segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hoje vi o povo

Uma coisa que escrevi no dia da Manifestação do Ensino Superior 22/11/2012

Hoje vi o povo. Centenas de estudantes que saíram à rua em defesa dos seus direitos, em defesa de um ideal em que acreditam. Vi pessoas como eu que interromperam o seu quotidiano e foram para a rua gritar. Vi rostos desolados, olhares sem esperança. O povo já não ri, o povo já não sonha. Sim, hoje eu vi o povo. Essa entidade da qual todos falam mas que poucos compreendem. Hoje não vi pessoas isoladas, personalidade sozinhas. Vi centenas de estudantes, pessoas, cidadãos, em sintonia perfeita que caminhavam lado a lado. Isso é o povo. Não sou eu nem és tu, somos todos nós, juntos. Uma massa que grita, um conjunto que marcha. 

Não desprezem o povo, não o ignorem. O povo não existe! É uma ideia, um ideal.  Uma categoria uma agregação, pessoas de diferentes realidades. O povo só se forma quando pessoas se juntam, quando há união. O povo só se forma quando o ego desaparece, quando a individualidade se junta ao colectivo. É uma causa comum, um conjunto de indivíduos. Hoje vi esse conjunto. Um ideal que se materializou. Todos quantos ali se reuniram, todos quantos ali gritaram, todos quanto ali expressaram o seu descontentamento formaram esse conjunto, criaram esse conceito. 


Hoje vi o povo. Éramos muitos. Eu também lá estava, fiz parte dele. Ajudei criá-lo e, no fim, deixei-o morrer. Quando a última voz parou, quando o último grito soou, quando o último espírito serenou, o povo morreu. Mas há-de voltar a nascer, há-de-se erguer de novo. Ele virá quando dele precisarmos, quando se sentir a sua falta. Ele há-de vir das brumas, numa manhã de nevoeiro. Aí não seremos centenas de estudantes, seremos milhares de pessoas, milhares de cidadãos. Todos juntos faremos o povo mais forte que nunca e então lutaremos! A injustiça deste mundo, o mal deste país, tudo ruirá. A praia jaz debaixo do chão que calcetámos, debaixo do cimento das nossas estradas. Iremos procurá-la, todos juntos! Uns irão cantar, outros tocar, uns irão escrever e outros ler, uns irão gerir e outros construir, mas todos iremos governar, guiar o destino e decidir a fortuna

Todos somos diferentes mas todos somos iguais. Há opções e talentos que nos separam mas uma condição que nos une. Chegará o tempo em que daremos as mãos e aceitaremos esta condição. Chegará o tempo em nos veremos como irmãos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Um passo no passado, um avanço no futuro

Hoje dei um importante avanço na minha demanda, na busca do meu ser. Olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Vi a minha imagem como nenhum espelho alguma vez me mostrou, defini-me como nenhum comentário e opinião alguma vez definiu. Não vi um corpo, com músculos e expressões. Vi uma ideia, um abstracto. Reconheci-me ali. Um constante de mudança e permanência, um conjunto de ideias e pensamentos, um corpo e uma ideologia, sensações e emoções que a linguagem não pode reproduzir. Desviei o olhar. Não suportava mais. Arranjei um assunto qualquer para conversar. 

O meu pensamento divagava sobre o sucedido. Terá ela visto o que vi? Será que a imagem reflectida nos olhos dela lhe chegou até ao cérebro  Será aquilo que ela pensa de mim? Acho que nunca saberei. Não lhe consegui perguntar e agora é tarde demais. Muito tempo já passou e a imagem, se de facto era real, decerto já foi contaminada. 

Eu, como todos os meu semelhantes, não sou uno e indivisível. Não tenho uma identidade única fixa. Não tenho uma história linear. Eu defino-me na minha multiplicidade. Naquilo em que acredito e nas contradições que isso acarreta. Não sou as discussões que venço mas os argumentos que saem frustrados na tentativa de expressar um pensamento. Sou contraditório e as contradições definem-me na minha plenitude. Como pode um espelho reflectir tudo isso? Como pode um juízo identificar tudo quanto sou? Como pode uma opinião apresentar-me por completo?

Eu sou o que digo e o que não digo. Sou o que faço e o que fica por fazer. Sou o que penso e o que transmito. Uma ideia que fica por expressar e outra que grito na rua. Não me digam que me conhecem. Não me digam que previam o que iria fazer. Não me digam que sabem quando da sabedoria todos estamos privados. Não tenho paciência para hipocrisia nem falsos filósofos  Nem aquela que me viu, me viu realmente. Viu-me a alma, a essência, mas logo esqueceu, logo poluiu a sabedoria. Olhou mas não viu, espreitou mas não apreciou. Quando olhou de novo já não viu o mesmo. 

