O
artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável
da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho
para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a
memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então
escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos.
Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Nova cara, texto velho
O blogue está a passar por uma fase de mudança. Alterei muitas coisas, essencialmente a nível de design, e a minha assinatura tem de fazer desaparecer o texto inicial. Desta forma, e para que ele não se perca, afinal foi o primeiro texto que aqui escrevi (ainda antes da primeira mensagem), decidi colocá-lo aqui:
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Desapareceu a rapariga dos cabelos cor-de-avelã
É com grande pesar que escrevo este comentário. Acima de tudo, tristeza, revolta. A lágrima no canto do olho ao ver trabalho único e irrepetível a ser perdido para sempre. Pois é, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã perdeu-se, foi roubada! Dela, sobrou apenas o texto que resgatei no comentário anterior e a memória vaga da sua sombra.
Assaltara-me o carro na passada semana, violaram o meu espaço pessoal, privado. Como se não bastasse o trespasse imperdoável, foram-me remexidas as coisas e levados pertences pessoais. Entre esses estava a rapariga dos cabelos cor-de-avelã. Um pequeno caderno preto, recheado de páginas escritas, com dizeres que aprisionavam aqui e ali pedaços da alma da rapariga que queria imortalizar. Agora só resta a memória. Estava ali, naquelas páginas entre as capas pretas duras, uma série de frases, um conjunto de palavras que jamais poderei reproduzir na sua formulação original. Foi-me levado! Páginas e páginas escritas, poucas por escrever. Um pequeno caderno preto, selado por um elástico, que me acompanhava para todo o destino e que era ele próprio destino dos meus pensamentos e ideias, embriões manuscritos dos textos que por aqui param.
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã estava lá, quase completa. Já se percebia os contornos do seu corpo, já se anteviam os traços do seu carácter. Pedaços desse ser, musa irrealizável, repousavam ali até que a obra estive pronta e, nas suas linhas, pudesse desfilar em toda a sua plenitude. Agora só resta a memória que muito pouco reteve. Descarreguei naquelas páginas o nexo de palavras que lhe dava a sua específica forma, a forma que eu queria que ela tivesse, a forma que deveria ter, a forma sem a qual não pode existir. Limpei a memória pesada confiando as minhas ideias à segurança daquele elástico, daquelas capas duras pretas. Descansei o pensamento e libertei-o do fardo de carregar permanentemente a lembrança de cada gesto, de cada olhar daquela rapariga, musa da minha escrita. Agora a memória prega-me uma partida, brinca comigo, faz de mim seu escravo.
Claro que a situação imaginei-a eu e a rapariga saiu da minha invenção. Voltarei a refazer a história, a reviver as emoções. Voltarei a fingir a vivência, a dissimular a criação. Fica porém a nota de que, fruto de um furto caprichoso de algum bruto, analfabeto por certo, foi-me roubada a rapariga dos cabelos cor-de-avelã e foi-me tirada a espontaneidade na sua descrição.
domingo, 31 de março de 2013
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã
A escova deslizava suavemente
entre os longos cabelos cor-de-avelã. O espelho refletia uma imagem serena, um
rosto plácido, uma má interpretação do que a alma sentia e do que nos olhos se
podia ler. A escova penetrava continuamente a generosa cabeleira em movimentos
mecânicos que oscilavam entre a brusquidão e a carícia terna. O olhar era vago.
Tinha deixado a sua mente à mercê dos pensamentos assaltantes que o sol do
meio-dia propiciava e a sua nostalgia consentia. Pensava sobretudo no que já
tinha passado e assustava-se com o que iria ainda acontecer. Não sabia se temia
mais o que deixara para trás e perdera ou o que poderia vir a ganhar num
distante cada vez mais próximo.
