quinta-feira, 9 de maio de 2013

Estarei lá perto? 2/2

...continuação

E ela não veio. Não era suposto que tivesse vindo, não posso dizer que tenha ficado desapontado. Triste talvez, vazio de uma esperança filha do pensamento que eu próprio tinha criado e alimentado. A conferência começou e acabou. Eu escutei tudo com muita atenção, se lá tivesse estado seria provável que nem me tivesse apercebido do seu tema. E depois, como faria a notícia, como faria o meu trabalho do qual depende a comida na minha mesa? Não queiras ser a causa da minha desgraça! Oh, mas que digo eu? Não será a desgraça emocional, espiritual, a da pior espécie? De que vale um pão a alguém sem esperança? Ou a alguém de esperança traída... Não digo que fosse este o caso, estou só a divagar. Deixem-me divagar, faz-me bem ao pensamento, abstrai-me das infinitas preocupações que me enchem a minha limitada mente. Por que teria eu de ter limitações, por que haveria o ser humano de carregar o tão pesado fardo da sua constante auto-superação? Que canseira!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Estou lá perto?


Sentado ali, naquela sala repleta de gente, sentia-me sozinho, mergulhado nos pensamentos que me surgiam ao ler o livro que pegava pela primeira vez. Daquelas páginas com cheiro a novo só me arrancava a incerteza da sua chegada, a certeza de que não viria. Ou viria? Como poderia vir? Disse-me que não vinha, que estaria ocupada. É certo que não a veria naquele dia. Mas a cada página que passava, levantava os olhar para espreitar em redor. E a cada pessoa que passava? Pensava sempre ser ela. Mas não era. Estava sentado perto da entrada e o meu campo de visão fazia um ângulo reto com a porta. A expectativa aumentava ainda mais, a incerteza era soberana!


A ideia ocorreu-me no caminho para lá, a ideia de que poderia aparecer, como que de surpresa. Que significado teria isso! Dava-se ao trabalho de me surpreender, de interromper o processo natural da vida para ali estar, não sei se por mim se pela ocasião (mas também que interessa isso para o caso?). Claro que a esperança era infértil, infundada, e teimava em morrer. Eu sabia que não iria, ela própria me tinha dito! Mas seria mesmo assim, seria isso verdade? A minha perceção da realidade limitava-se às quatro paredes daquela sala e à minha imaginação sobre o que poderia atravessar aquela porta. 
Continua...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vencida

Ela olhava-me do fundo da sala. Um olhar penetrante, vago, trespassava-me o corpo, carne e osso, e parecia contemplar um qualquer objeto  à minha retaguarda, inacessível ao normal olhar humano por escondido pela minha presença. Pensei que me olhava com os seus dois olhos, grandes, azuis. Mas que via ela? Que veria ela em mim digno de lhe prender a atenção de tal forma? Tanta interrogação me surgia na mente, o meu espírito irrequieto. E eu sentado, na poltrona, quase no centro do salão. Naquela altura escrevia, ou pelo menos tentava. Escrevinhava qualquer coisa invertebrada que nem se punha de pé. Desconexa. Era o ruído da televisão, ali bem do meu lado direito a berrar-me no ouvido coisas sem qualquer interesse e o olhar dela que me atraía como um íman. Que irrequieto eu estava! As palavras saiam-me às golfadas, sem tempo de se articularem entre si, o burburinho da televisão soava junto a mim e o olhar dela captava com muita eficiência a minha atenção. 

