saudade. Enquanto eu viver, viverás tu também através de mim. O meu corpo será o teu e a minha palavra a tua. Servir-te-ei como sempre te servi e tudo farei para que o teu espectro nunca abandone este mundo dos vivos. Para onde eu for, tu seguir-me-ás. No que eu fizer, tu ajudar-me-ás. Partes deste mundo das sensações e das experiências para encontrares o teu lugar num sítio melhor. És as árvores que crescem, as folhas que caem, o vento que sopra e as crianças que nascem. És a erva que brota e a nascente que jorra. Partiste meu pai. Partiste mas eu sei que nunca me abandonaste, que continuas aqui, ao meu lado, a velar por mim, pela nossa família e por toda a humanidade que prossegue no seu caminho. Juntaste-te ao conselho dos sábios que tudo vê e governa, juntaste-te à energia que anima toda a Terra. Na minha memória fica o teu sorriso, a tua mão no meu ombro. Enquanto disso eu me lembrar estarás aqui, nesta igreja, nesta aldeia, neste mundo, comigo e com todos os que ajudaste e com eles privaste. Eras único, como tu não houve ainda igual. Dotado de uma riqueza sem igual, no espírito e na mente, na mão que o trabalho completava. A tristeza que sempre te vi no olhar e a reserva que tinhas em florir para o mundo tinham as suas raízes no momento da perda da mãe. Nunca a conheci mas sei, através de ti, que era uma mulher fantástica. O teu amor por ela era algo que as meras palavras não podem explicar. Sei que lhe deste grande parte de ti e que, quando ela partiu, não conseguiste recuperar o que deveria encher esse vazio. Admiro-te tanto meu pai! Quando a pressão atingiu o seu limite e quando a vontade de desistir conheceu o seu apogeu, tu pegaste na trouxa e foste trabalhar, tal como fazias todos os outros dias da tua vida. Estavas totalmente devastado, destruído por dentro, com a alma dilacerada. Ainda assim, continuaste. Por mim… Nunca desististe, nunca me deixaste. Nunca fui rico ou instruído mas não deixei de comer por um único dia da minha vida. Se hoje aqui estou, casado com uma linda mulher e pai de quatro magníficos filhos, devo-o a ti meu pai que, todos os dias, foste trabalhar para ganhar o pão que nos alimentou, mesmo odiando a tua ocupação. Se o meu presente é maravilhoso e o futuro risonho, devo-o a ti que tiveste a visão de me guiar pelos caminhos sinuosos do mundo. E agora que morreste. Sabes que eu não estou triste, foste tu quem me ensinou a ser assim. Foste tu quem me ensinou que a morte precede a vida e que a memória precede a morte. Vou-me sempre lembrar de ti, meu pai. Todas as noites, contarei aos meus filhos, aos teus netos, as nossas aventuras e tudo aquilo que vimos e vivemos. Juro-te que lhes darei tudo o que estiver ao meu alcance e que tudo farei para continuar a nossa maneira de ser e viver, que tu começaste. Eu não te posso ver, meu pai, mas sei que estás aqui, e além, e acolá. Já não és mais o homem que me ensinava os mistérios da vida, que me contava os segredos sobre as estrelas, que me ajeitava na sela do cavalo e que me orientava nos meus deveres. Mas eu também já não sou mais esse petiz que te olhava embevecido quando falavas à luz da fogueira. Agora chegou a minha vez de ser o homem, tomei o teu lugar, e tu juntaste-te aos nossos antepassados para juntos formarem a energia que permite o mundo funcionar. Não é fácil ocupar a teu lugar. Preencher o vazio que criaste torna-se ainda mais complicado quando a tua família, os teus netos, os teus vizinhos correm a pedir conselho e sabedoria. Eu próprio careço de guia por vezes, não estou em posição de comandar, de ser o chefe de família que tu eras, de ser o Homem que tu outrora foste. A vida pai, a vida é como um rio. Foste tu próprio quem mo disse. A história da vida, de uma vida, não é singular. Bem sei que a sua complexidade, tal como o seu valor, advêm dos inúmeros episódios que constroem o seu corpo principal. E nós bem que tivemos os nossos momentos… A vida serve para viver, senão não pode sequer ser chamada de tal, e nós vivemos bem a nossa! Hoje não haverá choro e a tristeza não terá lugar. O sino soou onze vezes, tantas vezes quantas as estrelas que irei baptizar em tua honra. Hoje celebra-se, não a tua morte mas sim a tua vida. Celebramos quem foste e o que fizeste enquanto por cá andavas. E agora que morreste, toda a aldeia veio ao teu funeral. Todos os que conhecias e cumprimentavas, todos os que se riam e te saudavam. Mas não são apenas esses que enchem esta igreja. Dezenas de outros vieram também. Outros de outros lugares que não conhecemos, pessoas de que nunca sequer ouvimos falar. Mas todos vieram hoje a este lugar. Todos largaram os seus afazeres e percorreram longos caminhos para aqui estar. Hoje, agora. Todos vieram para te ver e por ti rezar. Talvez tenham algum recado para te dar, alguma palavra que não foi dita, algum momento que não foi vivido e vieram aqui, agora, para fechar esse círculo. Sim pai, agora que morreste.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 2ª parte

