sexta-feira, 15 de março de 2013

As viagens do livro


Como a minha mãe guarda o seu exemplar autografado. Emoldurado atrás do macaco cego, do surdo e do mudo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

A falsidade da criação


Li algures que um escritor está sempre a escrever a mesma coisa mas com diferentes palavras. A minha mente, o meu espírito ou o que quer que seja que intelectualiza todas estas emoções que sinto já há muito que não permite que da caneta brotem novas ideias, novos personagens. Ando sempre a escrever o mesmo. As mesmas situações, as mesmas ideias, os mesmos personagens, as mesmas emoções. Escrevo para me sentir livre, livre deste mundo onde o impossível impera mas, de alguma forma, não me sinto senão preso a esta bagagem que transporto sem que dela me consiga ver livre. Não sou mais que um prisioneiro. Um prisioneiro de mim próprio.

De onde me vem tudo isto? Do sofrimento, da alegria, da tristeza ou da euforia? Do excesso de emoções ou da falta delas. Ou será antes uma questão de qualidade antes da quantidade? A urgência em me exprimir é grande e aumenta sempre, a cada instante, a cada olhar. A urgência é tanta que o caudal da minha escrita sai atabalhoado, perdido neste mundo onde não pertence. As circunstâncias são outras, eu sou outro, mas o que de mim nasce permanece. A criação não segue o artista. Mudo o nome das personagens e sigo em frente mas o carácter permanece inalterado. Outros nomes, outras circunstâncias e elas iguais a si próprias fincando o pé ao seu criador e exigindo ser escritas, pintadas na tela da eternidade. Mudam os nomes, mudam as histórias e eu não pareço ter capacidade de desligar as personagens de mim próprio. Talvez por isso nunca tenha acabado nenhum romance, e já comecei vários… Dói demasiado, é tudo muito pessoal, muito real. As personagens parecem ter relutância em ganhar vida própria fora de mim mesmo, no paradoxo mais interessante com que já me confrontei. É uma batalha que perco inevitavelmente e as histórias, todas elas inacabadas, vão-se acumulando nas gavetas da consciência. Talvez o problema não se resolva enquanto não escrever algo definitivo que complete a criação e corte o cordão umbilical às personagens que desfilam na minha mente. Talvez aí elas ganhem vida própria. Talvez aí elas partam e iniciem o seu próprio caminho ao encontro de juízos alheios. Talvez aí consiga escrever outras coisas, outros personagens.

O que se espera de um autor? O que se espera de um livro ou de uma história? Certamente o mesmo que se espera de um filme, de uma música ou de uma pintura: cultura, entretenimento, catarse. A possibilidade de viajar sem sair do lugar, de conhecer sem travar conhecimento, de intelectualizar e apropriar as emoções do artista, um outro alguém fora de nós, e de compreender uma qualquer mensagem que a materialização da sua obra queira transmitir. O que interessa a inspiração? O que interessa o sofrimento do artista? O que interessa todo o processo que leva o livro às estantes de uma livraria ou a pintura às paredes de uma galeria? O que interessa tudo isto desde que nos possamos sentar e aplaudir quando gostamos ou vaiar quando odiamos? Provavelmente nada, provavelmente tudo. Se calhar, isso é o mais importante, o cerne da questão. De que vale um quadro perdido no meio do deserto, fora de todo e qualquer contexto e significado, para além dessa mesma circunstância curiosa e caricata? Terá a obra valor intrínseco? Terão estas palavras que escrevo agora à mesa da esplanada valor em si mesmo? Valor para além da minha vida, da minha obra, das vivências que as originaram… Sem isso penso que são apenas rabiscos, conjugações perversas de palavras que nada querem dizer.