O esforço que fazia para escrever era anulado pelo que me rodeava, e pelo meu estado de espírito. Lutava para me prender ao papel, para articular o meu raciocínio com aquela tinta azul mas parecia que o meu pensamento acabava sempre por ser atraído pela força vinda do canto da sala. Não sei que escrevia, nem porquê. Sei apenas que não conseguia parar. Não tinha consciência das letras que desenhava, das palavras que constituía, do raciocínio que formava (ou se formava algum). A minha mente estava num frenesim. A atenção fixamente presa à interrogação que se impunha no momento era sempre soberana sobre a luta que travava por me concentrar na escrita. Mas que pensava ela sobre mim? Mas que via ela no meu ser ali sentado, ou através dele? Os seus olhos não mexiam, não pestanejavam. O olhar era fixo e ininterrupto. Penetrava tão fundo que indicava o vazio de objetivo. Olhava mas não via. Ou pelo menos assim parecia ser. Se calhar apenas tinha conseguido retirar esse filtro, o da visão. Mantinha apenas um olhar concentrado que recolhia toda e qualquer informação, por mais insignificante que parece-se, e levava-a diretamente ao cérebro onde o pensamento tratava de formar o juízo. Mas que juízo seria essa? A interrogação matava-me, consumia-me por dentro! Oh, que inferno! Que inquietação! E, no entanto, ali estava eu, sentado na poltrona, tão sereno quanto a um homem convém, dando a impressão de não me importar com a sua presença, de não me sentir afetado com as suas ações (ou falta delas). Porque um homem deve sempre ser sereno e altivo, deixar as emoções de lado no trato com a mulher, guardá-las para si, para o seu eu enquanto pensa ou escreve. 

A mulher testa o homem, põem-no à prova, mede a sua paciência e o seu carácter, a sua versatilidade face aos ambientes mais estranhos e adversos. Pelo menos aquela procedia assim e eu, nada. Sereno como o trigo nos campos sob o sol que abana ligeiramente de um lado para outro ao sabor da brisa. Ela queria-me testar mas eu não respondia aos estímulos, ficava para ali, altivo e sereno, como a um homem convém. E reparem que ela tentava de tudo! Olhar especada para mim durante tempos infinitos era a menor das provocações. Oh, mas só eu sei como isso me afligia! Só eu sei porque nunca mencionei nada relacionado ao tema, nem dei a entender. A sala estava tranquila, o silêncio apenas era interrompido pelo som entediante da televisão e por um ronco ou outro do que dormitava no sofá, mas travava-se ali uma batalha, uma luta épica, um braço de ferro renhido que, no fim, eu iria ganhar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Nova cara, texto velho

O blogue está a passar por uma fase de mudança. Alterei muitas coisas, essencialmente a nível de design, e a minha assinatura tem de fazer desaparecer o texto inicial. Desta forma, e para que ele não se perca, afinal foi o primeiro texto que aqui escrevi (ainda antes da primeira mensagem), decidi colocá-lo aqui:

O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Desapareceu a rapariga dos cabelos cor-de-avelã

É com grande pesar que escrevo este comentário. Acima de tudo, tristeza, revolta. A lágrima no canto do olho ao ver trabalho único e irrepetível a ser perdido para sempre. Pois é, a rapariga dos cabelos cor-de-avelã perdeu-se, foi roubada! Dela, sobrou apenas o texto que resgatei no comentário anterior e a memória vaga da sua sombra. 

Assaltara-me o carro na passada semana, violaram o meu espaço pessoal, privado. Como se não bastasse o trespasse imperdoável, foram-me remexidas as coisas e levados pertences pessoais. Entre esses estava a rapariga dos cabelos cor-de-avelã. Um pequeno caderno preto, recheado de páginas escritas, com dizeres que aprisionavam aqui e ali pedaços da alma da rapariga que queria imortalizar. Agora só resta a memória. Estava ali, naquelas páginas entre as capas pretas duras, uma série de frases, um conjunto de palavras que jamais poderei reproduzir na sua formulação original. Foi-me levado! Páginas e páginas escritas, poucas por escrever. Um pequeno caderno preto, selado por um elástico, que me acompanhava para todo o destino e que era ele próprio destino dos meus pensamentos e ideias, embriões manuscritos dos textos que por aqui param. 

A rapariga dos cabelos cor-de-avelã estava lá, quase completa. Já se percebia os contornos do seu corpo, já se anteviam os traços do seu carácter. Pedaços desse ser, musa irrealizável, repousavam ali até que a obra estive pronta e, nas suas linhas, pudesse desfilar em toda a sua plenitude. Agora só resta a memória que muito pouco reteve. Descarreguei naquelas páginas o nexo de palavras que lhe dava a sua específica forma, a forma que eu queria que ela tivesse, a forma que deveria ter, a forma sem a qual não pode existir. Limpei a memória pesada confiando as minhas ideias à segurança daquele elástico, daquelas capas duras pretas. Descansei o pensamento e libertei-o do fardo de carregar permanentemente a lembrança de cada gesto, de cada olhar daquela rapariga, musa da minha escrita. Agora a memória prega-me uma partida, brinca comigo, faz de mim seu  escravo. 