Ou se teria perdido que deixara para trás, ou
se ganharia algo com o que ainda estava para vir e nunca mais chegava. A
incerteza dominava-a, retirava-lhe o espírito daquela sala que apenas o seu
corpo habitava. Olhou para baixo e sabia que tinha de voltar, sabia que tinha
chegado a altura de enfrentar sozinha todas as suas incertezas, viver a vida,
jogar o jogo… E não queria. Preferia infinitas vezes ficar ali naquela quarto,
indeciso entre a escuridão e a iluminação dos raios de sol, a deixar o seu
espírito divagar e voar independente do seu corpo que bem podia permanecer
sentado a pentear os cabelos sem cessar. Mas não sabia, os dados já estavam
lançados, ela própria tinha-o feito quando escolhera estudar no estrangeiro
durante um semestre. Agora era altura de assumir as consequências da sua
decisão, tinha decidido ir a jogo. A sua mente divagava pelos momentos do dia
anterior, o aterrar do avião, o pisar solo português pela primeira vez, as
emoções que tudo isso despoletara. Foi nesse momento que percebeu que tinha
chegado ao ponto de não retorno, que estava ali, sozinha naquele país estranho
e que não iria regressar a casa durante seis longos meses. Mas sabia ela que,
no final de tudo, o longo tempo que agora se agigantava à sua frente lhe iria
parecer curto.
Tinha
vindo para Lisboa ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes a fim
de aprender o seu caminho junto da língua portuguesa e da cultura do país.
Acima de tudo, queria algo diferente daquilo a que estava habituada nos Estados
Unidos, tudo quanto tinha conhecido até então. Lisboa era, para si, uma porta
de entrada na Europa, um ponto de partida para um novo mundo que queria
explorar. O programa tinha-lhe atribuído uma família de acolhimento que lhe
daria abrigo e orientação durante os seis meses. Era no quarto que lhe tinha
sido destinado na casa da sua família de acolhimento que escovava agora os seus
cabelos e deixava o pensamento fluir. Vinha-lhe à mente a saudade da mãe, a
figura ausente do pai e a preocupação do irmão mais velho mas, sobretudo,
pensava no companheiro de três anos que deixara em casa. Não sabia o que fazer:
deixar fluir a saudade e derramar a primeira lágrima que já começava a aflorar
no canto do olho ou conter as incertezas e pensar no momento presente, na sua
grande experiência.
Nem
por um segundo esquecia o motivo da sua viagem: excitação, paixão, sentir algo
diferente do que aquilo que poderia alguma vez sentir nos Estados Unidos.
Queria o exótico, buscava o diferente. Queria-se perder nos meandros de uma
nova cultura, de uma língua fascinante. Sempre sentira uma falta de paixão na
sua vida e viajava agora para preencher esse vazio. De certa forma queria-se
encontrar e sabia que não seria capaz de o fazer perto de casa, na América.
Precisava do modo europeu, ansiava por ele embora não soubesse exatamente do
que se tratava. Não que Portugal fosse melhor que os Estados Unidos, ou o
inverso, mas o ser humano sempre quer o que não tem, sempre busca o que não
pode encontrar e sempre o faz no longe e na distância. É por isso que na casa
do ferreiro o espeto é de pau e que o voluntário sempre escolhe combater a fome
nalgum lugar perdido de África enquanto pessoas esfomeadas lutam ao seu lado
por um pedaço de pão. É uma raça invulgar a humana, escolhe sempre o caminho
mais difícil, o mais tortuoso, nem sempre onde o proveito é maior. Queria
apenas o diferente. Nunca antes na sua vida se tinha sentido arrebatada,
totalmente esmagada por uma sensação positiva que não conseguisse controlar e
não tinha em mente emoções radicais ou perigos aventureiros. Queria algo
profundo, algo permanente. Um bom vinho tomado à luz de uma vela, um passeio de
descapotável sob o sol escaldante que sorri em Lisboa como em nenhum outro
lugar. Não queria ver cultura como se estivesse num museu, queria vivê-la.