Parece que o universo em seu redor se transformou profundamente nos instantes entre olhares. Parece um cubo de Rubik. As faces do cubo alteram-se entre si mas, no fundo, nunca deixamos de estar perante essa forma. Faces da realidade que nós não víamos assumem a sua posição à mercê do espectro visível e, a mesma forma, assume novas realidades tangíveis. Como uma obra de arte, sempre igual a si própria mas sempre diferente a cada apreciação. Vemos sempre faces diferentes da realidade de uma forma que nunca muda. É um defeito humano, olhar e não ver. É uma qualidade humana, re-inventar a realidade sem nela sequer tocar. É tudo uma perspectiva, uma ideia. E garanto-vos que a ideia é a coisa mais forte que existe neste mundo. Uma coisa sim, não palpável nem visível mas com uma coisidade própria. Podem-nos tirar tudo, até a esperança, mas uma ideia persiste na mente e tem a capacidade de se reproduzir e de crescer a uma velocidade ainda pouco compreendida pela inteligência das pessoas. Hoje, olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Recordei uma personalidade, uma essência. Características que criei e que transporto comigo todos os dias do quotidiano. Hoje, recordei o que fui, recordei o que sou, recordei o que serei, num futuro que não conheço. Hoje, recordei o futuro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para recordar o futuro

Por vezes desejamos esquecer. Esquecer um passado que não nos foi favorável ou que não decorreu segundo o nosso critério. Tarde compreendemos que tal não é possível. Podemos recalcar as memórias desafortunadas e aprisioná-las no canto mais remoto da nossa mente. Podemos até disciplinar o nosso espírito para viver o quotidiano sem que a memória indesejada aflore à superfície mas, quando as nuvens encobrirem o sol asfixiando a beleza dos seus raios dourados e quando a euforia do verão for substituída pela melancolia do outono, então essas memórias indesejadas voltarão para nos assombrar com mais força do que nunca. Os sentimentos e sensações de cuja memória queremos apagar, sempre voltam à ordem do pensamento quando deixamos de controlar o que nos envolve e uma coisa é garantida, não estaremos no controlo total do nosso ser para sempre. Haverá um acontecimento inesperado, um estado de espírito com que não contávamos, uma perturbação no meio que nos rodeia. Aí, os sentimentos recalcados e as memórias indesejadas que estão bem enterradas lá no fundo do pensamento irão voltar à ordem das ideias e assaltarão violentamente o quotidiano. Uma idiotice se a minha opinião for permitida. Uma ideia de quem não pensa, um vazio. Pensar assim é um luxo a que não me posso dar. Será que há quem acredite que o um desaparece quando vem o dois? É do domínio geral que o dois surge da adição ao um, que o precedeu. Não seremos também nós dessa maneira? Ser é existir que, por sua vez, implica viver. Uma soma de experiências, sensações, emoções, ideias e tantas outras coisas que se precedem numa lógica aditiva. Nada substitui nem é substituído  Tudo quanto faço, penso e sinto será a vivência que me compõe e nada será apagado da minha identidade. A pessoa é formada em profundidade e não no mero momento temporal. É por isso que, geralmente, se atribui uma determinada idade à chamada maturidade. Reconhece-se que o ser humano precisa de acumular uma série de experiências, vivências e normas para formar o seu carácter. Ainda me falam em mudar? Uma comédia, um gracejo! Ainda gostava eu de ver esse momento tão excepcionalmente marcante capaz de apagar uma vida de ideias e pensamentos. Tal coisa não existe. Claro que todos mudamos, o progresso é a ordem natural da vida. Mas não me falem em mudar o carácter do homem através de uma experiência ou momento pois tal é mera ficção. A mudança existe e é inerente ao homem mas ela é feita num processo e em moldes definidos pelo carácter anterior da pessoa. O passado não desaparece quando passamos ao presente ou consideramos o futuro. O passado, as memórias, estará sempre lá e é bom que aprendamos a conviver com ele. Aproveitar o que fomos e quanto fizemos para melhor formar o somos hoje e seremos amanhã. 
Eu não penso em esquecer. Não posso esquecer. É algo que me ficou proibido pelo medo que tenho de perder a memória e não me lembrar de tudo quanto fiz e aprendi. É o meu maior medo! Uma vida construída no presente para um amanhã melhor e ele poderá não vir. Apenas um vazio. Uma falha na memória que nos oculta tudo quanto fizemos. Oculta-nos quem somos. Como posso eu querer esquecer? Como pode alguém querer esquecer? Se esquecemos há uma parte de nós que morre. Um espaço de tempo que é apagado e desaparece do continuo da vida. Ficamos com um carácter retalhado, com falhas. Um processo que deveria ser contínuo e cumulativo. Se agora desejar esquecer, chegará o tempo em que quererei lembrar. Aí, não haver forma de recuperar esses pequenos momentos, parte de quem eu sou. 
O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro. Só assim conseguirei não me perder. Quando esquecer, poderei ler para lembrar. Obviamente que não me interessa todo o momento do quotidiano. Interessa-me mais o conjunto que a soma das partes. Interessa-me a essência que surgiu do dois e não da mera adição dos dois uns. 
Quem sou eu? Uma projecção de quem fui? O resultado majorado de todos os pequenos momentos do passado. Não sei quem sou. Sei que não sou quem dizem eu ser, nem tão pouco aquela imagem que me aparece no espelho. Eu não sou nada disso, sou mais. Como podem os outros saber quem eu sou se nem eu próprio sei? Como pode o espelho mostrar-me quem eu sou se não me reconheço nele? Vivo constantemente nesta busca. A mim não me interessa riqueza ou glória, apenas saber quem sou, o que faço aqui. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Requiem


