sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Separáveis mas indivisíveis

- Olha aqui esta mulher. Bonita não é?
- Das melhores que já vi! Que mulher!
- Conheci-a ontem naquele bar a que costumamos ir ao Sábado. Ontem passei por lá depois de sair do escritório e a coisa deu-se.
- A coisa deu-se? O que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Tive sorte. Gostou de mim…
- Gostou? Isso não me surpreende… E tu? Gostaste dela?
- Claro! Já olhaste bem para a fotografia? O que há para não gostar?
- Pois… Isso também não me surpreende…
- Ai ai, como eu gosto deste jogo de sedução! As mulheres sempre todas arranjadas, com tanta luxúria… E eu, visto a minha máscara invencível e nada me consegue parar! Um uísque numa mão, um cigarro na outra, a cabeça que abana ao ritmo da música e o pé que a acompanha a bater no chão. Elas adoram os homens de fato…
- E tu adoras ficar ali sentado, horas a fio, sem fazer mais nada senão exibir uma imagem irreal, surreal. O teu eu que não és tu, alguém que não existe. Uma farsa…
- Bem… Sim… É mais ou menos isso… Faz-me sentir vivo!
- E a tua mulher em casa, à tua espera? Não te faz sentir vivo? Haverá algo no mundo que nos faço sentir mais reais do que a nossa metade que espera por nós no conforto do nosso lar? Chegar a casa e ser recebido com um beijo, com amor e carinho, perguntas sobre o dia, o jantar na mesa… Isso sim, é real, é vida!
- Não podia estar mais de acordo. Aliás, acabaste de me dar um retrato bastante fidedigno do que aconteceu ontem, depois do bar… É para isso que tenho mulher, eu gosto do conforto!
- Eu sei que gostas. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes.
- Então deves saber que não trocaria a minha mulher por nada! É ela que me garante esse conforto, é ela que está lá para mim quando preciso, é ela que me mantém a casa da maneira que ela deve estar e será ela a dar-me um filho, um dia destes…
- E não achas errado que ela esteja em casa a velar por ti, a melhorar a tua vida, e que tu estejas nesses bares manhosos depois de um dia inteiro de ausência? E ainda por cima esqueceste-te de me convidar. Quiseste tudo só para ti. Trocas a amizade e o amor pela solidão e pela mentira dessa vida. Não achas que a tua mulher merece mais do que essas mentiras?
- Sabes lá o que ela merece… Sabes lá o que tu mereces… Sabes lá quem eu sou e o que penso. Não fiz nada de errado, apenas me apeteceu uma bebida depois de um dia de trabalho. Será isso crime? Será isso errado? Apenas troquei umas impressões com ela, e os números, e esta fotografia… Nada de mais. Não me dês lições de moral se nem sabes o que aconteceu, se nem sabes o que penso, se nem conheces as motivações para o que fiz…
- Farei mal em julgar-te? No final de contas tu és dono dos teus atos e podes fazer o que bem entenderes… Mas será que não tenho direito a julgar-te, a aconselhar-te? Será que os teus atos não têm consequências em mim, na minha vida? Eu sei exatamente o que se passou ontem. Apesar de não ter recebido convite eu estava lá, vi tudo… Sem te aperceberes, levaste-me contigo, contaste-me todas as tuas motivações e pensamentos. Sei mais sobre ti do que aquele teu eu irreal que levas-te ontem para o bar contigo. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes. Não te esqueças que eu e tu, somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Quando te verei pela primeira vez?

Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.

Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.

Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás

Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram a nossa relação, o nosso mundo. 

Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha imaginação que figurava à tua imagem. 

Nunca te tinha visto… Sabia que estavas lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda me amas? 

Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa, vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora… Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te. 

Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita… Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque será que penso não te conhecer?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Ama-la?


A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar... 
Espero que gostem.


- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais aí ao teu tablet e marcas o avião já para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande. Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e oito anos e já estás no top 100 dos mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado? 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ulisses

Para hoje, um pequeno texto da minha autoria feito para a Livros de Ontem e baseado na magnífica ilustração do nosso logótipo, feita pela Nádia Amante. O imaginário do Ulisses está-se a construir...



Ulisses, terna criança que de seu destino pouco sabe. Outrora destemido guerreiro, abençoado pelos Deuses e aclamado pelos seus súbditos, tem agora o trabalho mais difícil de toda a sua existência: levar a sabedoria aos quatro cantos do planeta.

Despojado do seu corpo forte e viril, Ulisses renasceu para o mundo no corpo de um menino que, sozinho, carregará eternamente todo o conhecimento dos antepassados. Os Deuses atribuíram-lhe a missão de levar os livros, objecto do conhecimento, a todos quantos deles necessitem enquanto é forçado a iniciar uma busca pelos sábios escritores do amanhã.
Pobre menino, com tão grande fardo. Trazer sobre as suas frágeis costas os livros do antigamente para que os escritores do amanhã se revelem. Que nobre missão! Será Ulisses capaz?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A cultura por cá


"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."

Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro? 

Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente. 

Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.

Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao

Já não quero ser escritor!

Já não desejo ser escritor!
Esta ideia ocorreu-me depois de visionar o filme "Anna Karenina". Para ser mais preciso, trata-se de uma não-ideia e ocorreu-me ainda quando assistia ao dito filme, miserável, um embuste! Sou capaz de o rotular como o "pior filme que já vi", não por ser de facto de o pior, mas por ter sido o que causou mais decepção. Depois de ver este filme, já não desejo ser escritor. Enquanto assistia ao espectáculo, o único pensamento que me ocorria levava-me para junto do criador da história, fazia-me estar a seu lado perante tal atrocidade. Mesmo antes da indignação, um sentimento de pena arrebatou-me: pobre Tolstoi, deve estar às voltas na campa! É todo um trabalho destruído, todo um legado manchado. Uma vergonha, um ultraje! Deveria haver uma entidade responsável para proibir o nome do filme. Este deveria-se antes designar de "Visão do senhor Joe Wright e sua equipa acerca da obra Anna Karenina de Lev Tolstoi", ou então, "Mediocridade americana baseado no romance Anna Karenina de Lev Tolstoi". Pega-se num dos maiores clássicos da literatura realista e produz-se um filme com o mesmo nome de forma absurdamente subjectiva e parcial. Uma vergonha! Faz-se um filme baseado numa obra que dela apenas tira a história, o esqueleto da narrativa. Histórias há muitas e se calhar até melhores que aquela. A arte está na forma de a contar, de transmitir a mensagem. Se se quer brincar às mensagens subjectivas e às interpretações de realizadores então escolha-se outra história qualquer. Depois disto, não mais serei escritor! De que serve criar uma obra-prima se outros a destruirão? De que serve escrever a minha visão se outros virão que a deturpem por completo? De que serve escrevinhar uma mensagem se ela ficará esquecida quando se contar a história? Não quero pactuar com estes crimes à arte e à literatura! Talvez não deixarei de escrever, daí isto tudo ser uma não-ideia, mas certamente irei deixar no meu testamento que jamais se poderá cometer um perfeito homicídio contra qualquer das minhas obras. Talvez nunca chegue a ter obras que sejam boas para destruir... De qualquer modo, hoje estou de luto. Hoje sinto que a literatura ficou mais pobre, que a arte empobreceu. Que desperdicem a sétima arte em filmes de violência e histórias sem interesse, eu ainda posso tolerar. Um assalto desta natureza aos clássicos da literatura, é um escândalo! Não haverá limites para a mediocridade cinematográfica?

sábado, 8 de dezembro de 2012

Da distância e da ausência

A minha estreia absoluta em poesia tenta imaginar a resposta que a mulher do soldado do poema de Konstantin Simonov daria quando o seu marido chegasse a casa são e salvo após uma longa ausência. A distância é uma provação dolorosa e, de uma forma ou de outra, todos passamos por ela. Por vezes, ela pode destruir laços, terminar relações, causar incerteza... É sem dúvida a derradeira prova, um selector natural. O que à distância resiste, por nada mais será destruído. 


Esperei por ti, eu bem sei.
Da tua memória cuidei.
Esperei-te noite e dia,
escutei a tua voz em cada melodia.
Que saudades tinha eu de te tocar,
ver, ouvir e cheirar!
Esperei por ti todos os dias,
no fundo, sabia que ainda me querias.

Certo dia, as cartas cessaram
e os sinos não mais tocaram.
O Amanhã enegreceu e o Ontem definhou
mas, no meu coração, nada mudou.
Continuei-te a amar
mesmo quando o teu irmão deixou de brincar
e o teu cachorro parou de ladrar.

A altura chegou
em que o relógio parou,
em que cada hora, cada minuto,
impediram o meu luto.
Sabia que não tinhas sido vítima da morte
mas não te conhecia a sorte
e definhava lentamente,
nesta incerteza, nesta realidade indiferente.

Horas, dias, meses, anos,
tempo demais para ficar longe de quem gostamos.
O tempo passava e de ti não sabia nada,
se vivias ou jazias pela espada.
Mas eu esperei por ti,
abracei a saudade e contra a incerteza me revesti.
Aguardei a tua chegada,
à tua legítima morada.

Meu amor o que sofri...
Nesta incerteza, nesta dor que vivi.
A dor de te amar
e tu longe sem me beijar.
Quando eles beberam e rezaram,
a seu lado não me sentaram.
Permaneci sólida e levantada,
sabia que, algures, era por ti lembrada.
E certo dia tu chegaste,
pela porta, sozinho e cansado, entraste.
O meu mundo desabou: nem queria acreditar...
Meu amor, voltas-te para me amar!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Espera-me


Hoje trago-vos um poema de que gosto muito. Amanhã o inesperado.

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
Poema de Konstantin Simonov
Tradução de Hélio do Soveral

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Será que nos é permitido amar?


Será que nos é permitido amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo. As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas, porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita. Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura. Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter, não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias, lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a jogar?