Mais
que apreciar a obra do artista, queria viver o processo antes da chegada ao
quadro que pende na parede da galeria. Ser o modelo que é pintado ou a musa que
é escrita, cantada nos poemas eternos que sempre serão lidos pela humanidade.
Também não queria ver o filme ou ler o livro, queria viver a história, criá-la,
ser parte dela, conhecer e influenciar os personagens, manipulá-los como
marionetas. Ver-se envolvida em situações desconhecidas que jamais poderia
controlar. Queria esquecer as tardes no shopping,
as compras de impulso, o acumular de tralha que a sua casa conhecia e o cartão
de crédito permitia. Ansiava por ver mais além, para além da maquilhagem que
cobre os autómatos na vivência do quotidiano, da rotina. «Abaixo a rotina! Que
morram os planos», pensava com convicção. Queria conhecer, viver, rir e sonhar.
Não sabia o que queria, apenas que o queria todo, a experiência completa, tudo
quanto houvesse. E, no entanto, ali estava ela, sentada naquele quarto inundado
pela escuridão, trespassado pelos raios de sol que atravessavam a janela
entreaberta. Escovava o seu cabelo de forma automática. O olhar vago indicava a
ausência do seu espírito, o devaneio da sua mente que fervilhava na excitação da
proximidade dos seus desejos, tudo tão perto e ela permitia ao seu corpo
permanecer ali sentado, a escovar os cabelos incessantemente e a fitar o
espelho como que à procura do sentido de profundidade, inibido de toda a ação,
de todo o ato que poderia tornar realidade os seus desejos mais profundos.
Era
como se esperasse pacientemente pela concretização das suas vontades sem que
para isso colocasse algum esforço, alguma procura, como se elas se fossem
concretizar por si próprias. Inconscientemente, tomava a posição de um cidadão
da civilização que visita a selva e espera observar a interação animal na sua
máxima amplitude e de forma instantânea ou como o turista que passa pelos
lugares recônditos do mundo e assume uma postura resguardada, de algum modo
superior aos locais tidos como inferiores por não verem o mesmo horizonte, como
se não houvessem vários horizontes nesta vida ou como se o mesmo não pudesse
ser visto de várias perspetivas. Como se Portugal fosse um país de poetas
apaixonados que espreitam o mundo em cada jardim, cada esquina, em cada janela.
Como se na Europa todo o indivíduo fosse dotado da sensibilidade artística e da
capacidade para a concretizar. Tinha pensado em tudo mas não sabia nada.
Queria-se
envolver com a cultura, descobrir um mundo pitoresco de emoções e sensações
onde a natureza e a natureza humana se imiscuíssem e sobrepusessem ao artifício
da sociedade mas não tinha pensado que para concretizar tal objetivo teria de o
procurar, nem como o iria fazer. Como o leão que caminha pela floresta caçando
as suas presas para o turista ou o menino faminto que corre atrás do jipe do
ocidental que está de passagem espalhando a magia e a felicidade, ela pensava
que poetas e escritores, pintores e escultores viriam ter com ela, fazendo fila
para a conhecer e lhe apresentar um qualquer segredo da sua cultura. Esperava
tacitamente que, tal como artifício da sociedade moderna, tudo acontecia
naturalmente, tudo lhe seria dado e revelado sem que de fato o procurasse. O
mais estranho e improvável é que, de alguma maneira, aquela rapariga que
escovava os cabelos sentada na escuridão do quarto que a luz lutava por
penetrar tinha, de fato, razão.
sexta-feira, 15 de março de 2013
As viagens do livro
Como a minha mãe guarda o seu exemplar autografado. Emoldurado atrás do macaco cego, do surdo e do mudo.
sexta-feira, 8 de março de 2013
A falsidade da criação
Li algures que um escritor está
sempre a escrever a mesma coisa mas com diferentes palavras. A minha mente, o
meu espírito ou o que quer que seja que intelectualiza todas estas emoções que
sinto já há muito que não permite que da caneta brotem novas ideias, novos
personagens. Ando sempre a escrever o mesmo. As mesmas situações, as mesmas
ideias, os mesmos personagens, as mesmas emoções. Escrevo para me sentir livre,
livre deste mundo onde o impossível impera mas, de alguma forma, não me sinto
senão preso a esta bagagem que transporto sem que dela me consiga ver livre.