Claro que a situação imaginei-a eu e a rapariga saiu da minha invenção. Voltarei a refazer a história, a reviver as emoções. Voltarei a fingir a vivência, a dissimular a criação. Fica porém a nota de que, fruto de um furto caprichoso de algum bruto, analfabeto por certo, foi-me roubada a rapariga dos cabelos cor-de-avelã e foi-me tirada a espontaneidade na sua descrição.

domingo, 31 de março de 2013

A rapariga dos cabelos cor-de-avelã


A escova deslizava suavemente entre os longos cabelos cor-de-avelã. O espelho refletia uma imagem serena, um rosto plácido, uma má interpretação do que a alma sentia e do que nos olhos se podia ler. A escova penetrava continuamente a generosa cabeleira em movimentos mecânicos que oscilavam entre a brusquidão e a carícia terna. O olhar era vago. Tinha deixado a sua mente à mercê dos pensamentos assaltantes que o sol do meio-dia propiciava e a sua nostalgia consentia. Pensava sobretudo no que já tinha passado e assustava-se com o que iria ainda acontecer. Não sabia se temia mais o que deixara para trás e perdera ou o que poderia vir a ganhar num distante cada vez mais próximo. 

Ou se teria perdido que deixara para trás, ou se ganharia algo com o que ainda estava para vir e nunca mais chegava. A incerteza dominava-a, retirava-lhe o espírito daquela sala que apenas o seu corpo habitava. Olhou para baixo e sabia que tinha de voltar, sabia que tinha chegado a altura de enfrentar sozinha todas as suas incertezas, viver a vida, jogar o jogo… E não queria. Preferia infinitas vezes ficar ali naquela quarto, indeciso entre a escuridão e a iluminação dos raios de sol, a deixar o seu espírito divagar e voar independente do seu corpo que bem podia permanecer sentado a pentear os cabelos sem cessar. Mas não sabia, os dados já estavam lançados, ela própria tinha-o feito quando escolhera estudar no estrangeiro durante um semestre. Agora era altura de assumir as consequências da sua decisão, tinha decidido ir a jogo. A sua mente divagava pelos momentos do dia anterior, o aterrar do avião, o pisar solo português pela primeira vez, as emoções que tudo isso despoletara. Foi nesse momento que percebeu que tinha chegado ao ponto de não retorno, que estava ali, sozinha naquele país estranho e que não iria regressar a casa durante seis longos meses. Mas sabia ela que, no final de tudo, o longo tempo que agora se agigantava à sua frente lhe iria parecer curto.

Tinha vindo para Lisboa ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes a fim de aprender o seu caminho junto da língua portuguesa e da cultura do país. Acima de tudo, queria algo diferente daquilo a que estava habituada nos Estados Unidos, tudo quanto tinha conhecido até então. Lisboa era, para si, uma porta de entrada na Europa, um ponto de partida para um novo mundo que queria explorar. O programa tinha-lhe atribuído uma família de acolhimento que lhe daria abrigo e orientação durante os seis meses. Era no quarto que lhe tinha sido destinado na casa da sua família de acolhimento que escovava agora os seus cabelos e deixava o pensamento fluir. Vinha-lhe à mente a saudade da mãe, a figura ausente do pai e a preocupação do irmão mais velho mas, sobretudo, pensava no companheiro de três anos que deixara em casa. Não sabia o que fazer: deixar fluir a saudade e derramar a primeira lágrima que já começava a aflorar no canto do olho ou conter as incertezas e pensar no momento presente, na sua grande experiência.