E agora que morreste. Partiste para onde sei que te encontras e que eu não posso ver. E agora que morreste. Quem será o meu amigo, quem me guiará? E agora que morreste. Separa-se a alma e o corpo, fica a memória e a saudade. Enquanto eu viver, viverás tu também através de mim. O meu corpo será o teu e a minha palavra a tua. Servir-te-ei como sempre te servi e tudo farei para que o teu espectro nunca abandone este mundo dos vivos. Para onde eu for, tu seguir-me-ás. No que eu fizer, tu ajudar-me-ás. Partes deste mundo das sensações e das experiências para encontrares o teu lugar num sítio melhor. És as árvores que crescem, as folhas que caem, o vento que sopra e as crianças que nascem. És a erva que brota e a nascente que jorra. Partiste meu pai. Partiste mas eu sei que nunca me abandonaste, que continuas aqui, ao meu lado, a velar por mim, pela nossa família e por toda a humanidade que prossegue no seu caminho. Juntaste-te ao conselho dos sábios que tudo vê e governa, juntaste-te à energia que anima toda a Terra. Na minha memória fica o teu sorriso, a tua mão no meu ombro. Enquanto disso eu me lembrar estarás aqui, nesta igreja, nesta aldeia, neste mundo, comigo e com todos os que ajudaste e com eles privaste. Eras único, como tu não houve ainda igual. Dotado de uma riqueza sem igual, no espírito e na mente, na mão que o trabalho completava. A tristeza que sempre te vi no olhar e a reserva que tinhas em florir para o mundo tinham as suas raízes no momento da perda da mãe. Nunca a conheci mas sei, através de ti, que era uma mulher fantástica. O teu amor por ela era algo que as meras palavras não podem explicar. Sei que lhe deste grande parte de ti e que, quando ela partiu, não conseguiste recuperar o que deveria encher esse vazio. Admiro-te tanto meu pai! Quando a pressão atingiu o seu limite e quando a vontade de desistir conheceu o seu apogeu, tu pegaste na trouxa e foste trabalhar, tal como fazias todos os outros dias da tua vida. Estavas totalmente devastado, destruído por dentro, com a alma dilacerada. Ainda assim, continuaste. Por mim… Nunca desististe, nunca me deixaste. Nunca fui rico ou instruído mas não deixei de comer por um único dia da minha vida. Se hoje aqui estou, casado com uma linda mulher e pai de quatro magníficos filhos, devo-o a ti meu pai que, todos os dias, foste trabalhar para ganhar o pão que nos alimentou, mesmo odiando a tua ocupação. Se o meu presente é maravilhoso e o futuro risonho, devo-o a ti que tiveste a visão de me guiar pelos caminhos sinuosos do mundo. E agora que morreste. Sabes que eu não estou triste, foste tu quem me ensinou a ser assim. Foste tu quem me ensinou que a morte precede a vida e que a memória precede a morte. Vou-me sempre lembrar de ti, meu pai. Todas as noites, contarei aos meus filhos, aos teus netos, as nossas aventuras e tudo aquilo que vimos e vivemos. Juro-te que lhes darei tudo o que estiver ao meu alcance e que tudo farei para continuar a nossa maneira de ser e viver, que tu começaste. Eu não te posso ver, meu pai, mas sei que estás aqui, e além, e acolá. Já não és mais o homem que me ensinava os mistérios da vida, que me contava os segredos sobre as estrelas, que me ajeitava na sela do cavalo e que me orientava nos meus deveres. Mas eu também já não sou mais esse petiz que te olhava embevecido quando falavas à luz da fogueira. Agora chegou a minha vez de ser o homem, tomei o teu lugar, e tu juntaste-te aos nossos antepassados para juntos formarem a energia que permite o mundo funcionar. Não é fácil ocupar a teu lugar. Preencher o vazio que criaste torna-se ainda mais complicado quando a tua família, os teus netos, os teus vizinhos correm a pedir conselho e sabedoria. Eu próprio careço de guia por vezes, não estou em posição de comandar, de ser o chefe de família que tu eras, de ser o Homem que tu outrora foste. A vida pai, a vida é como um rio. Foste tu próprio quem mo disse. A história da vida, de uma vida, não é singular. Bem sei que a sua complexidade, tal como o seu valor, advêm dos inúmeros episódios que constroem o seu corpo principal. E nós bem que tivemos os nossos momentos… A vida serve para viver, senão não pode sequer ser chamada de tal, e nós vivemos bem a nossa! Hoje não haverá choro e a tristeza não terá lugar. O sino soou onze vezes, tantas vezes quantas as estrelas que irei baptizar em tua honra. Hoje celebra-se, não a tua morte mas sim a tua vida. Celebramos quem foste e o que fizeste enquanto por cá andavas. E agora que morreste, toda a aldeia veio ao teu funeral. Todos os que conhecias e cumprimentavas, todos os que se riam e te saudavam. Mas não são apenas esses que enchem esta igreja. Dezenas de outros vieram também. Outros de outros lugares que não conhecemos, pessoas de que nunca sequer ouvimos falar. Mas todos vieram hoje a este lugar. Todos largaram os seus afazeres e percorreram longos caminhos para aqui estar. Hoje, agora. Todos vieram para te ver e por ti rezar. Talvez tenham algum recado para te dar, alguma palavra que não foi dita, algum momento que não foi vivido e vieram aqui, agora, para fechar esse círculo. Sim pai, agora que morreste.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 2ª parte