Não sou mais que um prisioneiro. Um prisioneiro de mim próprio.
De onde me vem tudo isto? Do
sofrimento, da alegria, da tristeza ou da euforia? Do excesso de emoções ou da
falta delas. Ou será antes uma questão de qualidade antes da quantidade? A
urgência em me exprimir é grande e aumenta sempre, a cada instante, a cada
olhar. A urgência é tanta que o caudal da minha escrita sai atabalhoado,
perdido neste mundo onde não pertence. As circunstâncias são outras, eu sou
outro, mas o que de mim nasce permanece. A criação não segue o artista. Mudo o
nome das personagens e sigo em frente mas o carácter permanece inalterado.
Outros nomes, outras circunstâncias e elas iguais a si próprias fincando o pé
ao seu criador e exigindo ser escritas, pintadas na tela da eternidade. Mudam
os nomes, mudam as histórias e eu não pareço ter capacidade de desligar as
personagens de mim próprio. Talvez por isso nunca tenha acabado nenhum romance,
e já comecei vários… Dói demasiado, é tudo muito pessoal, muito real. As
personagens parecem ter relutância em ganhar vida própria fora de mim mesmo, no
paradoxo mais interessante com que já me confrontei. É uma batalha que perco
inevitavelmente e as histórias, todas elas inacabadas, vão-se acumulando nas
gavetas da consciência. Talvez o problema não se resolva enquanto não escrever
algo definitivo que complete a criação e corte o cordão umbilical às
personagens que desfilam na minha mente. Talvez aí elas ganhem vida própria.
Talvez aí elas partam e iniciem o seu próprio caminho ao encontro de juízos
alheios. Talvez aí consiga escrever outras coisas, outros personagens.
O que se espera de um autor? O
que se espera de um livro ou de uma história? Certamente o mesmo que se espera
de um filme, de uma música ou de uma pintura: cultura, entretenimento, catarse.
A possibilidade de viajar sem sair do lugar, de conhecer sem travar
conhecimento, de intelectualizar e apropriar as emoções do artista, um outro
alguém fora de nós, e de compreender uma qualquer mensagem que a materialização
da sua obra queira transmitir. O que interessa a inspiração? O que interessa o
sofrimento do artista? O que interessa todo o processo que leva o livro às
estantes de uma livraria ou a pintura às paredes de uma galeria? O que interessa
tudo isto desde que nos possamos sentar e aplaudir quando gostamos ou vaiar
quando odiamos? Provavelmente nada, provavelmente tudo. Se calhar, isso é o
mais importante, o cerne da questão. De que vale um quadro perdido no meio do
deserto, fora de todo e qualquer contexto e significado, para além dessa mesma
circunstância curiosa e caricata? Terá a obra valor intrínseco? Terão estas
palavras que escrevo agora à mesa da esplanada valor em si mesmo? Valor para
além da minha vida, da minha obra, das vivências que as originaram… Sem isso
penso que são apenas rabiscos, conjugações perversas de palavras que nada
querem dizer.
