terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A cultura por cá


"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."

Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro? 

Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente. 

Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.

Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao

Já não quero ser escritor!

Já não desejo ser escritor!
Esta ideia ocorreu-me depois de visionar o filme "Anna Karenina". Para ser mais preciso, trata-se de uma não-ideia e ocorreu-me ainda quando assistia ao dito filme, miserável, um embuste! Sou capaz de o rotular como o "pior filme que já vi", não por ser de facto de o pior, mas por ter sido o que causou mais decepção. Depois de ver este filme, já não desejo ser escritor. Enquanto assistia ao espectáculo, o único pensamento que me ocorria levava-me para junto do criador da história, fazia-me estar a seu lado perante tal atrocidade. Mesmo antes da indignação, um sentimento de pena arrebatou-me: pobre Tolstoi, deve estar às voltas na campa! É todo um trabalho destruído, todo um legado manchado. Uma vergonha, um ultraje! Deveria haver uma entidade responsável para proibir o nome do filme. Este deveria-se antes designar de "Visão do senhor Joe Wright e sua equipa acerca da obra Anna Karenina de Lev Tolstoi", ou então, "Mediocridade americana baseado no romance Anna Karenina de Lev Tolstoi". Pega-se num dos maiores clássicos da literatura realista e produz-se um filme com o mesmo nome de forma absurdamente subjectiva e parcial. Uma vergonha! Faz-se um filme baseado numa obra que dela apenas tira a história, o esqueleto da narrativa. Histórias há muitas e se calhar até melhores que aquela. A arte está na forma de a contar, de transmitir a mensagem. Se se quer brincar às mensagens subjectivas e às interpretações de realizadores então escolha-se outra história qualquer. Depois disto, não mais serei escritor! De que serve criar uma obra-prima se outros a destruirão? De que serve escrever a minha visão se outros virão que a deturpem por completo? De que serve escrevinhar uma mensagem se ela ficará esquecida quando se contar a história? Não quero pactuar com estes crimes à arte e à literatura! Talvez não deixarei de escrever, daí isto tudo ser uma não-ideia, mas certamente irei deixar no meu testamento que jamais se poderá cometer um perfeito homicídio contra qualquer das minhas obras. Talvez nunca chegue a ter obras que sejam boas para destruir... De qualquer modo, hoje estou de luto. Hoje sinto que a literatura ficou mais pobre, que a arte empobreceu. Que desperdicem a sétima arte em filmes de violência e histórias sem interesse, eu ainda posso tolerar. Um assalto desta natureza aos clássicos da literatura, é um escândalo! Não haverá limites para a mediocridade cinematográfica?

sábado, 8 de dezembro de 2012

Da distância e da ausência

A minha estreia absoluta em poesia tenta imaginar a resposta que a mulher do soldado do poema de Konstantin Simonov daria quando o seu marido chegasse a casa são e salvo após uma longa ausência. A distância é uma provação dolorosa e, de uma forma ou de outra, todos passamos por ela. Por vezes, ela pode destruir laços, terminar relações, causar incerteza... É sem dúvida a derradeira prova, um selector natural. O que à distância resiste, por nada mais será destruído. 


Esperei por ti, eu bem sei.
Da tua memória cuidei.
Esperei-te noite e dia,
escutei a tua voz em cada melodia.
Que saudades tinha eu de te tocar,
ver, ouvir e cheirar!
Esperei por ti todos os dias,
no fundo, sabia que ainda me querias.

Certo dia, as cartas cessaram
e os sinos não mais tocaram.
O Amanhã enegreceu e o Ontem definhou
mas, no meu coração, nada mudou.
Continuei-te a amar
mesmo quando o teu irmão deixou de brincar
e o teu cachorro parou de ladrar.

A altura chegou
em que o relógio parou,
em que cada hora, cada minuto,
impediram o meu luto.
Sabia que não tinhas sido vítima da morte
mas não te conhecia a sorte
e definhava lentamente,
nesta incerteza, nesta realidade indiferente.

Horas, dias, meses, anos,
tempo demais para ficar longe de quem gostamos.
O tempo passava e de ti não sabia nada,
se vivias ou jazias pela espada.
Mas eu esperei por ti,
abracei a saudade e contra a incerteza me revesti.
Aguardei a tua chegada,
à tua legítima morada.