Nem por um segundo esquecia o motivo da sua viagem: excitação, paixão, sentir algo diferente do que aquilo que poderia alguma vez sentir nos Estados Unidos. Queria o exótico, buscava o diferente. Queria-se perder nos meandros de uma nova cultura, de uma língua fascinante. Sempre sentira uma falta de paixão na sua vida e viajava agora para preencher esse vazio. De certa forma queria-se encontrar e sabia que não seria capaz de o fazer perto de casa, na América. Precisava do modo europeu, ansiava por ele embora não soubesse exatamente do que se tratava. Não que Portugal fosse melhor que os Estados Unidos, ou o inverso, mas o ser humano sempre quer o que não tem, sempre busca o que não pode encontrar e sempre o faz no longe e na distância. É por isso que na casa do ferreiro o espeto é de pau e que o voluntário sempre escolhe combater a fome nalgum lugar perdido de África enquanto pessoas esfomeadas lutam ao seu lado por um pedaço de pão. É uma raça invulgar a humana, escolhe sempre o caminho mais difícil, o mais tortuoso, nem sempre onde o proveito é maior. Queria apenas o diferente. Nunca antes na sua vida se tinha sentido arrebatada, totalmente esmagada por uma sensação positiva que não conseguisse controlar e não tinha em mente emoções radicais ou perigos aventureiros. Queria algo profundo, algo permanente. Um bom vinho tomado à luz de uma vela, um passeio de descapotável sob o sol escaldante que sorri em Lisboa como em nenhum outro lugar. Não queria ver cultura como se estivesse num museu, queria vivê-la. 

Mais que apreciar a obra do artista, queria viver o processo antes da chegada ao quadro que pende na parede da galeria. Ser o modelo que é pintado ou a musa que é escrita, cantada nos poemas eternos que sempre serão lidos pela humanidade. Também não queria ver o filme ou ler o livro, queria viver a história, criá-la, ser parte dela, conhecer e influenciar os personagens, manipulá-los como marionetas. Ver-se envolvida em situações desconhecidas que jamais poderia controlar. Queria esquecer as tardes no shopping, as compras de impulso, o acumular de tralha que a sua casa conhecia e o cartão de crédito permitia. Ansiava por ver mais além, para além da maquilhagem que cobre os autómatos na vivência do quotidiano, da rotina. «Abaixo a rotina! Que morram os planos», pensava com convicção. Queria conhecer, viver, rir e sonhar. Não sabia o que queria, apenas que o queria todo, a experiência completa, tudo quanto houvesse. E, no entanto, ali estava ela, sentada naquele quarto inundado pela escuridão, trespassado pelos raios de sol que atravessavam a janela entreaberta. Escovava o seu cabelo de forma automática. O olhar vago indicava a ausência do seu espírito, o devaneio da sua mente que fervilhava na excitação da proximidade dos seus desejos, tudo tão perto e ela permitia ao seu corpo permanecer ali sentado, a escovar os cabelos incessantemente e a fitar o espelho como que à procura do sentido de profundidade, inibido de toda a ação, de todo o ato que poderia tornar realidade os seus desejos mais profundos. 

Era como se esperasse pacientemente pela concretização das suas vontades sem que para isso colocasse algum esforço, alguma procura, como se elas se fossem concretizar por si próprias. Inconscientemente, tomava a posição de um cidadão da civilização que visita a selva e espera observar a interação animal na sua máxima amplitude e de forma instantânea ou como o turista que passa pelos lugares recônditos do mundo e assume uma postura resguardada, de algum modo superior aos locais tidos como inferiores por não verem o mesmo horizonte, como se não houvessem vários horizontes nesta vida ou como se o mesmo não pudesse ser visto de várias perspetivas. Como se Portugal fosse um país de poetas apaixonados que espreitam o mundo em cada jardim, cada esquina, em cada janela. Como se na Europa todo o indivíduo fosse dotado da sensibilidade artística e da capacidade para a concretizar. Tinha pensado em tudo mas não sabia nada. 