Não sei se serei capaz de as abandonar dessa maneira. De certa forma, uma história é como um filho, um filho que não nasce do ventre mas sim da ponta da caneta. Não se abandona um filho assim como não se abandonam as palavras que se escreve. Tal como deve ser recusado o título de mãe a quem o seu filho abandona, também ao escritor se deve recusar esse título quando o objetivo da sua escrita é o abandono numa qualquer prateleira de supermercado, o cortar de relações com a sua escrita, a massificação. Tal como com a metáfora da mãe abandonante, o autor desligado das palavras que cria é alguém desligado de uma parte integrante de si próprio, numa separação que, se não é total, é pelo menos irreversível. Devo dizer que, normalmente, tal fenómeno é difícil de ter lugar. O processo criativo não cria coisas externas estranhas ao seu autor, antes traz ao mundo partes da sua visão e imaginação que quase sempre são metáforas ou distorções do que realmente existe ou aconteceu. A história está ligada à realidade e a invenção pura é nada mais que falácia e demagogia. Uma falsidade!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Composição VIII


Composição VIII, parte do meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis"

Nunca tive intenção de acabar o que foi outrora começado. A enorme sombra que se reflectia no solo quando entrelaçava-mos as mãos dava ao que nos unia uma aparência sobrenatural. Mas a intocabilidade reflectida na sombra nunca se figurou sozinha. Desde sempre que no negrume sombrio se expiava uma dor agónica que não era fácil de suportar. O medo crescia face ao perigo desconhecido mas ainda assim nunca pretendi roubar o que teu era por direito. E o que era teu também meu era e muito me custou perdê-lo. Mas agora tenho tudo quanto quero. O prazer de partilhar a vida contigo foi agora substituído pela satisfação de ver realizados os mais loucos desejos que se escondiam num canto da alma. 

A explosão imensurável de prazer que me trouxe a descoberta de novas coisas estrangulou a dor e a memória que já se vinham afirmando no meu pensamento. As amarras que nasciam do solo e me castravam os movimentos, nada puderam contra a inviolável leveza do ser que se manifesta quando da nossa mente apenas provém a liberdade. As condições exteriores são as que nos prendem menos. É na nossa mente que a fera fica enjaulada e se acaba por amestrar mesmo sem darmos conta. O instinto que nos incita a fugir de qualquer coisa desconfortável é inimigo da descontracção que poderíamos ter. Por mais rápido que consigamos correr, a nossa sombra acompanha-nos sempre. A flor que cresce lá no fundo deslumbra os sentidos. Pela janela fito a dança eterna que decorre onde não posso conhecer. O preto que o homem traja funde-se com o branco que a mulher ostenta. O vulto daquela cena ficará para sempre gravado no muro despido que se impõe à direita de quem entra. 

De incógnitos a realizados, fiz tudo o que me satisfazia e nada disso te envolveu. Agora, a tristeza mora ao lado e o passado também. Posso não ser o escolhido mas quem elege tem a condição de júri. A distinção não está em quem é preferido mas sim em quem o prefere, e isso faz toda a diferença. É uma oportunidade que se perde, uma porta que se fecha. As janelas que se abrem são mais pequenas e dificultam a passagem. É claro que são um caminho e que a diversos sítios conduzirão, mas estão longe de ser a opção óptima. Não existem segundas oportunidades. A vida não volta atrás nem se apaga a ela própria. Existem apenas outros caminhos distintos e outras oportunidades que são também elas únicas. 

E quando a memória se desvanecer sei que a posso substituir. Sei também que estive fora por muito tempo. Cheguei a pensar que já não estava vivo. Mas a vida agora encarregou-se de me presentear com circunstâncias que são tão boas quanto novas e adapto-me a elas para as aproveitar. A vida já nos impõe tantos combates e tantas decisões que não vale o sacrifício estar sempre a desejar algo mais. Se as nossas acções nos levaram a certa situação, então é porque podemos aprender algo daí. A plenitude está em nós, não nos momentos ou coisas. 