...continuação














O teu pensamento está longe, no estrangeiro diria eu. Um amor prometido, um amor perdido. Promessas que se fazem e laços que se partem. Ai de mim! Um intruso na própria história que estou a criar... À nossa volta as pessoas tagarelam sem parar, a música toca para as conversas esgotadas, os empregados trabalham numa azáfama esgotante e a nossa amiga fala para uma audiência vazia. É tudo uma distracção. O mundo a acontecer à minha volta e eu parado no tempo, incólume ao que se passa. É uma janela de tempo que me passa ao lado e por onde nunca eu irei espreitar. Só consigo fitar-te e tentar perceber o que te torna tão irresistível. Parecer caída num autismo extremo que virou a tua atenção para dentro de ti. Mais ou menos o posto do que se passa comigo. Eu sinto-me completamente esmagado pela imagem de ti que se constrói dentro da minha cabeça, pelo que começo a sentir por ti. Uma sombra do futuro que se começa a formar ainda hoje. Tu não compreendes nada do que está a acontecer. Tentas curar a mágoa de um infortúnio amoroso, acabando por fechar os olhos para o que gira em teu redor. Tentas perceber o fim de um laço, de uma relação. A sentença foi ditada na noite anterior, quando discutiram ao telefone mas a inevitabilidade já tinha sido criada anteriormente. Tentas perceber quando a chama começou a esmorecer mas não compreendes. A cegueira que tens é mero reflexo daquela que costumavas ter. Ainda há pouco, quando estava no conforto do meu automóvel, não sentia nada disto. A minha atenção estava centrada na condução e o meu sub-consciente cantava alegremente as canções da rádio. Agora observo-te e experimento um estado de espírito totalmente oposto. Quando vinhas no banco de trás do meu carro não tinhas essa mágoa no olhar. Vi-te dezenas de vezes através do retrovisor. Falavas e cantavas, esboçavas até um pequeno sorriso. Parece um mundo diferente não é? Parece que estamos numa realidade paralela, diferente... Que fazes tu com esse pedaço de papel branco? Todas essas dobras e recortes... Estás consciente do que fazes ou as tuas mãos trabalham a um mote diferente do teu pensamento? Penso que ainda continuas absorvida nas tuas ideias, encantada, e isso que agora fazes não é racional. Quatro pernas, uma cabeça, duas orelhas e uma cauda... Acabas de recortar um pequeno cão branco de uma folha informa. A tua tristeza fez-te criar um "amigo". Tinhas que o inventar? Sempre me esforcei ao máximo para ser esse amigo que o teu sub-consciente projectou nesse cão branco de papel. Nunca quiseste saber... Sempre fiz tudo quanto estava ao meu alcance para agradar, ajudar. Sempre te de dei muito mais do que aquilo que pedias e precisavas. E tu? Recortas um refúgio de uma folha branca... Que tristeza eu sinto! Desejo sair desta mesa e abrigar-me no carro. Ao menos lá não sinto frio... Mas tu não me permites a saída. Já mencionei que te olhei durante todo este tempo? Não me importa que não retribuas o olhar, o pensamento, o sentimento... Quando nos formos embora vou pegar nesse teu cão branco de papel que certamente vais deixar para trás e vou guardá-lo. É como se me fosse permitido ficar com um pedaço teu e depositar nesse totem aquilo que a ti me liga. Só tu importas. O resto, o resto é distracção.

