E
agora que morreste. Partiste para onde sei que te encontras e que eu não posso
ver. E agora que morreste. Quem será o meu amigo, quem me guiará? E agora que
morreste. Separa-se a alma e o corpo, fica a memória e a saudade. Enquanto eu
viver, viverás tu também através de mim. O meu corpo será o teu e a minha
palavra a tua. Servir-te-ei como sempre te servi e tudo farei para que o teu
espectro nunca abandone este mundo dos vivos. Para onde eu for, tu
seguir-me-ás. No que eu fizer, tu ajudar-me-ás. Partes deste mundo das
sensações e das experiências para encontrares o teu lugar num sítio melhor. És
as árvores que crescem, as folhas que caem, o vento que sopra e as crianças que
nascem. És a erva que brota e a nascente que jorra. Partiste meu pai. Partiste
mas eu sei que nunca me abandonaste, que continuas aqui, ao meu lado, a velar
por mim, pela nossa família e por toda a humanidade que prossegue no seu caminho. Juntaste-te ao conselho dos sábios que tudo vê e governa, juntaste-te à energia
que anima toda a Terra. Na minha memória fica o teu sorriso, a tua mão no meu
ombro. Enquanto disso eu me lembrar estarás aqui, nesta igreja, nesta aldeia,
neste mundo, comigo e com todos os que ajudaste e com eles privaste. Eras
único, como tu não houve ainda igual. Dotado de uma riqueza sem igual, no
espírito e na mente, na mão que o trabalho completava. A tristeza que sempre te
vi no olhar e a reserva que tinhas em florir para o mundo tinham as suas raízes
no momento da perda da mãe. Nunca a conheci mas sei, através de ti, que era uma
mulher fantástica. O teu amor por ela era algo que as meras palavras não podem
explicar. Sei que lhe deste grande parte de ti e que, quando ela partiu, não
conseguiste recuperar o que deveria encher esse vazio. Admiro-te tanto meu pai!
Quando a pressão atingiu o seu limite e quando a vontade de desistir conheceu o
seu apogeu, tu pegaste na trouxa e foste trabalhar, tal como fazias todos os outros
dias da tua vida. Estavas totalmente devastado, destruído por dentro, com a
alma dilacerada. Ainda assim, continuaste. Por mim… Nunca desististe, nunca me
deixaste. Nunca fui rico ou instruído mas não deixei de comer por um único dia
da minha vida. Se hoje aqui estou, casado com uma linda mulher e pai de quatro
magníficos filhos, devo-o a ti meu pai que, todos os dias, foste trabalhar para
ganhar o pão que nos alimentou, mesmo odiando a tua ocupação. Se o meu presente
é maravilhoso e o futuro risonho, devo-o a ti que tiveste a visão de me guiar
pelos caminhos sinuosos do mundo. E agora que morreste. Sabes que eu não estou
triste, foste tu quem me ensinou a ser assim. Foste tu quem me ensinou que a
morte precede a vida e que a memória precede a morte. Vou-me sempre lembrar de
ti, meu pai. Todas as noites, contarei aos meus filhos, aos teus netos, as
nossas aventuras e tudo aquilo que vimos e vivemos. Juro-te que lhes darei tudo
o que estiver ao meu alcance e que tudo farei para continuar a nossa maneira de
ser e viver, que tu começaste. Eu não te posso ver, meu pai, mas sei que estás
aqui, e além, e acolá. Já não és mais o homem que me ensinava os mistérios da
vida, que me contava os segredos sobre as estrelas, que me ajeitava na sela do
cavalo e que me orientava nos meus deveres. Mas eu também já não sou mais esse
petiz que te olhava embevecido quando falavas à luz da fogueira. Agora chegou a
minha vez de ser o homem, tomei o teu lugar, e tu juntaste-te aos nossos
antepassados para juntos formarem a energia que permite o mundo funcionar. Não
é fácil ocupar a teu lugar. Preencher o vazio que criaste torna-se ainda mais
complicado quando a tua família, os teus netos, os teus vizinhos correm a pedir
conselho e sabedoria. Eu próprio careço de guia por vezes, não estou em posição
de comandar, de ser o chefe de família que tu eras, de ser o Homem que tu
outrora foste. A vida pai, a vida é como um rio. Foste tu próprio quem mo
disse. A história da vida, de uma vida, não é singular. Bem sei que a sua
complexidade, tal como o seu valor, advêm dos inúmeros episódios que constroem
o seu corpo principal. E nós bem que tivemos os nossos momentos… A vida serve
para viver, senão não pode sequer ser chamada de tal, e nós vivemos bem a
nossa! Hoje não haverá choro e a tristeza não terá lugar. O sino soou onze
vezes, tantas vezes quantas as estrelas que irei baptizar em tua honra. Hoje
celebra-se, não a tua morte mas sim a tua vida. Celebramos quem foste e o que
fizeste enquanto por cá andavas. E agora que morreste, toda a aldeia veio ao
teu funeral. Todos os que conhecias e cumprimentavas, todos os que se riam e te
saudavam. Mas não são apenas esses que enchem esta igreja. Dezenas de outros
vieram também. Outros de outros lugares que não conhecemos, pessoas de que
nunca sequer ouvimos falar. Mas todos vieram hoje a este lugar. Todos largaram
os seus afazeres e percorreram longos caminhos para aqui estar. Hoje, agora.
Todos vieram para te ver e por ti rezar. Talvez tenham algum recado para te
dar, alguma palavra que não foi dita, algum momento que não foi vivido e vieram
aqui, agora, para fechar esse círculo. Sim pai, agora que morreste.