Ai que prazer! Poder desfrutar da vida sem os grilhões da consciência. O prazer está algures entre o querer e o poder. Isto digo eu… Outros, algo diferente dirão.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Crónica de um amor burguês - A carta que regressa da escuridão


- Larga-me o braço, estás-me a magoar!

- Não ouses dizer que te estou a magoar, tu não sabes nada sobre a mágoa! Já pensaste em como me senti ao descobrir aquela carta no fundo da gaveta? Todos esses sentimentos que guardaste só para ti, sabe Deus quanto tempo… E eu aqui, sem saber de nada, a fazer papel de idiota.

- Talvez te assente bem… A idiotice, claro está. O idiota é aquele que segue a sua vida errónea pensando enganar todos à sua volta. Pensavas o quê? Que eu não sabia onde andavas quando chegavas tarde a casa, que eu não sabia o que pensavas quando te cruzavas com outras mulheres, ou pior, o que fazias… Sei mais sobre tudo isso do que aquilo que podes imaginar, sei mais sobre ti do que tu alguma vez saberás, sempre soube…

- Olha bem para ti, armada em detetive… Sabes tudo, tu! És a encarnação da perfeição, um anjo caído do céu para iluminar esta Terra sombria. Tretas! Tudo tretas! Se sabes tanto quanto dizes porque te casaste comigo? Porque ainda continuas aqui, na nossa casa?

- Eu sempre te conheci o fundo da alma, desde a primeira carta que trocámos. Acontece que, nessa altura, tu ainda eras o artista por quem eu me apaixonei. Esse espírito livre conhecedor dos maiores segredos do universo, capaz de amar e de se comprometer. Não tinhas medo do compromisso. Espera aí um segundo… - disse a mulher enquanto se dirigia a passo apressado em direção ao seu roupeiro. Sem pausa, abriu a gaveta do fundo e retirou um molho de envelopes abertos, que já indiciavam a sua idade avançada, que folheou até encontrar o que desejava. – Toma, lê. Lê a primeira carta que tu próprio me endereçaste e diz-me se esse rapaz, autor de tão magníficas linhas, é o mesmo que encontro agora à minha frente.

O homem segurou o envelope, retirou a velha carta do seu interior, e começou a ler. A cada linha que passava, os seus olhos humedeciam-se até que, quando finalizou a sua leitura, uma e apenas uma lágrima foi derramada.

- Sabes? Penso que tens razão. Penso que merecia todas aquelas acusações que guardaste naquela gaveta, naquela carta que nunca me enviaste. Talvez já não seja o mesmo… Ou talvez sempre tenha sido assim, apenas com menos meios para me realizar. No outro dia, no escritório, quando falava com o meu sócio, ele disse-me que não devia adiar mais aquela viagem que tínhamos pensado fazer. Por momentos estive decidido a comprar os bilhetes, mas depois… Em menos de nada a ideia mudou por completo e a decisão passou a adiamento. Ainda queres viajar comigo? Eu sei que pensas que já não sou o mesmo, que mudei. Só quero uma oportunidade para mostrar que ainda te amo, que ainda te desejo, que ainda sou o mesmo que te escreveu aquela carta guiado pelo desejo do nosso primeiro encontro… Se procurares aí nesse molho vais encontrá-la. Diz-me, por favor. Ainda queres viajar comigo?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Se ao menos soubesse o que está do outro lado... - 2ª parte


