Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.
Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.
Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?
sábado, 22 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás
Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que
nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos
sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à
distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram
a nossa relação, o nosso mundo.
Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos
na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e
responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca
constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma
obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas
de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para
demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua
lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o
mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que
ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha
imaginação que figurava à tua imagem.
Nunca te tinha visto… Sabia que estavas
lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele
espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca
mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele
material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto
saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda
me amas?
Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de
vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa,
vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um
evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora…
Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar
fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo
o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito
menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a
felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho
contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te.
Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua
voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita…
Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em
qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque
será que penso não te conhecer?
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Crónica de um amor burguês - Ama-la?
A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar...
Espero que gostem.
- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião
importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para
jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos
e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da
minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a
trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe
chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o
mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a
sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais
aí ao teu tablet e marcas o avião já
para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm
mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material
informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para
sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um
tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho
aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande.
Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe
graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente
imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima
semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já
pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste
família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser
vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos
passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices
de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar
para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser
chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso
trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa
que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e
oito anos e já estás no top 100 dos
mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto
de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade
dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão
notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido
boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado?
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Ulisses
Para hoje, um pequeno texto da minha autoria feito para a Livros de Ontem e baseado na magnífica ilustração do nosso logótipo, feita pela Nádia Amante. O imaginário do Ulisses está-se a construir...
Ulisses, terna criança que de seu destino pouco sabe. Outrora destemido guerreiro, abençoado pelos Deuses e aclamado pelos seus súbditos, tem agora o trabalho mais difícil de toda a sua existência: levar a sabedoria aos quatro cantos do planeta.
Despojado do seu corpo forte e viril, Ulisses renasceu para o mundo no corpo de um menino que, sozinho, carregará eternamente todo o conhecimento dos antepassados. Os Deuses atribuíram-lhe a missão de levar os livros, objecto do conhecimento, a todos quantos deles necessitem enquanto é forçado a iniciar uma busca pelos sábios escritores do amanhã.
Pobre menino, com tão grande fardo. Trazer sobre as suas frágeis costas os livros do antigamente para que os escritores do amanhã se revelem. Que nobre missão! Será Ulisses capaz?
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
A cultura por cá
"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."
Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro?
Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente.
Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.
Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao
Já não quero ser escritor!
Já não desejo ser escritor!
Esta ideia ocorreu-me depois de visionar o filme "Anna Karenina". Para ser mais preciso, trata-se de uma não-ideia e ocorreu-me ainda quando assistia ao dito filme, miserável, um embuste! Sou capaz de o rotular como o "pior filme que já vi", não por ser de facto de o pior, mas por ter sido o que causou mais decepção. Depois de ver este filme, já não desejo ser escritor. Enquanto assistia ao espectáculo, o único pensamento que me ocorria levava-me para junto do criador da história, fazia-me estar a seu lado perante tal atrocidade. Mesmo antes da indignação, um sentimento de pena arrebatou-me: pobre Tolstoi, deve estar às voltas na campa! É todo um trabalho destruído, todo um legado manchado. Uma vergonha, um ultraje! Deveria haver uma entidade responsável para proibir o nome do filme. Este deveria-se antes designar de "Visão do senhor Joe Wright e sua equipa acerca da obra Anna Karenina de Lev Tolstoi", ou então, "Mediocridade americana baseado no romance Anna Karenina de Lev Tolstoi". Pega-se num dos maiores clássicos da literatura realista e produz-se um filme com o mesmo nome de forma absurdamente subjectiva e parcial. Uma vergonha! Faz-se um filme baseado numa obra que dela apenas tira a história, o esqueleto da narrativa. Histórias há muitas e se calhar até melhores que aquela. A arte está na forma de a contar, de transmitir a mensagem. Se se quer brincar às mensagens subjectivas e às interpretações de realizadores então escolha-se outra história qualquer. Depois disto, não mais serei escritor! De que serve criar uma obra-prima se outros a destruirão? De que serve escrever a minha visão se outros virão que a deturpem por completo? De que serve escrevinhar uma mensagem se ela ficará esquecida quando se contar a história? Não quero pactuar com estes crimes à arte e à literatura! Talvez não deixarei de escrever, daí isto tudo ser uma não-ideia, mas certamente irei deixar no meu testamento que jamais se poderá cometer um perfeito homicídio contra qualquer das minhas obras. Talvez nunca chegue a ter obras que sejam boas para destruir... De qualquer modo, hoje estou de luto. Hoje sinto que a literatura ficou mais pobre, que a arte empobreceu. Que desperdicem a sétima arte em filmes de violência e histórias sem interesse, eu ainda posso tolerar. Um assalto desta natureza aos clássicos da literatura, é um escândalo! Não haverá limites para a mediocridade cinematográfica?
sábado, 8 de dezembro de 2012
Da distância e da ausência
A minha estreia absoluta em poesia tenta imaginar a resposta que a mulher do soldado do poema de Konstantin Simonov daria quando o seu marido chegasse a casa são e salvo após uma longa ausência. A distância é uma provação dolorosa e, de uma forma ou de outra, todos passamos por ela. Por vezes, ela pode destruir laços, terminar relações, causar incerteza... É sem dúvida a derradeira prova, um selector natural. O que à distância resiste, por nada mais será destruído.
Esperei por ti, eu bem sei.
Da tua memória cuidei.
Esperei-te noite e dia,
escutei a tua voz em cada melodia.
Que saudades tinha eu de te tocar,
ver, ouvir e cheirar!