...continuação














O teu pensamento está longe, no estrangeiro diria eu. Um amor prometido, um amor perdido. Promessas que se fazem e laços que se partem. Ai de mim! Um intruso na própria história que estou a criar... À nossa volta as pessoas tagarelam sem parar, a música toca para as conversas esgotadas, os empregados trabalham numa azáfama esgotante e a nossa amiga fala para uma audiência vazia. É tudo uma distracção. O mundo a acontecer à minha volta e eu parado no tempo, incólume ao que se passa. É uma janela de tempo que me passa ao lado e por onde nunca eu irei espreitar. Só consigo fitar-te e tentar perceber o que te torna tão irresistível. Parecer caída num autismo extremo que virou a tua atenção para dentro de ti. Mais ou menos o posto do que se passa comigo. Eu sinto-me completamente esmagado pela imagem de ti que se constrói dentro da minha cabeça, pelo que começo a sentir por ti. Uma sombra do futuro que se começa a formar ainda hoje. Tu não compreendes nada do que está a acontecer. Tentas curar a mágoa de um infortúnio amoroso, acabando por fechar os olhos para o que gira em teu redor. Tentas perceber o fim de um laço, de uma relação. A sentença foi ditada na noite anterior, quando discutiram ao telefone mas a inevitabilidade já tinha sido criada anteriormente. Tentas perceber quando a chama começou a esmorecer mas não compreendes. A cegueira que tens é mero reflexo daquela que costumavas ter. Ainda há pouco, quando estava no conforto do meu automóvel, não sentia nada disto. A minha atenção estava centrada na condução e o meu sub-consciente cantava alegremente as canções da rádio. Agora observo-te e experimento um estado de espírito totalmente oposto. Quando vinhas no banco de trás do meu carro não tinhas essa mágoa no olhar. Vi-te dezenas de vezes através do retrovisor. Falavas e cantavas, esboçavas até um pequeno sorriso. Parece um mundo diferente não é? Parece que estamos numa realidade paralela, diferente... Que fazes tu com esse pedaço de papel branco? Todas essas dobras e recortes... Estás consciente do que fazes ou as tuas mãos trabalham a um mote diferente do teu pensamento? Penso que ainda continuas absorvida nas tuas ideias, encantada, e isso que agora fazes não é racional. Quatro pernas, uma cabeça, duas orelhas e uma cauda... Acabas de recortar um pequeno cão branco de uma folha informa. A tua tristeza fez-te criar um "amigo". Tinhas que o inventar? Sempre me esforcei ao máximo para ser esse amigo que o teu sub-consciente projectou nesse cão branco de papel. Nunca quiseste saber... Sempre fiz tudo quanto estava ao meu alcance para agradar, ajudar. Sempre te de dei muito mais do que aquilo que pedias e precisavas. E tu? Recortas um refúgio de uma folha branca... Que tristeza eu sinto! Desejo sair desta mesa e abrigar-me no carro. Ao menos lá não sinto frio... Mas tu não me permites a saída. Já mencionei que te olhei durante todo este tempo? Não me importa que não retribuas o olhar, o pensamento, o sentimento... Quando nos formos embora vou pegar nesse teu cão branco de papel que certamente vais deixar para trás e vou guardá-lo. É como se me fosse permitido ficar com um pedaço teu e depositar nesse totem aquilo que a ti me liga. Só tu importas. O resto, o resto é distracção.

FIM

domingo, 11 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 1ª parte

Sobre a mesa, um café. Logo outro se apressa a juntar-se-lhe seguido de outro. Três. Tantos cafés como pessoas e, porém, apenas dois cigarros se acendem. Entre os bafos prazenteiros e o expelir do fumo que viaja desde as entranhas dos pulmões, passa pelos lindo lábios vermelhos e se desvanece no ar criando uma pequena nuvem desfocada que, decerto, manchará o odor das minhas roupas noto que a lua está cheia e o tempo frio. Quando conduzia, ainda há pouco, não poderia adivinhar que a noite estava assim tão fria. O conforto que o habitáculo do meu automóvel me proporciona é deveras ilusório e escasso. Ainda há pouco estava relaxado no estofo macio do assento e ouvia, calmamente, a música que seleccionara sem sentir qualquer réstia do tempo húmido e frio que, descobri estar no exterior. Agora estou sentado a uma mesa numa cadeira rija e desconfortável, com os ossos enregelados e abafado pelo fumo dos cigarros. Que situação desagradável! As roupas que trago vestidas não se adequam ao frio húmido do tempo e refugio-me no café a escaldar para me aquecer. Aquece o corpo e a alma, tudo naquela pequena chávena. Quanto mais pequena melhor, a minha bica. São assim os melhores prazeres! A lua está cheia e os cafés são três mas os meus olhos, quando por ti passam, demoram-se a tentar perscrutar a tua mente. Os teus longos cabelos negros misturam-se com o negro dos teus olhos e nem a escuridão da noite me impede de ver o que eles transmitem. Olhas para a lua e eu vejo-a reflectida em ti. Está cheia e brilhante, assim como a tua mente que divaga ao abrigo das esperanças incompreendidas. Um último trago esvazia a minha chávena e, com aquela última porção de café, vai-se todo o prazer em estar ali, sentado àquela mesa. A tua mente parece perturbada e isso reflecte-se nos teus olhos. Segundo dizem, os olhos são o espelho da alma. Uma grande verdade que encerra a expressão e um engano que provoca a palavra. O que é a alma senão a nossa mente? Ou melhor, o que é a alma senão os sentimentos, as emoções, a cultura e as ideias? E onde está tudo isso? Pessoalmente nunca as vi e duvido que alguém já tenha completado esse feito mas acredito que estão na mente. Onde mais poderiam estar? Hoje os teus olhos espelham tudo o que se passa dentro de ti: a confusão, as dúvidas e o ressentimento. No entanto, toda a perturbação que eles contam é ocultada pela tua aura de beleza. É como se a tua pele, sempre morena, irradia-se um brilho ofuscante que realça a tua beleza e esconde a tua dor humana. E os teus lábios, desenhados no rosto com um traço seguro e bem dominado, escondem as cruas palavras que proferes tornando-as numa música que se esforça por encontrar os meus ouvidos. Os cigarros acabam finalmente. No maço, mais que meia dúzia. Uma tortura! Tudo em meu redor me perturba, o frio, o fumo, o prazer do café que acabou... Olhar para ti é o pior! Ver-te aí, tão perto e tão distante. Pergunto-me que assunto te levará o pensamento para tão longe. Na verdade sei-o mas prefiro fingir a ignorância. A verdade dói! Não tem dó nem piedade. Parece que alguém a concebeu para ser assim, dolorosa...

Continua...

sábado, 10 de novembro de 2012

Esclarecimento sobre "Crónica de um amor burguês"


Quero começar a minha resposta à Carla com um agradecimento pelo comentário tão extenso e tão bem escrito que publicou aqui no blogue. Para mim é muito comovente ver que as minhas mensagens estão a chegar a algum lado, ao outro lado. Ver que os textos que escrevo não estão a morrer no arquivo virtual destas páginas imaginadas e que estão realmente a chegar a pessoas que os lêem e se interessam por eles ao ponto de comentar as ideias que deixo por lá. Quero mais uma vez frisar que são todos muito bem-vindos a comentar o blogue seja com ideias pessoais, sugestões, textos próprios ou apontamentos aos meus. Farei o meu melhor para responder a todos eles.

Antes de chegar ao comentário que a Carla fez no texto "Crónica de um amor burguês - 2ª parte", apraz-me salientar que apesar do meu estilo de escrita me levar, frequentemente, a escrever na primeira pessoa, tal não significa que as experiências ou as ideias presentes no texto sejam minhas e que as tenha vivido na primeira pessoa. A escrita na primeira pessoa é uma opção literária consciente que eu adopto para dar aos meus textos um lado mais humano, algo que os aproxime mais dos leitores. Obviamente que os meus textos não se desligam de mim, afinal sou eu quem os escreveu e eles partiram directamente das minhas ideias e visões sobre os assuntos, mas a escrita na primeira pessoa é utilizada para humanizar os sentimentos e sensações e não para relatar eventos específicos que se tenham passado comigo.

Falando agora, mais especificamente, sobre o texto "Crónica de um amor burguês" quero dizer que ele não reflecte a minha posição sobre o amor. Trata-se de uma crítica ao modo como a sociedade moderna tem tratado o assunto sem, porém, efectuar nenhum juízo de valor. Acima de tudo, pretendia demonstrar que a sociedade moderna tem abordado o amor, tanto como os outros sentimentos, segundo uma perspectiva que se coaduna quase na perfeição com o modo de organização social, ou seja, que uma sociedade de valores orientados para a competição, o lucro e a maximização tem abordado os vários sentimentos numa lógica de acumulação de bem-estar pessoal através da materialização especializada das manifestações públicas. Com isto quero chamar a atenção para o fenómeno de industrialização dos sentimentos que está a monopolizar o campo das manifestações e demonstrações sentimentais. Coisas como a simbolização de datas ou produtos específicos em torno de sentimentos: o dia dos namorados, o dia da mãe, o dia de todos os santos, etc. Os exemplos são infindáveis. Mais uma vez quero chamar a atenção para a ausência de juízos de valor neste meu argumento. Isto não é bom nem mau, é um facto. Como tal, temos de o compreender a aprender a lidar com ele. O facto de existir o dia de todos os santos em que está institucionalizada a ida ao cemitério para visitar os defuntos não deve inibir que o culto e homenagem aos antepassados se faça apenas nesse dia. O meu argumento surge neste sentido para compreender estas dinâmicas. O assunto é muito interessante e seria objecto para muitas e muitas páginas de reflexão pois este facto social incorpora toda uma dinâmica própria e manifesta-se sob dezenas, centenas ou até milhares de formas, formas sobre as quais eu ainda nem reflecti. É por isso que me quero focar no amor, para ir de encontro ao meu texto que originou este esclarecimento. A minha perspectiva pessoal sobre o amor e os sentimentos está contida de forma muito fidedigna no meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", cujo excerto tive oportunidade de colocar aqui no blogue. Uma forma de abordar o amor que vá muito mais ao centro da questão e que não se fique pela superficialidade retratada na "Crónica de um amor burguês". Penso que o amor não pode ser burguês, ou seja, não se pode refugiar nas manifestações materiais a que nos habituámos a identificar como formas de de demonstrar que gostamos de alguém. Claro que o meu argumento não é radical, ou seja, acho que é muito importante que nos dediquemos a escrever cartas com tinta permanente ou decorar o local de um encontro com pétalas e velas desde que isso não seja o nosso objectivo último. Tudo isso que foi descrito na "Crónica de um amor burguês" deve ser uma forma de agradar à outra pessoa para a mimar e tratar bem desde que não seja encarado como a totalidade do sentimento. O amor é algo profundo do ser humano e a sua análise deve ser feita através de uma introspecção que mergulhe no carácter e na essência da pessoa, ultrapassando a efemeridade do presente ou da perfeição da tinta. A parte não pode ser tomada pelo todo porque o amor é tão mais profundo quantas camadas conseguir penetrar e quanto menos visível se conseguir tornar para a efémera visão humana.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segunda Parte - Composição I


A esta altura, na sequência do texto que publiquei "Crónica de um amor burguês", faz todo o sentido clarificar a minha posição e ideias sobre o amor. Para tal, deixo aqui um excerto da Composição I que é parte integrante do meu primeiro livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", podendo ser encontrado na Segunda Parte do livro. Escolhi este excerto pois acredito que ele dá uma ideia muito mais clara sobre a minha forma de ver o amor em detrimento da "Crónica de um amor burguês", escrita em tom de crítica ao modo como a sociedade moderna encara este tema.

Q



uando sinto a chuva a acariciar-me o rosto, são as tuas lágrimas que caem sobre mim como agulhas incandescentes e se entranham na minha alma. Quando sinto o sol beijar-me a pele, é a ira que transparece nos teus olhos e me leva numa viagem até às profundezas de tudo e me queima como uma labareda infinita. Quando sinto o vento passar por mim, é a tua raiva e a fúria que faz levitar tudo à nossa volta e que me trespassa o coração, tal lança afiada e pontiaguda que é. Quando sinto a areia seca que me escapa por entre os dedos, é a tua tristeza e desilusão que me causa uma dor aguda e me faz também querer desintegrar-me e desaparecer. Sentir que te faço sofrer, causa-me vergonha e desorienta o meu humilde ser. Abala toda a minha consciência e os meus sentimentos pois a minha razão de ser é a tua felicidade. Oh! Só Deus sabe como eu nasci para isto… Eu nasci para te encontrar e para te fazer feliz. E seremos então a união perfeita de dois seres humanos. A união mais perfeita que pode existir. Oriento toda a minha acção para este supremo objectivo. Quando não o consigo, os quatro elementos libertam as suas amarras que acorrentam o meu espírito e o deixam eternamente na masmorra do esquecimento. Mas eis que surge a sombra no fundo da caverna. És tu que te levantas atrás de mim e fazes deslizar suavemente pelo vazio a espada dourada de dois gumes. Não importa onde me agarre, hei-de sempre ferir a minha pele sensível. Por mais robusto que me torne, nunca poderei estar preparado para o que de ti surge. Pego na mesma. Não havia de ser por isso que recusaria algo teu. É então que olho para trás. Aceito a mão que me estendes e ergo-me nas minhas sólidas pernas. Saímos juntos para o desconhecido. São pétalas de moribunda rosa que nos cercam e caem sobre os flancos! Estendo o braço sobre os teus ombros. No escuro da sala, nem reparas nos arpões que voam de nenhures com destino a ti mesma. O meu braço que te cerca, protege-te de toda a dor e recebe com agrado as furiosas ferroadas de tão pontiaguda arma. Não importa! Estás a salvo… Olhas os meus olhos. O preto funde-se com o castanho, o castanho funde-se com o verde, o verde funde-se com o branco que o circunda. No fim, resulta tudo num vermelho intenso que sai dos enormes buracos onde o metal da seta se funde com a carne do meu braço. A perfeição do momento resulta do brilho intenso que nasce dos teus olhos. Dois poços da juventude, dos quais anseio por beber… Maravilhados, os meus feios olhos esquecem a dor profunda e gritante e partilham da amorosa genuinidade que dos teus análogos jorra. Perfeição! Os quatro elementos estão em harmonia… Das labaredas infernais domestica-se o fogo que me é oferecido por ti, oh Deusa Suprema! É o amor e a paixão que me deste um dia a conhecer. Incendeias a minha alma sempre que te aproximas e, quando me tocas, todo eu broto numa tocha imensa que arde sem se ver. E então os teus lábios tocam os meus num beijo profundo e eterno. A tua saliva semeia em mim uma frescura incontrolável. É fonte que corre sem cessar e rega tudo à sua volta, fazendo florir perfeitos frutos do amor. Depois sussurras-me ao ouvido palavras eternas de carinho. A brisa que traz tão doces palavras depressa se apressa e corre… Corre não, voa… Voa por mim fora e todo o mundo e todos os mundos ouvem as juras eternas de amor. Testemunhas serão! Testemunhas de tão sincera paixão, proferida pessoalmente pela Deusa das deusas. Na terra ficará para sempre marcada a pegada vermelha do amor incondicional. Para que todos possam ter conhecimento e seguir esse modelo. Porque só uma vida sofrida no seio do amor, é de facto uma vida e fica para sempre marcada no manto de estrelas que cobre a terra. A perfeição existe! Está na carícia que o simples mortal faz à Deusa para esta cair num sono tranquilo e descansado. Um só beijo desta magnífica entidade e atingirei a plenitude… 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 10ª parte

Junto ao enorme portão da residência mais rica da aldeia figurava um pequeno sino suspenso. António tocou-o energicamente na esperança que alguém os viesse receber. Naquele dia, o silêncio e a quietude foram os porteiros daquela casa.
- Os Senhores não estão! - disse uma voz vinda de trás. - Saíram quero eu dizer...
António assustou-se com a voz inesperada. Virou-se para trás procurando de onde vinha. Um homem de idade já avançada, apoiado num cajado que, pela aparência imperfeita, fora feito pelo próprio de um tronco de uma árvore olhava-os com uma certa desconfiança.
- Os Senhores não estão. - repetiu ele. - Desejam alguma coisa?
- Penso que o nosso assunto apenas pode ser tratado com os “Senhores”. - respondeu António com tom irónico – Queríamos uma casa sabe... Acabámos de chegar de uma longa viagem e viemos para ficar!
- Tanta determinação a um rapaz tão novo. Decerto trará novidades aqui à aldeia! Não costumamos ter por cá muita gente nova... Fazemos o seguinte, por hoje ficam em minha casa. Amanhã tratam do futuro!
- Agradeço-lhe imenso meu bom senhor, mas não me parece certo dar-lhe todo esse trabalho e, para além disso, para quê adiar o inevitável? - respondeu amavelmente o pai de António. - Hoje ou amanhã, o que é certo é que teremos de comprar uma casa para viver...
- Não seja parvo senhor! Tenho todo o gosto em recebê-lo em minha casa e a minha mulher ficará radiante por ver caras novas. Ela adora saber as novidades do que por aí se passa... Hoje os Senhores não estão. Foram numa caçada e só voltaram amanhã.
- Pai, está a escurecer... Talvez devêssemos acompanhar o senhor... - disse António baixinho a seu pai.
- Escute o seu filho, homem! É sensato o rapaz. Vê-se que sabe tomar decisões. Venham daí, a patroa já deve ter a ceia pronta. Não a queiram enfurecer, é um conselho que vos dou...
- Bem, se o dono não está, não vale a pena esperar aqui ao frio a noite toda. Se nos oferece a sua casa temos todo o gosto em por lá pernoitar.
António e o seu pai seguiram então o velho que os guiou para uma casa não muito longe dali.

domingo, 4 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 9ª parte

Este era antes um homem sonhador que lhe contava histórias fantásticas da sua vida de criança e que partilhava com ele, de forma doce e suave, as perspectivas que tinha para o desconhecido que estavam prestes a conquistar. Mal saberia que daí a alguns anos, seria a sua vez de contar aos seus filhos tudo o que viu nessa grande viagem entre o Ribatejo e a Carregueira. Todas as povoações, todos os prados e planícies, todas as pessoas que viu e conheceu ao longo do Tejo ficariam-lhe para sempre gravadas na memórias com traços de uma pintura romântica que nos aquece a alma e nos traz a saudade ao espírito.
Quando, em meados de Maio, pai e filho chegaram à Carregueira, António experimentou uma sensação para a qual nada nem ninguém o podiam ter preparado. Os sonhos que o pai lhe descrevia de como imaginava a futura localidade onde iriam morar eram entusiasmantes, mas aquilo... Ver com os seus próprios olhos a materialização de todas as suas expectativas fez António saltar de repente da parte de trás do cavalo e correr pelos caminhos da aldeia que albergava a sua nova casa. Tudo lhe parecia saído de um sonho, nada parecia real. Era bom de mais para ser verdade! Todas as casas estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra que continuava até perder de vista. Eram todas sensivelmente do mesmo tamanho e caiadas de branco contendo na parte de trás, uma porção pequena de terreno arável que, para os olhos embevecidos de António, deveriam ter pelo menos um ou dois hectares. A aldeia respirava de vida. De um lado e de outro, os homens cavavam, as mulheres lavavam e os petizes brincavam. Tudo parecia estar no seu lugar, conjugado harmoniosamente, no entanto, certas casas encontravam-se silenciosas. António dava especial atenção a essas pois sabia que, muito provavelmente, iria morar numa delas. Caminhava calmamente ao lado de seu pai, que ainda montava o cavalo, e dirijam-se para a casa mais alta e maior da povoação onde residiam os nobres proprietários. A vizinhança olhava-os cautelosamente sem porém nunca deixarem de fazer as suas tarefas. Não era comum avistar-se gente estranha por aqueles lados, mas também não se recebia por lá ninguém com maus modos. António e seu pai iriam comprovar isso na primeira pessoa.