...continuação

Penso que nada mudaria se soubesse aquilo que busco… Não o faço pelo resultado, mas sim pelo processo. Faço-o por mim, porque sinto um apelo. Se soubesse o que está do outro lado continuaria a tentar alcançá-lo. Não o busco por mera curiosidade, por capricho. Busco-o porque sei que está lá algo de valor, que servirá para completar as partes que me faltam. Não sei se todas, era isso que eu descobriria se me deixasses saltar o muro. Desde que te vi pela primeira vez que sei que guardas algo que também me pertence. Quando me cumprimentaste, na primeira vez em que estivemos juntos, a minha mente foi tomada de assalto por imagens que se seguiam tão depressa que quase pareciam formar um filme. Éramos nós que figurávamos nessas imagens, de mãos dadas, num jardim, juntos… Soube então que tinha de estar contigo, que tínhamos de viver esses momentos. Recostei-me para trás, na cadeira onde me encontrava sentado. Estava satisfeito, tinha finalmente encontrado aquilo que procurava há já tempo demasiado. Só ainda não sabia que ter esse conhecimento em meu poder, cedo demais, seria a condição do meu falhanço. Como um messias, sabia demasiado, sabia coisas que ainda não eram para ser sabidas. O mundo não estava preparado para a revelação da minha descoberta. Nesse momento, deixámos de estar em pé de igualdade. Todo o meu comportamento mudou. Sabia que tinha de estar contigo, que era esse o futuro, mas tu não fazias ideia de tal sorte. Pensei então que deveria conquistar a tua atenção, despertar o teu afeto, mas não fui capaz. Há coisas que não se devem saber, existem para ser descobertas. Neste caso deveríamos descobrir a dois, num processo… Antecipei-me e quis forçar os acontecimentos, antecipar o futuro. A minha mente desarmou a minha guarda, deixou-me despido em frente a ti. Tu continuaste altiva, no teu castelo fortificado, inalcançável. Mas eu sabia que, eventualmente, ficaríamos juntos, vi-o na minha mente, e então continuei. Tentei saltar o muro que nos separava, alcançar o teu ser. Foi então que a nossa relação falhou. Avancei para ti sem uma estratégia, confiante na inevitabilidade do nosso amor. Claro que só eu pensava assim… Foi como enfrentar um exército inteiro sem sequer carregar a minha espada. Uma loucura, uma ilusão. Gostei tanto de ti que não te quis conquistar, abri-me para ti e esperei o teu beijo, com naturalidade. Um suicídio…

Fim

domingo, 13 de janeiro de 2013

Se ao menos soubesse o que está do outro lado… - 1ª parte


A mesma mesa, o mesmo café, o mesmo cenário. A mesma expressão, a mesma dicção, o mesmo sentimento. A situação é a mesma, a sensação também. Agora já sei o significado daquilo a que costumam chamar déjà-vu: uma situação estranhamente familiar que nunca vivi anteriormente e cujo resultado já sei de antemão. O mesmo cenário, o mesmo resultado. Apesar de já saber isso não consigo evitar cair no erro. O sentimento começa a aflorar e surge com uma força incontrolável. Já conheço o resultado, já conheço o processo. Nada muda, avanço na mesma, desta vez com mais entusiasmo ainda. Após um primeiro impacto comandado pelo desagrado com um toque de desprezo, o gosto cresce forte e alimenta-se da mágoa de outrora. O mesmo café, a mesma mesa. Diferentes pessoas, diferente pessoa. A situação é idêntica. Agora, nos olhos dela, não vejo a mágoa de uma relação falhada, de um amor distante, vejo o desconhecido. Vejo um muro que não consigo ultrapassar, um código que não consigo decifrar. Ninguém me deu a matriz para o resolver, nem pistas tampouco. Parece que a intencionalidade lhe desvia o olhar para que, entre nós, não haja o mínimo de contato visual e eu não possa assistir à construção da vedação, da cerca, do muro que está a ser construído para me manter à distância. Tento desesperadamente espreitar pelos buracos da parede, pelo muro inacabado. Se ao menos soubesse alguma coisa sobre o que existe no outro lado, no interior da sua alma, nos confins do deu pensamento… Tento reverter o processo mas sinto que perco a batalha. Não consigo compreender o motivo de tanta resistência à minha aproximação e, em breve, também será cavado um fosso entre nós, e que profundo será… Sinto um déjà-vu e sou atraído por ele. Penso que é esperança o que me faz continuar mesmo já sabendo o resultado. Se ao menos soubesse o que está do outro lado…

Continua...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Separáveis mas indivisíveis