Não sei se serei capaz de as
abandonar dessa maneira. De certa forma, uma história é como um filho, um filho
que não nasce do ventre mas sim da ponta da caneta. Não se abandona um filho
assim como não se abandonam as palavras que se escreve. Tal como deve ser
recusado o título de mãe a quem o seu filho abandona, também ao escritor se
deve recusar esse título quando o objetivo da sua escrita é o abandono numa
qualquer prateleira de supermercado, o cortar de relações com a sua escrita, a
massificação. Tal como com a metáfora da mãe abandonante, o autor desligado das
palavras que cria é alguém desligado de uma parte integrante de si próprio,
numa separação que, se não é total, é pelo menos irreversível. Devo dizer que,
normalmente, tal fenómeno é difícil de ter lugar. O processo criativo não cria
coisas externas estranhas ao seu autor, antes traz ao mundo partes da sua visão
e imaginação que quase sempre são metáforas ou distorções do que realmente
existe ou aconteceu. A história está ligada à realidade e a invenção pura é
nada mais que falácia e demagogia. Uma falsidade!
domingo, 27 de janeiro de 2013
Composição VIII
Composição VIII, parte do meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis"
Nunca tive intenção de acabar
o que foi outrora começado. A enorme sombra que se reflectia no solo quando
entrelaçava-mos as mãos dava ao que nos unia uma aparência sobrenatural. Mas a intocabilidade
reflectida na sombra nunca se figurou sozinha. Desde sempre que no negrume sombrio
se expiava uma dor agónica que não era fácil de suportar. O medo crescia face
ao perigo desconhecido mas ainda assim nunca pretendi roubar o que teu era por
direito. E o que era teu também meu era e muito me custou perdê-lo. Mas agora
tenho tudo quanto quero. O prazer de partilhar a vida contigo foi agora
substituído pela satisfação de ver realizados os mais loucos desejos que se
escondiam num canto da alma.
A explosão imensurável de prazer que me trouxe a descoberta
de novas coisas estrangulou a dor e a memória que já se vinham afirmando no meu
pensamento. As amarras que nasciam do solo e me castravam os movimentos, nada
puderam contra a inviolável leveza do ser que se manifesta quando da nossa
mente apenas provém a liberdade. As condições exteriores são as que nos prendem
menos. É na nossa mente que a fera fica enjaulada e se acaba por amestrar mesmo
sem darmos conta. O instinto que nos incita a fugir de qualquer coisa
desconfortável é inimigo da descontracção que poderíamos ter. Por mais rápido
que consigamos correr, a nossa sombra acompanha-nos sempre. A flor que cresce
lá no fundo deslumbra os sentidos. Pela janela fito a dança eterna que decorre
onde não posso conhecer. O preto que o homem traja funde-se com o branco que a
mulher ostenta. O vulto daquela cena ficará para sempre gravado no muro despido
que se impõe à direita de quem entra.
De incógnitos a realizados, fiz tudo o
que me satisfazia e nada disso te envolveu. Agora, a tristeza mora ao lado e o
passado também. Posso não ser o escolhido mas quem elege tem a condição de
júri. A distinção não está em quem é preferido mas sim em quem o prefere, e
isso faz toda a diferença. É uma oportunidade que se perde, uma porta que se
fecha. As janelas que se abrem são mais pequenas e dificultam a passagem. É
claro que são um caminho e que a diversos sítios conduzirão, mas estão longe de
ser a opção óptima. Não existem segundas oportunidades. A vida não volta atrás
nem se apaga a ela própria. Existem apenas outros caminhos distintos e outras
oportunidades que são também elas únicas.
E quando a memória se desvanecer sei
que a posso substituir. Sei também que estive fora por muito tempo. Cheguei a
pensar que já não estava vivo. Mas a vida agora encarregou-se de me presentear
com circunstâncias que são tão boas quanto novas e adapto-me a elas para as
aproveitar. A vida já nos impõe tantos combates e tantas decisões que não vale
o sacrifício estar sempre a desejar algo mais. Se as nossas acções nos levaram
a certa situação, então é porque podemos aprender algo daí. A plenitude está em
nós, não nos momentos ou coisas.
Ai que prazer! Poder desfrutar da vida sem os grilhões
da consciência. O prazer está algures entre o querer e o poder. Isto digo eu… Outros,
algo diferente dirão.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Crónica de um amor burguês - A carta que regressa da escuridão
- Larga-me o braço, estás-me a magoar!