sábado, 3 de novembro de 2012

O sol nasce e faz renascer

Quando o sol nasce, invade todo o ambiente com alegria e cor. Os espectros sombrios ganham uma nova face e enquadram-se na explosão de emoções. De sombrios e imperceptíveis passam a agradáveis e identificáveis. Esvoaçam pelo mundo e ficam sob o olhar sonhador de quem observa. A caixa rígida desaparece e a acção sem limites toma o seu lugar.
O raio de sol que passa pela janela desbota a minha serenidade tornando-a, desajeitada, numa nuvem bonita. Oh! nuvem bonita, sem ti o que faria eu num quadro inocente despido de maldade e ambição que representa uma campainha desagradável que toca sem parar quando menos a desejam? O olhar que me fita do quadro feio ao fundo da sala causa-me estranheza e transporta-me para o Oriente como homem que sou. A minha viagem não me leva a lado nenhum. O sol continua a irritar a minha pele e uma pessoa passa rápida por mim levantando o vento melancólico daquilo que relembro. A cadeira em que me sento é uma campainha desagradável que toca sempre que me tento levantar. Nada naquela porta me tenta a atravessá-la e, no entanto, o tapete carinhoso transporta-me pelo ar para onde quero ir. A cadeira prende-me frente ao quadro inocente que se mancha agora de um vermelho intenso e corrompe a sua essência. Sinto repulsa de tudo isto. O sol queima-me a face.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 8ª parte

Naquela altura, uma viagem desta natureza demorava vários dias a completar. O comboio era um luxo que não podiam pagar e a sua cobertura era muito deficiente. O cavalo era a melhor forma de chegar ao destino. Cavalgaram de dia e descansaram de noite. Geralmente, pernoitavam no meio do campo ou do mato, onde faziam fogueiras e camas de folhas secas. António recordaria para sempre aquela viagem como a jornada da sua vida. Nunca tinha passado tanto tempo com o seu pai ou visto tantas coisas diferentes. A cada dia que passava, o seu pai fascinava-o mais. Nunca lhe fora possível imaginar um homem tão sonhador e romântico. A sua atitude cabisbaixa e atarefada do dia-a-dia não deixava ver o que se escondia dentro daquele homem fantástico. A atitude forte e rude que António aprendeu a imitar não era afinal característica de seu pai.
- Conheces aquela estrela ali? - perguntou o pai a António apontando para o céu com as suas grandes mãos.
- Se a conheço? O que queres dizer? Como posso eu conhecer uma estrela? Ela não fala, não corre, não sorri, não ama...
- E alguma vez eu te dei todas essas coisas? E tu conheces-me, ou não? Sou eu, o teu pai... Sempre fui.
- Sim eu sei... Mas é diferente... - respondeu António atrapalhado.
- Conhecemos uma coisa quando a observamos tempo suficiente para sabermos de cor cada detalhe seu. Aquela ali conheço-a como se fosse a minha melhor amiga. Passava horas a fio a admirá-la deitado junto ao regato da aldeia. Agora não posso deixar de pensar que estava errado...
- Errado? Como assim?
- Sim... Aqui junto ao Tejo parece que a pequena estrela ganha outro tamanho. A vida é um ponto de vista sabes? A verdade que construires durante a vida será a tua e mais ninguém a possuirá. Venha o que vier, é algo que nunca te poderão tirar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 7ª parte

António e seu pai partiram nessa noite rumo ao desconhecido. Tal aventura sempre mudou a vida de quem a fez, o que António não sabia é que a mudança seria tão boa para si. A ignorância que revelava e a desconfiança face ao que é novo resultavam de nunca ter saído daquela pequena localidade em que vivia. No entanto, a necessidade fala sempre mais alto e o mundo daquele rapaz de dezassete anos foi forçado a desabrochar. A despedida de Manuel foi o que mais lhe custou. Seu amigo de toda a vida, aliás, o único amigo que alguma vez tivera ficaria preso no local de onde António fugia. Não obstante, o que o prendia naquele lugar não conseguiu ser mais forte que o chamamento da novidade. Tinha perfeita noção o quanto custava ao pai viver no local onde tinha perdido o seu grande amor, aliás, também sentia a presença constante da sua mãe naquela casa. Era um fardo de que se queria livrar e de que queria livrar o seu pai. As memórias devem ser o nosso refúgio do passado e não aquilo que nos persegue e impede de viver o presente.
- Se for bom não regressarei mais, se for mau cá me terás novamente... - disse António em jeito de despedida.
- Se não voltares, irei eu procurar por ti! O que para ti é bom para mim também será certamente! - respondeu Manuel tentando aliviar o tom pesado a conversa.
Abraçaram-se então num gesto que selou aquela grande amizade para sempre. António soube então que, onde quer que acabasse, iria voltar a encontrar Manuel pois as grandes amizades estão destinadas a serem vividas a dois.