- Olha aqui esta mulher. Bonita não é?
- Das melhores que já vi! Que mulher!
- Conheci-a ontem naquele bar a que costumamos ir ao Sábado. Ontem passei por lá depois de sair do escritório e a coisa deu-se.
- A coisa deu-se? O que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Tive sorte. Gostou de mim…
- Gostou? Isso não me surpreende… E tu? Gostaste dela?
- Claro! Já olhaste bem para a fotografia? O que há para não gostar?
- Pois… Isso também não me surpreende…
- Ai ai, como eu gosto deste jogo de sedução! As mulheres sempre todas arranjadas, com tanta luxúria… E eu, visto a minha máscara invencível e nada me consegue parar! Um uísque numa mão, um cigarro na outra, a cabeça que abana ao ritmo da música e o pé que a acompanha a bater no chão. Elas adoram os homens de fato…
- E tu adoras ficar ali sentado, horas a fio, sem fazer mais nada senão exibir uma imagem irreal, surreal. O teu eu que não és tu, alguém que não existe. Uma farsa…
- Bem… Sim… É mais ou menos isso… Faz-me sentir vivo!
- E a tua mulher em casa, à tua espera? Não te faz sentir vivo? Haverá algo no mundo que nos faço sentir mais reais do que a nossa metade que espera por nós no conforto do nosso lar? Chegar a casa e ser recebido com um beijo, com amor e carinho, perguntas sobre o dia, o jantar na mesa… Isso sim, é real, é vida!
- Não podia estar mais de acordo. Aliás, acabaste de me dar um retrato bastante fidedigno do que aconteceu ontem, depois do bar… É para isso que tenho mulher, eu gosto do conforto!
- Eu sei que gostas. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes.
- Então deves saber que não trocaria a minha mulher por nada! É ela que me garante esse conforto, é ela que está lá para mim quando preciso, é ela que me mantém a casa da maneira que ela deve estar e será ela a dar-me um filho, um dia destes…
- E não achas errado que ela esteja em casa a velar por ti, a melhorar a tua vida, e que tu estejas nesses bares manhosos depois de um dia inteiro de ausência? E ainda por cima esqueceste-te de me convidar. Quiseste tudo só para ti. Trocas a amizade e o amor pela solidão e pela mentira dessa vida. Não achas que a tua mulher merece mais do que essas mentiras?
- Sabes lá o que ela merece… Sabes lá o que tu mereces… Sabes lá quem eu sou e o que penso. Não fiz nada de errado, apenas me apeteceu uma bebida depois de um dia de trabalho. Será isso crime? Será isso errado? Apenas troquei umas impressões com ela, e os números, e esta fotografia… Nada de mais. Não me dês lições de moral se nem sabes o que aconteceu, se nem sabes o que penso, se nem conheces as motivações para o que fiz…
- Farei mal em julgar-te? No final de contas tu és dono dos teus atos e podes fazer o que bem entenderes… Mas será que não tenho direito a julgar-te, a aconselhar-te? Será que os teus atos não têm consequências em mim, na minha vida? Eu sei exatamente o que se passou ontem. Apesar de não ter recebido convite eu estava lá, vi tudo… Sem te aperceberes, levaste-me contigo, contaste-me todas as tuas motivações e pensamentos. Sei mais sobre ti do que aquele teu eu irreal que levas-te ontem para o bar contigo. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes. Não te esqueças que eu e tu, somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Quando te verei pela primeira vez?

Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.

Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.

Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás

Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram a nossa relação, o nosso mundo. 

Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha imaginação que figurava à tua imagem. 

Nunca te tinha visto… Sabia que estavas lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda me amas? 

Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa, vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora… Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te. 

Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita… Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque será que penso não te conhecer?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Ama-la?


A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar... 
Espero que gostem.


- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais aí ao teu tablet e marcas o avião já para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande. Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e oito anos e já estás no top 100 dos mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado?