- Larga-me o braço, estás-me a magoar!
- Não ouses dizer que te estou a magoar, tu não sabes nada
sobre a mágoa! Já pensaste em como me senti ao descobrir aquela carta no fundo da gaveta?
Todos esses sentimentos que guardaste só para ti, sabe Deus quanto tempo… E eu
aqui, sem saber de nada, a fazer papel de idiota.
- Talvez te assente bem… A idiotice, claro está. O idiota é
aquele que segue a sua vida errónea pensando enganar todos à sua volta.
Pensavas o quê? Que eu não sabia onde andavas quando chegavas tarde a casa, que
eu não sabia o que pensavas quando te cruzavas com outras mulheres, ou pior, o que fazias… Sei mais
sobre tudo isso do que aquilo que podes imaginar, sei mais sobre ti do que tu
alguma vez saberás, sempre soube…
- Olha bem para ti, armada em detetive… Sabes tudo, tu! És a
encarnação da perfeição, um anjo caído do céu para iluminar esta Terra sombria.
Tretas! Tudo tretas! Se sabes tanto quanto dizes porque te casaste comigo?
Porque ainda continuas aqui, na nossa casa?
- Eu sempre te conheci o fundo da alma, desde a primeira
carta que trocámos. Acontece que, nessa altura, tu ainda eras o artista por
quem eu me apaixonei. Esse espírito livre conhecedor dos maiores segredos do
universo, capaz de amar e de se comprometer. Não tinhas medo do compromisso.
Espera aí um segundo… - disse a mulher enquanto se dirigia a passo apressado em
direção ao seu roupeiro. Sem pausa, abriu a gaveta do fundo e retirou um molho
de envelopes abertos, que já indiciavam a sua idade avançada, que folheou até
encontrar o que desejava. – Toma, lê. Lê a primeira carta que tu próprio me endereçaste e
diz-me se esse rapaz, autor de tão magníficas linhas, é o mesmo que encontro
agora à minha frente.
O homem segurou o envelope, retirou a velha carta do seu
interior, e começou a ler. A cada linha que passava, os seus olhos
humedeciam-se até que, quando finalizou a sua leitura, uma e apenas uma lágrima
foi derramada.
- Sabes? Penso que tens razão. Penso que merecia todas
aquelas acusações que guardaste naquela gaveta, naquela carta que nunca me
enviaste. Talvez já não seja o mesmo… Ou talvez sempre tenha sido assim, apenas
com menos meios para me realizar. No outro dia, no escritório, quando falava
com o meu sócio, ele disse-me que não devia adiar mais aquela viagem que
tínhamos pensado fazer. Por momentos estive decidido a comprar os bilhetes, mas
depois… Em menos de nada a
ideia mudou por completo e a decisão passou a adiamento. Ainda queres
viajar comigo? Eu sei que pensas que já não sou o mesmo, que mudei. Só quero
uma oportunidade para mostrar que ainda te amo, que ainda te desejo, que ainda
sou o mesmo que te escreveu aquela carta guiado pelo desejo do nosso primeiro encontro… Se
procurares aí nesse molho vais encontrá-la. Diz-me, por favor. Ainda queres
viajar comigo?
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