- Não ouses dizer que te estou a magoar, tu não sabes nada
sobre a mágoa! Já pensaste em como me senti ao descobrir aquela carta no fundo da gaveta?
Todos esses sentimentos que guardaste só para ti, sabe Deus quanto tempo… E eu
aqui, sem saber de nada, a fazer papel de idiota.
- Talvez te assente bem… A idiotice, claro está. O idiota é
aquele que segue a sua vida errónea pensando enganar todos à sua volta.
Pensavas o quê? Que eu não sabia onde andavas quando chegavas tarde a casa, que
eu não sabia o que pensavas quando te cruzavas com outras mulheres, ou pior, o que fazias… Sei mais
sobre tudo isso do que aquilo que podes imaginar, sei mais sobre ti do que tu
alguma vez saberás, sempre soube…
- Olha bem para ti, armada em detetive… Sabes tudo, tu! És a
encarnação da perfeição, um anjo caído do céu para iluminar esta Terra sombria.
Tretas! Tudo tretas! Se sabes tanto quanto dizes porque te casaste comigo?
Porque ainda continuas aqui, na nossa casa?
- Eu sempre te conheci o fundo da alma, desde a primeira
carta que trocámos. Acontece que, nessa altura, tu ainda eras o artista por
quem eu me apaixonei. Esse espírito livre conhecedor dos maiores segredos do
universo, capaz de amar e de se comprometer. Não tinhas medo do compromisso.
Espera aí um segundo… - disse a mulher enquanto se dirigia a passo apressado em
direção ao seu roupeiro. Sem pausa, abriu a gaveta do fundo e retirou um molho
de envelopes abertos, que já indiciavam a sua idade avançada, que folheou até
encontrar o que desejava. – Toma, lê. Lê a primeira carta que tu próprio me endereçaste e
diz-me se esse rapaz, autor de tão magníficas linhas, é o mesmo que encontro
agora à minha frente.
O homem segurou o envelope, retirou a velha carta do seu
interior, e começou a ler. A cada linha que passava, os seus olhos
humedeciam-se até que, quando finalizou a sua leitura, uma e apenas uma lágrima
foi derramada.
- Sabes? Penso que tens razão. Penso que merecia todas
aquelas acusações que guardaste naquela gaveta, naquela carta que nunca me
enviaste. Talvez já não seja o mesmo… Ou talvez sempre tenha sido assim, apenas
com menos meios para me realizar. No outro dia, no escritório, quando falava
com o meu sócio, ele disse-me que não devia adiar mais aquela viagem que
tínhamos pensado fazer. Por momentos estive decidido a comprar os bilhetes, mas
depois… Em menos de nada a
ideia mudou por completo e a decisão passou a adiamento. Ainda queres
viajar comigo? Eu sei que pensas que já não sou o mesmo, que mudei. Só quero
uma oportunidade para mostrar que ainda te amo, que ainda te desejo, que ainda
sou o mesmo que te escreveu aquela carta guiado pelo desejo do nosso primeiro encontro… Se
procurares aí nesse molho vais encontrá-la. Diz-me, por favor. Ainda queres
viajar comigo?
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Se ao menos soubesse o que está do outro lado... - 2ª parte
...continuação
Penso que nada mudaria se
soubesse aquilo que busco… Não o faço pelo resultado, mas sim pelo processo.
Faço-o por mim, porque sinto um apelo. Se soubesse o que está do outro lado
continuaria a tentar alcançá-lo. Não o busco por mera curiosidade, por
capricho. Busco-o porque sei que está lá algo de valor, que servirá para
completar as partes que me faltam. Não sei se todas, era isso que eu
descobriria se me deixasses saltar o muro. Desde que te vi pela primeira vez
que sei que guardas algo que também me pertence. Quando me cumprimentaste, na
primeira vez em que estivemos juntos, a minha mente foi tomada de assalto por
imagens que se seguiam tão depressa que quase pareciam formar um filme. Éramos
nós que figurávamos nessas imagens, de mãos dadas, num jardim, juntos… Soube
então que tinha de estar contigo, que tínhamos de viver esses momentos. Recostei-me
para trás, na cadeira onde me encontrava sentado. Estava satisfeito, tinha
finalmente encontrado aquilo que procurava há já tempo demasiado. Só ainda não
sabia que ter esse conhecimento em meu poder, cedo demais, seria a condição do
meu falhanço. Como um messias, sabia demasiado, sabia coisas que ainda não eram
para ser sabidas. O mundo não estava preparado para a revelação da minha
descoberta. Nesse momento, deixámos de estar em pé de igualdade. Todo o meu
comportamento mudou. Sabia que tinha de estar contigo, que era esse o futuro,
mas tu não fazias ideia de tal sorte. Pensei então que deveria conquistar a tua
atenção, despertar o teu afeto, mas não fui capaz. Há coisas que não se devem
saber, existem para ser descobertas. Neste caso deveríamos descobrir a dois,
num processo… Antecipei-me e quis forçar os acontecimentos, antecipar o futuro.
A minha mente desarmou a minha guarda, deixou-me despido em frente a ti. Tu
continuaste altiva, no teu castelo fortificado, inalcançável. Mas eu sabia que,
eventualmente, ficaríamos juntos, vi-o na minha mente, e então continuei.
Tentei saltar o muro que nos separava, alcançar o teu ser. Foi então que a
nossa relação falhou. Avancei para ti sem uma estratégia, confiante na
inevitabilidade do nosso amor. Claro que só eu pensava assim… Foi como
enfrentar um exército inteiro sem sequer carregar a minha espada. Uma loucura,
uma ilusão. Gostei tanto de ti que não te quis conquistar, abri-me para ti e
esperei o teu beijo, com naturalidade. Um suicídio…
Fim
domingo, 13 de janeiro de 2013
Se ao menos soubesse o que está do outro lado… - 1ª parte
A mesma mesa, o mesmo café, o mesmo cenário. A mesma
expressão, a mesma dicção, o mesmo sentimento. A situação é a mesma, a sensação
também. Agora já sei o significado daquilo a que costumam chamar déjà-vu: uma situação estranhamente
familiar que nunca vivi anteriormente e cujo resultado já sei de antemão. O
mesmo cenário, o mesmo resultado. Apesar de já saber isso não consigo evitar
cair no erro. O sentimento começa a aflorar e surge com uma força
incontrolável. Já conheço o resultado, já conheço o processo. Nada muda, avanço
na mesma, desta vez com mais entusiasmo ainda. Após um primeiro impacto
comandado pelo desagrado com um toque de desprezo, o gosto cresce forte e alimenta-se
da mágoa de outrora. O mesmo café, a mesma mesa. Diferentes pessoas, diferente
pessoa. A situação é idêntica. Agora, nos olhos dela, não vejo a mágoa de uma
relação falhada, de um amor distante, vejo o desconhecido. Vejo um muro que não
consigo ultrapassar, um código que não consigo decifrar. Ninguém me deu a
matriz para o resolver, nem pistas tampouco. Parece que a intencionalidade lhe
desvia o olhar para que, entre nós, não haja o mínimo de contato visual e eu
não possa assistir à construção da vedação, da cerca, do muro que está a ser
construído para me manter à distância. Tento desesperadamente espreitar pelos
buracos da parede, pelo muro inacabado. Se ao menos soubesse alguma coisa sobre
o que existe no outro lado, no interior da sua alma, nos confins do deu
pensamento… Tento reverter o processo mas sinto que perco a batalha. Não
consigo compreender o motivo de tanta resistência à minha aproximação e, em
breve, também será cavado um fosso entre nós, e que profundo será… Sinto um déjà-vu e sou atraído por ele. Penso que
é esperança o que me faz continuar mesmo já sabendo o resultado. Se ao menos
soubesse o que está do outro lado…
Continua...
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Crónica de um amor burguês - Separáveis mas indivisíveis
- Olha aqui esta mulher. Bonita não é?
- Das melhores que já vi! Que mulher!
- Conheci-a ontem naquele bar a que costumamos ir ao Sábado.
Ontem passei por lá depois de sair do escritório e a coisa deu-se.
- A coisa deu-se? O que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Tive sorte. Gostou de mim…
- Gostou? Isso não me surpreende… E tu? Gostaste dela?
- Claro! Já olhaste bem para a fotografia? O que há para não
gostar?
- Pois… Isso também não me surpreende…
- Ai ai, como eu gosto deste jogo de sedução! As mulheres
sempre todas arranjadas, com tanta luxúria… E eu, visto a minha máscara
invencível e nada me consegue parar! Um uísque numa mão, um cigarro na outra, a
cabeça que abana ao ritmo da música e o pé que a acompanha a bater no chão.
Elas adoram os homens de fato…
- E tu adoras ficar ali sentado, horas a fio, sem fazer mais
nada senão exibir uma imagem irreal, surreal. O teu eu que não és tu, alguém
que não existe. Uma farsa…
- Bem… Sim… É mais ou menos isso… Faz-me sentir vivo!
- E a tua mulher em casa, à tua espera? Não te faz sentir
vivo? Haverá algo no mundo que nos faço sentir mais reais do que a nossa metade
que espera por nós no conforto do nosso lar? Chegar a casa e ser recebido com
um beijo, com amor e carinho, perguntas sobre o dia, o jantar na mesa… Isso
sim, é real, é vida!
- Não podia estar mais de acordo. Aliás, acabaste de me dar
um retrato bastante fidedigno do que aconteceu ontem, depois do bar… É para
isso que tenho mulher, eu gosto do conforto!
- Eu sei que gostas. Não te esqueças que eu sei exatamente o
que pensas, o que sentes.
- Então deves saber que não trocaria a minha mulher por
nada! É ela que me garante esse conforto, é ela que está lá para mim quando
preciso, é ela que me mantém a casa da maneira que ela deve estar e será ela a
dar-me um filho, um dia destes…
- E não achas errado que ela esteja em casa a velar por ti,
a melhorar a tua vida, e que tu estejas nesses bares manhosos depois de um dia
inteiro de ausência? E ainda por cima esqueceste-te de me convidar. Quiseste
tudo só para ti. Trocas a amizade e o amor pela solidão e pela mentira dessa vida.
Não achas que a tua mulher merece mais do que essas mentiras?
- Sabes lá o que ela merece… Sabes lá o que tu mereces…
Sabes lá quem eu sou e o que penso. Não fiz nada de errado, apenas me apeteceu
uma bebida depois de um dia de trabalho. Será isso crime? Será isso errado?
Apenas troquei umas impressões com ela, e os números, e esta fotografia… Nada
de mais. Não me dês lições de moral se nem sabes o que aconteceu, se nem sabes
o que penso, se nem conheces as motivações para o que fiz…
- Farei mal em julgar-te? No final de contas tu és dono dos
teus atos e podes fazer o que bem entenderes… Mas será que não tenho direito a
julgar-te, a aconselhar-te? Será que os teus atos não têm consequências em mim,
na minha vida? Eu sei exatamente o que se passou ontem. Apesar de não ter
recebido convite eu estava lá, vi tudo… Sem te aperceberes, levaste-me contigo,
contaste-me todas as tuas motivações e pensamentos. Sei mais sobre ti do que
aquele teu eu irreal que levas-te ontem para o bar contigo. Não te esqueças que
eu sei exatamente o que pensas, o que sentes. Não te esqueças que eu e tu,
somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas
um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa.
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