FIM

domingo, 11 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 1ª parte

Sobre a mesa, um café. Logo outro se apressa a juntar-se-lhe seguido de outro. Três. Tantos cafés como pessoas e, porém, apenas dois cigarros se acendem. Entre os bafos prazenteiros e o expelir do fumo que viaja desde as entranhas dos pulmões, passa pelos lindo lábios vermelhos e se desvanece no ar criando uma pequena nuvem desfocada que, decerto, manchará o odor das minhas roupas noto que a lua está cheia e o tempo frio. Quando conduzia, ainda há pouco, não poderia adivinhar que a noite estava assim tão fria. O conforto que o habitáculo do meu automóvel me proporciona é deveras ilusório e escasso. Ainda há pouco estava relaxado no estofo macio do assento e ouvia, calmamente, a música que seleccionara sem sentir qualquer réstia do tempo húmido e frio que, descobri estar no exterior. Agora estou sentado a uma mesa numa cadeira rija e desconfortável, com os ossos enregelados e abafado pelo fumo dos cigarros. Que situação desagradável! As roupas que trago vestidas não se adequam ao frio húmido do tempo e refugio-me no café a escaldar para me aquecer. Aquece o corpo e a alma, tudo naquela pequena chávena. Quanto mais pequena melhor, a minha bica. São assim os melhores prazeres! A lua está cheia e os cafés são três mas os meus olhos, quando por ti passam, demoram-se a tentar perscrutar a tua mente. Os teus longos cabelos negros misturam-se com o negro dos teus olhos e nem a escuridão da noite me impede de ver o que eles transmitem. Olhas para a lua e eu vejo-a reflectida em ti. Está cheia e brilhante, assim como a tua mente que divaga ao abrigo das esperanças incompreendidas. Um último trago esvazia a minha chávena e, com aquela última porção de café, vai-se todo o prazer em estar ali, sentado àquela mesa. A tua mente parece perturbada e isso reflecte-se nos teus olhos. Segundo dizem, os olhos são o espelho da alma. Uma grande verdade que encerra a expressão e um engano que provoca a palavra. O que é a alma senão a nossa mente? Ou melhor, o que é a alma senão os sentimentos, as emoções, a cultura e as ideias? E onde está tudo isso? Pessoalmente nunca as vi e duvido que alguém já tenha completado esse feito mas acredito que estão na mente. Onde mais poderiam estar? Hoje os teus olhos espelham tudo o que se passa dentro de ti: a confusão, as dúvidas e o ressentimento. No entanto, toda a perturbação que eles contam é ocultada pela tua aura de beleza. É como se a tua pele, sempre morena, irradia-se um brilho ofuscante que realça a tua beleza e esconde a tua dor humana. E os teus lábios, desenhados no rosto com um traço seguro e bem dominado, escondem as cruas palavras que proferes tornando-as numa música que se esforça por encontrar os meus ouvidos. Os cigarros acabam finalmente. No maço, mais que meia dúzia. Uma tortura! Tudo em meu redor me perturba, o frio, o fumo, o prazer do café que acabou... Olhar para ti é o pior! Ver-te aí, tão perto e tão distante. Pergunto-me que assunto te levará o pensamento para tão longe. Na verdade sei-o mas prefiro fingir a ignorância. A verdade dói! Não tem dó nem piedade. Parece que alguém a concebeu para ser assim, dolorosa...