Meu amor o que sofri...
Nesta incerteza, nesta dor que vivi.
A dor de te amar
e tu longe sem me beijar.
Quando eles beberam e rezaram,
a seu lado não me sentaram.
Permaneci sólida e levantada,
sabia que, algures, era por ti lembrada.
E certo dia tu chegaste,
pela porta, sozinho e cansado, entraste.
O meu mundo desabou: nem queria acreditar...
Meu amor, voltas-te para me amar!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Espera-me


Hoje trago-vos um poema de que gosto muito. Amanhã o inesperado.

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
Poema de Konstantin Simonov
Tradução de Hélio do Soveral

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Será que nos é permitido amar?


Será que nos é permitido amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo. As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas, porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita. Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura. Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter, não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias, lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a jogar?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Da ladra, dizem alguns...

É a feira das cinco. Da ladra, dizem alguns... Uma feira onde artigos roubados são trocados e vendidos a uma hora da manhã tão precoce que nem a autoridade está desperta para o que se lá passa. Dizem que é o covil dos ladrões de toda a Lisboa, o seu local de trabalho onde tudo se vende e tudo se compra sem que perguntas sejam feitas. Aconselham-me cautela com os pertences que comigo carrego e despertam-me para a provável origem ilícita daquilo que compro.

Eu não vejo isso. Percorro as ruas adjacentes ao grande panteão e vejo magia no ar. Vejo pessoas honestas vendendo o que têm e o que encontram como forma de subsistência ou rendimento extra. Vejo artigos que em lado algum me seria possível encontrar. Vejo mundos muito diferentes desta Lisboa incógnita que se cruzam e intersectam nesta feira anacrónica. Parece que aquele espaço não existe no mundo real. Num dia, enche-se de pessoas e mercadorias e, no outro, nada lá se passa. De cada lado da estrada são dezenas as pequenas bancas que tudo vendem. Pessoas que já ali comercializam as suas memórias desde que há memória e estreantes que ali vão pela primeira vez. Todos vendem o que já não querem, o que já não precisam. Artigos usados, coisas velhas. Bens que nunca poderia ver, tocar, sentir e comprar noutro lado.
Desde as cinco da madrugada que ali são estendidos os lençóis, despejadas as tralhas e esperados os visitantes. Ali não há pregões nem anúncios. Quem vende conhece os seus produtos e sabe que não precisa de os apresentar, eles falam por si próprios, têm uma história e uma vivência que, por vezes, antecede o próprio vendedor. Quem compra não precisa de convite, sabe ao que vai e sabe escutar os objectos que procura. É a feira das histórias onde apenas isso se vende. Não são produtos ou bens, são histórias. Histórias que se fazem ouvir ao caminhar por entre as bancas, histórias antigas que nos prendem a atenção e nos chamam para um olhar mais atento. Livros antigos de páginas amareladas, postais endereçados sem resposta, fotografias de desconhecidos perdidos no tempo… Memórias que já foram assimiladas por quem devia e que agora estão ali à disposição para alimentar a curiosidade e o sonho compradores interessados. São objectos que saltam de geração em geração cuja origem e propósito fica desconhecido levando-nos a imaginar toda a viagem. 

O ambiente é de magia e a nostalgia envolve-nos. Somos transportados do mundo físico a que estamos habituados para um espaço intermédio onde o tempo não passa e o sol não queima. O anonimato lisboeta morre e a solidão dos velhos desaparece. Ali fala-se, escuta-se e pergunta-se. A indiferença à história alheia dá lugar ao respeito pela memória que nunca vivemos.

Se alguma vez me perder procurem por mim lá. Conto lá estar, a vender as minhas velharias que em tempos foram novas, a vender as minhas memórias que em tempos foram realidades. Não me digam que é da ladra, pois ladrões há-os em todo o lado. Digam-me antes que é das cinco pois quem lá vai sabe que é a essa hora que se compram os melhores artigos. Digam-me antes que é das histórias pois quem lá vai sabe quantos mundos por lá andam, uns perdidos outros encontrados. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A ti, musa sem nome

Ontem vi-te. Passava na rua caminhando atarefado, como sempre faço depois do trabalho. Olhei o céu e as nuvens apressadas, olhei as árvores e as folhas que caíam. O meu olhar divagava em meu redor e puderam em ti repousar. Estavas à janela. O teu longo cabelo esvoaçava ao sabor do vento outonal. A tua pele, sempre morena, contrastava com a melancolia do ambiente que te envolvia. Parecia um retrato de onde tu destoavas. Sobressaías da pitoresca fotografia e o teu olhar atraía particular atenção. 

Ontem vi-te. Estavas triste, ou pelo menos o teu olhar assim dizia. Tentei compreender o que ele queria transmitir mas ele era vago e sem alegria. Olhei bem fundo e não gostei do que vi. Sofrimento, apenas sofrimento. Bebias um chocolate que fumegava de tão quente estar. Talvez tentasses aquecer a alma, reconfortar o espírito. 

Ontem vi-te mas tu não me viste a mim. O olhar estava vago e a mente noutro lugar. Parecias viajar a pensamentos inóspitos e divagar em sentimentos dolorosos. Eu observei-te durante algum tempo, vi a tua expressão. Compreendi que não estavas em casa, que não estavas à janela, e dei por mim a desejar que voltasses.

Tu não me viste mas eu vi-te a ti. Queria-te falar, afastar as saudades que já se vão alojando. Todos os dias o meu olhar varre a tua rua e coloca esperanças na tua janela. É instintivo  irracional. Acho que gostava de te ver mais vezes. A tua face bela, a tua expressão ímpar. Gostava de me perder em cada aspecto da tua personalidade, conhecer cada canto do teu ser. Gostava também de conhecer o teu corpo, sentir-te de manhã ao acordar. Tenho muita paixão para te dar, muito amor para te entregar. Queria conhecer-te ao pormenor, saber o que fazes e por que o fazes. Conhecer cada nuance do teu íntimo. Quero também saber como beijas e como amas, ver como te aconchegas e como adormeces. 

Espero que me vejas em breve. Espero ver-te em breve. Poderemos trocar umas impressões, partilhar esse teu chocolate. Se quiseres podes também vir comigo, tenho o carro já ali... Há tantos sítios que gostava de te mostrar, sítios lindos e belos. Vamos fugir desta cidade à qual pertence a nossa rotina. Vamos a sítios novos e exclusivos. Iremos juntos, tu e eu. Rumo a um conhecido que ainda não conhecemos juntos. Iremos e voltaremos de novo, sob as estrelas do céu de Outono. Ontem vi-te e voltarei a ver, se vieres comigo. Nunca mais te procurarei à janela, abrirei a porta e entrarei. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hoje vi o povo

Uma coisa que escrevi no dia da Manifestação do Ensino Superior 22/11/2012

Hoje vi o povo. Centenas de estudantes que saíram à rua em defesa dos seus direitos, em defesa de um ideal em que acreditam. Vi pessoas como eu que interromperam o seu quotidiano e foram para a rua gritar. Vi rostos desolados, olhares sem esperança. O povo já não ri, o povo já não sonha. Sim, hoje eu vi o povo. Essa entidade da qual todos falam mas que poucos compreendem. Hoje não vi pessoas isoladas, personalidade sozinhas. Vi centenas de estudantes, pessoas, cidadãos, em sintonia perfeita que caminhavam lado a lado. Isso é o povo. Não sou eu nem és tu, somos todos nós, juntos. Uma massa que grita, um conjunto que marcha. 

Não desprezem o povo, não o ignorem. O povo não existe! É uma ideia, um ideal.  Uma categoria uma agregação, pessoas de diferentes realidades. O povo só se forma quando pessoas se juntam, quando há união. O povo só se forma quando o ego desaparece, quando a individualidade se junta ao colectivo. É uma causa comum, um conjunto de indivíduos. Hoje vi esse conjunto. Um ideal que se materializou. Todos quantos ali se reuniram, todos quantos ali gritaram, todos quanto ali expressaram o seu descontentamento formaram esse conjunto, criaram esse conceito. 


Hoje vi o povo. Éramos muitos. Eu também lá estava, fiz parte dele. Ajudei criá-lo e, no fim, deixei-o morrer. Quando a última voz parou, quando o último grito soou, quando o último espírito serenou, o povo morreu. Mas há-de voltar a nascer, há-de-se erguer de novo. Ele virá quando dele precisarmos, quando se sentir a sua falta. Ele há-de vir das brumas, numa manhã de nevoeiro. Aí não seremos centenas de estudantes, seremos milhares de pessoas, milhares de cidadãos. Todos juntos faremos o povo mais forte que nunca e então lutaremos! A injustiça deste mundo, o mal deste país, tudo ruirá. A praia jaz debaixo do chão que calcetámos, debaixo do cimento das nossas estradas. Iremos procurá-la, todos juntos! Uns irão cantar, outros tocar, uns irão escrever e outros ler, uns irão gerir e outros construir, mas todos iremos governar, guiar o destino e decidir a fortuna

Todos somos diferentes mas todos somos iguais. Há opções e talentos que nos separam mas uma condição que nos une. Chegará o tempo em que daremos as mãos e aceitaremos esta condição. Chegará o tempo em nos veremos como irmãos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Um passo no passado, um avanço no futuro

Hoje dei um importante avanço na minha demanda, na busca do meu ser. Olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Vi a minha imagem como nenhum espelho alguma vez me mostrou, defini-me como nenhum comentário e opinião alguma vez definiu. Não vi um corpo, com músculos e expressões. Vi uma ideia, um abstracto. Reconheci-me ali. Um constante de mudança e permanência, um conjunto de ideias e pensamentos, um corpo e uma ideologia, sensações e emoções que a linguagem não pode reproduzir. Desviei o olhar. Não suportava mais. Arranjei um assunto qualquer para conversar. 

O meu pensamento divagava sobre o sucedido. Terá ela visto o que vi? Será que a imagem reflectida nos olhos dela lhe chegou até ao cérebro  Será aquilo que ela pensa de mim? Acho que nunca saberei. Não lhe consegui perguntar e agora é tarde demais. Muito tempo já passou e a imagem, se de facto era real, decerto já foi contaminada. 

Eu, como todos os meu semelhantes, não sou uno e indivisível. Não tenho uma identidade única fixa. Não tenho uma história linear. Eu defino-me na minha multiplicidade. Naquilo em que acredito e nas contradições que isso acarreta. Não sou as discussões que venço mas os argumentos que saem frustrados na tentativa de expressar um pensamento. Sou contraditório e as contradições definem-me na minha plenitude. Como pode um espelho reflectir tudo isso? Como pode um juízo identificar tudo quanto sou? Como pode uma opinião apresentar-me por completo?

Eu sou o que digo e o que não digo. Sou o que faço e o que fica por fazer. Sou o que penso e o que transmito. Uma ideia que fica por expressar e outra que grito na rua. Não me digam que me conhecem. Não me digam que previam o que iria fazer. Não me digam que sabem quando da sabedoria todos estamos privados. Não tenho paciência para hipocrisia nem falsos filósofos  Nem aquela que me viu, me viu realmente. Viu-me a alma, a essência, mas logo esqueceu, logo poluiu a sabedoria. Olhou mas não viu, espreitou mas não apreciou. Quando olhou de novo já não viu o mesmo. 

Parece que o universo em seu redor se transformou profundamente nos instantes entre olhares. Parece um cubo de Rubik. As faces do cubo alteram-se entre si mas, no fundo, nunca deixamos de estar perante essa forma. Faces da realidade que nós não víamos assumem a sua posição à mercê do espectro visível e, a mesma forma, assume novas realidades tangíveis. Como uma obra de arte, sempre igual a si própria mas sempre diferente a cada apreciação. Vemos sempre faces diferentes da realidade de uma forma que nunca muda. É um defeito humano, olhar e não ver. É uma qualidade humana, re-inventar a realidade sem nela sequer tocar. É tudo uma perspectiva, uma ideia. E garanto-vos que a ideia é a coisa mais forte que existe neste mundo. Uma coisa sim, não palpável nem visível mas com uma coisidade própria. Podem-nos tirar tudo, até a esperança, mas uma ideia persiste na mente e tem a capacidade de se reproduzir e de crescer a uma velocidade ainda pouco compreendida pela inteligência das pessoas. Hoje, olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Recordei uma personalidade, uma essência. Características que criei e que transporto comigo todos os dias do quotidiano. Hoje, recordei o que fui, recordei o que sou, recordei o que serei, num futuro que não conheço. Hoje, recordei o futuro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para recordar o futuro

Por vezes desejamos esquecer. Esquecer um passado que não nos foi favorável ou que não decorreu segundo o nosso critério. Tarde compreendemos que tal não é possível. Podemos recalcar as memórias desafortunadas e aprisioná-las no canto mais remoto da nossa mente. Podemos até disciplinar o nosso espírito para viver o quotidiano sem que a memória indesejada aflore à superfície mas, quando as nuvens encobrirem o sol asfixiando a beleza dos seus raios dourados e quando a euforia do verão for substituída pela melancolia do outono, então essas memórias indesejadas voltarão para nos assombrar com mais força do que nunca. Os sentimentos e sensações de cuja memória queremos apagar, sempre voltam à ordem do pensamento quando deixamos de controlar o que nos envolve e uma coisa é garantida, não estaremos no controlo total do nosso ser para sempre. Haverá um acontecimento inesperado, um estado de espírito com que não contávamos, uma perturbação no meio que nos rodeia. Aí, os sentimentos recalcados e as memórias indesejadas que estão bem enterradas lá no fundo do pensamento irão voltar à ordem das ideias e assaltarão violentamente o quotidiano. Uma idiotice se a minha opinião for permitida. Uma ideia de quem não pensa, um vazio. Pensar assim é um luxo a que não me posso dar. Será que há quem acredite que o um desaparece quando vem o dois? É do domínio geral que o dois surge da adição ao um, que o precedeu. Não seremos também nós dessa maneira? Ser é existir que, por sua vez, implica viver. Uma soma de experiências, sensações, emoções, ideias e tantas outras coisas que se precedem numa lógica aditiva. Nada substitui nem é substituído  Tudo quanto faço, penso e sinto será a vivência que me compõe e nada será apagado da minha identidade. A pessoa é formada em profundidade e não no mero momento temporal. É por isso que, geralmente, se atribui uma determinada idade à chamada maturidade. Reconhece-se que o ser humano precisa de acumular uma série de experiências, vivências e normas para formar o seu carácter. Ainda me falam em mudar? Uma comédia, um gracejo! Ainda gostava eu de ver esse momento tão excepcionalmente marcante capaz de apagar uma vida de ideias e pensamentos. Tal coisa não existe. Claro que todos mudamos, o progresso é a ordem natural da vida. Mas não me falem em mudar o carácter do homem através de uma experiência ou momento pois tal é mera ficção. A mudança existe e é inerente ao homem mas ela é feita num processo e em moldes definidos pelo carácter anterior da pessoa. O passado não desaparece quando passamos ao presente ou consideramos o futuro. O passado, as memórias, estará sempre lá e é bom que aprendamos a conviver com ele. Aproveitar o que fomos e quanto fizemos para melhor formar o somos hoje e seremos amanhã. 
Eu não penso em esquecer. Não posso esquecer. É algo que me ficou proibido pelo medo que tenho de perder a memória e não me lembrar de tudo quanto fiz e aprendi. É o meu maior medo! Uma vida construída no presente para um amanhã melhor e ele poderá não vir. Apenas um vazio. Uma falha na memória que nos oculta tudo quanto fizemos. Oculta-nos quem somos. Como posso eu querer esquecer? Como pode alguém querer esquecer? Se esquecemos há uma parte de nós que morre. Um espaço de tempo que é apagado e desaparece do continuo da vida. Ficamos com um carácter retalhado, com falhas. Um processo que deveria ser contínuo e cumulativo. Se agora desejar esquecer, chegará o tempo em que quererei lembrar. Aí, não haver forma de recuperar esses pequenos momentos, parte de quem eu sou. 
O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro. Só assim conseguirei não me perder. Quando esquecer, poderei ler para lembrar. Obviamente que não me interessa todo o momento do quotidiano. Interessa-me mais o conjunto que a soma das partes. Interessa-me a essência que surgiu do dois e não da mera adição dos dois uns. 
Quem sou eu? Uma projecção de quem fui? O resultado majorado de todos os pequenos momentos do passado. Não sei quem sou. Sei que não sou quem dizem eu ser, nem tão pouco aquela imagem que me aparece no espelho. Eu não sou nada disso, sou mais. Como podem os outros saber quem eu sou se nem eu próprio sei? Como pode o espelho mostrar-me quem eu sou se não me reconheço nele? Vivo constantemente nesta busca. A mim não me interessa riqueza ou glória, apenas saber quem sou, o que faço aqui.