Esperei por ti todos os dias,
no fundo, sabia que ainda me querias.
Certo dia, as cartas cessaram
e os sinos não mais tocaram.
O Amanhã enegreceu e o Ontem definhou
mas, no meu coração, nada mudou.
Continuei-te a amar
mesmo quando o teu irmão deixou de brincar
e o teu cachorro parou de ladrar.
A altura chegou
em que o relógio parou,
em que cada hora, cada minuto,
impediram o meu luto.
Sabia que não tinhas sido vítima da morte
mas não te conhecia a sorte
e definhava lentamente,
nesta incerteza, nesta realidade indiferente.
Horas, dias, meses, anos,
tempo demais para ficar longe de quem gostamos.
O tempo passava e de ti não sabia nada,
se vivias ou jazias pela espada.
Mas eu esperei por ti,
abracei a saudade e contra a incerteza me revesti.
Aguardei a tua chegada,
à tua legítima morada.
Meu amor o que sofri...
Nesta incerteza, nesta dor que vivi.
A dor de te amar
e tu longe sem me beijar.
Quando eles beberam e rezaram,
a seu lado não me sentaram.
Permaneci sólida e levantada,
sabia que, algures, era por ti lembrada.
E certo dia tu chegaste,
pela porta, sozinho e cansado, entraste.
O meu mundo desabou: nem queria acreditar...
Meu amor, voltas-te para me amar!
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Espera-me
Hoje trago-vos um poema de que gosto muito. Amanhã o inesperado.
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
– que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
– que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
Poema de Konstantin Simonov
Tradução de Hélio do Soveral
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Será que nos é permitido amar?
Será que nos é permitido
amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido
viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender
através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa
vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a
nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são
inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me
preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas
desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que
escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na
primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo.
As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas
que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas,
porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um
velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração
e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis
que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos
da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos
desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu
aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais
do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios
tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a
tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos
entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo
tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da
presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado
pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua
rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu
vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias
leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de
perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo
para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me
endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita.
Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura.
Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros
escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho
lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do
romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e
reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não
tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida
deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a
experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão
todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o
inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter,
não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias,
lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao
nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não
separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um
erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo
está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a
jogar?
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Da ladra, dizem alguns...
É a feira das cinco. Da ladra, dizem alguns... Uma
feira onde artigos roubados são trocados e vendidos a uma hora da manhã tão
precoce que nem a autoridade está desperta para o que se lá passa. Dizem que é
o covil dos ladrões de toda a Lisboa, o seu local de trabalho onde tudo se
vende e tudo se compra sem que perguntas sejam feitas. Aconselham-me cautela
com os pertences que comigo carrego e despertam-me para a provável origem
ilícita daquilo que compro.
Eu não vejo isso. Percorro as ruas adjacentes ao
grande panteão e vejo magia no ar. Vejo pessoas honestas vendendo o que têm e o
que encontram como forma de subsistência ou rendimento extra. Vejo artigos que
em lado algum me seria possível encontrar. Vejo mundos muito diferentes desta
Lisboa incógnita que se cruzam e intersectam nesta feira anacrónica. Parece que
aquele espaço não existe no mundo real. Num dia, enche-se de pessoas e
mercadorias e, no outro, nada lá se passa. De cada lado da estrada são dezenas
as pequenas bancas que tudo vendem. Pessoas que já ali comercializam as suas
memórias desde que há memória e estreantes que ali vão pela primeira vez. Todos
vendem o que já não querem, o que já não precisam. Artigos usados, coisas
velhas. Bens que nunca poderia ver, tocar, sentir e comprar noutro lado.
Desde as cinco da madrugada que ali são
estendidos os lençóis, despejadas as tralhas e esperados os visitantes. Ali não
há pregões nem anúncios. Quem vende conhece os seus produtos e sabe que não
precisa de os apresentar, eles falam por si próprios, têm uma história e uma
vivência que, por vezes, antecede o próprio vendedor. Quem compra não precisa
de convite, sabe ao que vai e sabe escutar os objectos que procura. É a feira
das histórias onde apenas isso se vende. Não são produtos ou bens, são
histórias. Histórias que se fazem ouvir ao caminhar por entre as bancas,
histórias antigas que nos prendem a atenção e nos chamam para um olhar mais
atento. Livros antigos de páginas amareladas, postais endereçados sem resposta,
fotografias de desconhecidos perdidos no tempo… Memórias que já foram
assimiladas por quem devia e que agora estão ali à disposição para alimentar a
curiosidade e o sonho compradores interessados. São objectos que saltam de
geração em geração cuja origem e propósito fica desconhecido levando-nos a
imaginar toda a viagem.
O ambiente é de magia e a nostalgia envolve-nos.
Somos transportados do mundo físico a que estamos habituados para um espaço
intermédio onde o tempo não passa e o sol não queima. O anonimato lisboeta
morre e a solidão dos velhos desaparece. Ali fala-se, escuta-se e pergunta-se.
A indiferença à história alheia dá lugar ao respeito pela memória que nunca
vivemos.
Se alguma vez me perder procurem por mim lá.
Conto lá estar, a vender as minhas velharias que em tempos foram novas, a
vender as minhas memórias que em tempos foram realidades. Não me digam que é da
ladra, pois ladrões há-os em todo o lado. Digam-me antes que é das cinco pois
quem lá vai sabe que é a essa hora que se compram os melhores artigos. Digam-me
antes que é das histórias pois quem lá vai sabe quantos mundos por lá andam,
uns perdidos outros encontrados.
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