Continua...

sábado, 10 de novembro de 2012

Esclarecimento sobre "Crónica de um amor burguês"


Quero começar a minha resposta à Carla com um agradecimento pelo comentário tão extenso e tão bem escrito que publicou aqui no blogue. Para mim é muito comovente ver que as minhas mensagens estão a chegar a algum lado, ao outro lado. Ver que os textos que escrevo não estão a morrer no arquivo virtual destas páginas imaginadas e que estão realmente a chegar a pessoas que os lêem e se interessam por eles ao ponto de comentar as ideias que deixo por lá. Quero mais uma vez frisar que são todos muito bem-vindos a comentar o blogue seja com ideias pessoais, sugestões, textos próprios ou apontamentos aos meus. Farei o meu melhor para responder a todos eles.

Antes de chegar ao comentário que a Carla fez no texto "Crónica de um amor burguês - 2ª parte", apraz-me salientar que apesar do meu estilo de escrita me levar, frequentemente, a escrever na primeira pessoa, tal não significa que as experiências ou as ideias presentes no texto sejam minhas e que as tenha vivido na primeira pessoa. A escrita na primeira pessoa é uma opção literária consciente que eu adopto para dar aos meus textos um lado mais humano, algo que os aproxime mais dos leitores. Obviamente que os meus textos não se desligam de mim, afinal sou eu quem os escreveu e eles partiram directamente das minhas ideias e visões sobre os assuntos, mas a escrita na primeira pessoa é utilizada para humanizar os sentimentos e sensações e não para relatar eventos específicos que se tenham passado comigo.

Falando agora, mais especificamente, sobre o texto "Crónica de um amor burguês" quero dizer que ele não reflecte a minha posição sobre o amor. Trata-se de uma crítica ao modo como a sociedade moderna tem tratado o assunto sem, porém, efectuar nenhum juízo de valor. Acima de tudo, pretendia demonstrar que a sociedade moderna tem abordado o amor, tanto como os outros sentimentos, segundo uma perspectiva que se coaduna quase na perfeição com o modo de organização social, ou seja, que uma sociedade de valores orientados para a competição, o lucro e a maximização tem abordado os vários sentimentos numa lógica de acumulação de bem-estar pessoal através da materialização especializada das manifestações públicas. Com isto quero chamar a atenção para o fenómeno de industrialização dos sentimentos que está a monopolizar o campo das manifestações e demonstrações sentimentais. Coisas como a simbolização de datas ou produtos específicos em torno de sentimentos: o dia dos namorados, o dia da mãe, o dia de todos os santos, etc. Os exemplos são infindáveis. Mais uma vez quero chamar a atenção para a ausência de juízos de valor neste meu argumento. Isto não é bom nem mau, é um facto. Como tal, temos de o compreender a aprender a lidar com ele. O facto de existir o dia de todos os santos em que está institucionalizada a ida ao cemitério para visitar os defuntos não deve inibir que o culto e homenagem aos antepassados se faça apenas nesse dia. O meu argumento surge neste sentido para compreender estas dinâmicas. O assunto é muito interessante e seria objecto para muitas e muitas páginas de reflexão pois este facto social incorpora toda uma dinâmica própria e manifesta-se sob dezenas, centenas ou até milhares de formas, formas sobre as quais eu ainda nem reflecti. É por isso que me quero focar no amor, para ir de encontro ao meu texto que originou este esclarecimento. A minha perspectiva pessoal sobre o amor e os sentimentos está contida de forma muito fidedigna no meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", cujo excerto tive oportunidade de colocar aqui no blogue. Uma forma de abordar o amor que vá muito mais ao centro da questão e que não se fique pela superficialidade retratada na "Crónica de um amor burguês". Penso que o amor não pode ser burguês, ou seja, não se pode refugiar nas manifestações materiais a que nos habituámos a identificar como formas de de demonstrar que gostamos de alguém. Claro que o meu argumento não é radical, ou seja, acho que é muito importante que nos dediquemos a escrever cartas com tinta permanente ou decorar o local de um encontro com pétalas e velas desde que isso não seja o nosso objectivo último. Tudo isso que foi descrito na "Crónica de um amor burguês" deve ser uma forma de agradar à outra pessoa para a mimar e tratar bem desde que não seja encarado como a totalidade do sentimento. O amor é algo profundo do ser humano e a sua análise deve ser feita através de uma introspecção que mergulhe no carácter e na essência da pessoa, ultrapassando a efemeridade do presente ou da perfeição da tinta. A parte não pode ser tomada pelo todo porque o amor é tão mais profundo quantas camadas conseguir penetrar e quanto menos visível se conseguir tornar para a efémera visão humana.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segunda Parte - Composição I


A esta altura, na sequência do texto que publiquei "Crónica de um amor burguês", faz todo o sentido clarificar a minha posição e ideias sobre o amor. Para tal, deixo aqui um excerto da Composição I que é parte integrante do meu primeiro livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", podendo ser encontrado na Segunda Parte do livro. Escolhi este excerto pois acredito que ele dá uma ideia muito mais clara sobre a minha forma de ver o amor em detrimento da "Crónica de um amor burguês", escrita em tom de crítica ao modo como a sociedade moderna encara este tema.

Q



uando sinto a chuva a acariciar-me o rosto, são as tuas lágrimas que caem sobre mim como agulhas incandescentes e se entranham na minha alma. Quando sinto o sol beijar-me a pele, é a ira que transparece nos teus olhos e me leva numa viagem até às profundezas de tudo e me queima como uma labareda infinita. Quando sinto o vento passar por mim, é a tua raiva e a fúria que faz levitar tudo à nossa volta e que me trespassa o coração, tal lança afiada e pontiaguda que é. Quando sinto a areia seca que me escapa por entre os dedos, é a tua tristeza e desilusão que me causa uma dor aguda e me faz também querer desintegrar-me e desaparecer. Sentir que te faço sofrer, causa-me vergonha e desorienta o meu humilde ser. Abala toda a minha consciência e os meus sentimentos pois a minha razão de ser é a tua felicidade. Oh! Só Deus sabe como eu nasci para isto… Eu nasci para te encontrar e para te fazer feliz. E seremos então a união perfeita de dois seres humanos. A união mais perfeita que pode existir. Oriento toda a minha acção para este supremo objectivo. Quando não o consigo, os quatro elementos libertam as suas amarras que acorrentam o meu espírito e o deixam eternamente na masmorra do esquecimento. Mas eis que surge a sombra no fundo da caverna. És tu que te levantas atrás de mim e fazes deslizar suavemente pelo vazio a espada dourada de dois gumes. Não importa onde me agarre, hei-de sempre ferir a minha pele sensível. Por mais robusto que me torne, nunca poderei estar preparado para o que de ti surge. Pego na mesma. Não havia de ser por isso que recusaria algo teu. É então que olho para trás. Aceito a mão que me estendes e ergo-me nas minhas sólidas pernas. Saímos juntos para o desconhecido. São pétalas de moribunda rosa que nos cercam e caem sobre os flancos! Estendo o braço sobre os teus ombros. No escuro da sala, nem reparas nos arpões que voam de nenhures com destino a ti mesma. O meu braço que te cerca, protege-te de toda a dor e recebe com agrado as furiosas ferroadas de tão pontiaguda arma. Não importa! Estás a salvo… Olhas os meus olhos. O preto funde-se com o castanho, o castanho funde-se com o verde, o verde funde-se com o branco que o circunda. No fim, resulta tudo num vermelho intenso que sai dos enormes buracos onde o metal da seta se funde com a carne do meu braço. A perfeição do momento resulta do brilho intenso que nasce dos teus olhos. Dois poços da juventude, dos quais anseio por beber… Maravilhados, os meus feios olhos esquecem a dor profunda e gritante e partilham da amorosa genuinidade que dos teus análogos jorra. Perfeição! Os quatro elementos estão em harmonia… Das labaredas infernais domestica-se o fogo que me é oferecido por ti, oh Deusa Suprema! É o amor e a paixão que me deste um dia a conhecer. Incendeias a minha alma sempre que te aproximas e, quando me tocas, todo eu broto numa tocha imensa que arde sem se ver. E então os teus lábios tocam os meus num beijo profundo e eterno. A tua saliva semeia em mim uma frescura incontrolável. É fonte que corre sem cessar e rega tudo à sua volta, fazendo florir perfeitos frutos do amor. Depois sussurras-me ao ouvido palavras eternas de carinho. A brisa que traz tão doces palavras depressa se apressa e corre… Corre não, voa… Voa por mim fora e todo o mundo e todos os mundos ouvem as juras eternas de amor. Testemunhas serão! Testemunhas de tão sincera paixão, proferida pessoalmente pela Deusa das deusas. Na terra ficará para sempre marcada a pegada vermelha do amor incondicional. Para que todos possam ter conhecimento e seguir esse modelo. Porque só uma vida sofrida no seio do amor, é de facto uma vida e fica para sempre marcada no manto de estrelas que cobre a terra. A perfeição existe! Está na carícia que o simples mortal faz à Deusa para esta cair num sono tranquilo e descansado. Um só beijo desta magnífica entidade e atingirei a plenitude… 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 10ª parte

Junto ao enorme portão da residência mais rica da aldeia figurava um pequeno sino suspenso. António tocou-o energicamente na esperança que alguém os viesse receber. Naquele dia, o silêncio e a quietude foram os porteiros daquela casa.
- Os Senhores não estão! - disse uma voz vinda de trás. - Saíram quero eu dizer...
António assustou-se com a voz inesperada. Virou-se para trás procurando de onde vinha. Um homem de idade já avançada, apoiado num cajado que, pela aparência imperfeita, fora feito pelo próprio de um tronco de uma árvore olhava-os com uma certa desconfiança.
- Os Senhores não estão. - repetiu ele. - Desejam alguma coisa?
- Penso que o nosso assunto apenas pode ser tratado com os “Senhores”. - respondeu António com tom irónico – Queríamos uma casa sabe... Acabámos de chegar de uma longa viagem e viemos para ficar!
- Tanta determinação a um rapaz tão novo. Decerto trará novidades aqui à aldeia! Não costumamos ter por cá muita gente nova... Fazemos o seguinte, por hoje ficam em minha casa. Amanhã tratam do futuro!
- Agradeço-lhe imenso meu bom senhor, mas não me parece certo dar-lhe todo esse trabalho e, para além disso, para quê adiar o inevitável? - respondeu amavelmente o pai de António. - Hoje ou amanhã, o que é certo é que teremos de comprar uma casa para viver...
- Não seja parvo senhor! Tenho todo o gosto em recebê-lo em minha casa e a minha mulher ficará radiante por ver caras novas. Ela adora saber as novidades do que por aí se passa... Hoje os Senhores não estão. Foram numa caçada e só voltaram amanhã.
- Pai, está a escurecer... Talvez devêssemos acompanhar o senhor... - disse António baixinho a seu pai.
- Escute o seu filho, homem! É sensato o rapaz. Vê-se que sabe tomar decisões. Venham daí, a patroa já deve ter a ceia pronta. Não a queiram enfurecer, é um conselho que vos dou...
- Bem, se o dono não está, não vale a pena esperar aqui ao frio a noite toda. Se nos oferece a sua casa temos todo o gosto em por lá pernoitar.
António e o seu pai seguiram então o velho que os guiou para uma casa não muito longe dali.

domingo, 4 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 9ª parte

Este era antes um homem sonhador que lhe contava histórias fantásticas da sua vida de criança e que partilhava com ele, de forma doce e suave, as perspectivas que tinha para o desconhecido que estavam prestes a conquistar. Mal saberia que daí a alguns anos, seria a sua vez de contar aos seus filhos tudo o que viu nessa grande viagem entre o Ribatejo e a Carregueira. Todas as povoações, todos os prados e planícies, todas as pessoas que viu e conheceu ao longo do Tejo ficariam-lhe para sempre gravadas na memórias com traços de uma pintura romântica que nos aquece a alma e nos traz a saudade ao espírito.
Quando, em meados de Maio, pai e filho chegaram à Carregueira, António experimentou uma sensação para a qual nada nem ninguém o podiam ter preparado. Os sonhos que o pai lhe descrevia de como imaginava a futura localidade onde iriam morar eram entusiasmantes, mas aquilo... Ver com os seus próprios olhos a materialização de todas as suas expectativas fez António saltar de repente da parte de trás do cavalo e correr pelos caminhos da aldeia que albergava a sua nova casa. Tudo lhe parecia saído de um sonho, nada parecia real. Era bom de mais para ser verdade! Todas as casas estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra que continuava até perder de vista. Eram todas sensivelmente do mesmo tamanho e caiadas de branco contendo na parte de trás, uma porção pequena de terreno arável que, para os olhos embevecidos de António, deveriam ter pelo menos um ou dois hectares. A aldeia respirava de vida. De um lado e de outro, os homens cavavam, as mulheres lavavam e os petizes brincavam. Tudo parecia estar no seu lugar, conjugado harmoniosamente, no entanto, certas casas encontravam-se silenciosas. António dava especial atenção a essas pois sabia que, muito provavelmente, iria morar numa delas. Caminhava calmamente ao lado de seu pai, que ainda montava o cavalo, e dirijam-se para a casa mais alta e maior da povoação onde residiam os nobres proprietários. A vizinhança olhava-os cautelosamente sem porém nunca deixarem de fazer as suas tarefas. Não era comum avistar-se gente estranha por aqueles lados, mas também não se recebia por lá ninguém com maus modos. António e seu pai iriam comprovar isso na primeira pessoa.