Queria-se envolver com a cultura, descobrir um mundo pitoresco de emoções e sensações onde a natureza e a natureza humana se imiscuíssem e sobrepusessem ao artifício da sociedade mas não tinha pensado que para concretizar tal objetivo teria de o procurar, nem como o iria fazer. Como o leão que caminha pela floresta caçando as suas presas para o turista ou o menino faminto que corre atrás do jipe do ocidental que está de passagem espalhando a magia e a felicidade, ela pensava que poetas e escritores, pintores e escultores viriam ter com ela, fazendo fila para a conhecer e lhe apresentar um qualquer segredo da sua cultura. Esperava tacitamente que, tal como artifício da sociedade moderna, tudo acontecia naturalmente, tudo lhe seria dado e revelado sem que de fato o procurasse. O mais estranho e improvável é que, de alguma maneira, aquela rapariga que escovava os cabelos sentada na escuridão do quarto que a luz lutava por penetrar tinha, de fato, razão.

sexta-feira, 15 de março de 2013

As viagens do livro


Como a minha mãe guarda o seu exemplar autografado. Emoldurado atrás do macaco cego, do surdo e do mudo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

A falsidade da criação


Li algures que um escritor está sempre a escrever a mesma coisa mas com diferentes palavras. A minha mente, o meu espírito ou o que quer que seja que intelectualiza todas estas emoções que sinto já há muito que não permite que da caneta brotem novas ideias, novos personagens. Ando sempre a escrever o mesmo. As mesmas situações, as mesmas ideias, os mesmos personagens, as mesmas emoções. Escrevo para me sentir livre, livre deste mundo onde o impossível impera mas, de alguma forma, não me sinto senão preso a esta bagagem que transporto sem que dela me consiga ver livre. Não sou mais que um prisioneiro. Um prisioneiro de mim próprio.

De onde me vem tudo isto? Do sofrimento, da alegria, da tristeza ou da euforia? Do excesso de emoções ou da falta delas. Ou será antes uma questão de qualidade antes da quantidade? A urgência em me exprimir é grande e aumenta sempre, a cada instante, a cada olhar. A urgência é tanta que o caudal da minha escrita sai atabalhoado, perdido neste mundo onde não pertence. As circunstâncias são outras, eu sou outro, mas o que de mim nasce permanece. A criação não segue o artista. Mudo o nome das personagens e sigo em frente mas o carácter permanece inalterado. Outros nomes, outras circunstâncias e elas iguais a si próprias fincando o pé ao seu criador e exigindo ser escritas, pintadas na tela da eternidade. Mudam os nomes, mudam as histórias e eu não pareço ter capacidade de desligar as personagens de mim próprio. Talvez por isso nunca tenha acabado nenhum romance, e já comecei vários… Dói demasiado, é tudo muito pessoal, muito real. As personagens parecem ter relutância em ganhar vida própria fora de mim mesmo, no paradoxo mais interessante com que já me confrontei. É uma batalha que perco inevitavelmente e as histórias, todas elas inacabadas, vão-se acumulando nas gavetas da consciência. Talvez o problema não se resolva enquanto não escrever algo definitivo que complete a criação e corte o cordão umbilical às personagens que desfilam na minha mente. Talvez aí elas ganhem vida própria. Talvez aí elas partam e iniciem o seu próprio caminho ao encontro de juízos alheios. Talvez aí consiga escrever outras coisas, outros personagens.

O que se espera de um autor? O que se espera de um livro ou de uma história? Certamente o mesmo que se espera de um filme, de uma música ou de uma pintura: cultura, entretenimento, catarse. A possibilidade de viajar sem sair do lugar, de conhecer sem travar conhecimento, de intelectualizar e apropriar as emoções do artista, um outro alguém fora de nós, e de compreender uma qualquer mensagem que a materialização da sua obra queira transmitir. O que interessa a inspiração? O que interessa o sofrimento do artista? O que interessa todo o processo que leva o livro às estantes de uma livraria ou a pintura às paredes de uma galeria? O que interessa tudo isto desde que nos possamos sentar e aplaudir quando gostamos ou vaiar quando odiamos? Provavelmente nada, provavelmente tudo. Se calhar, isso é o mais importante, o cerne da questão. De que vale um quadro perdido no meio do deserto, fora de todo e qualquer contexto e significado, para além dessa mesma circunstância curiosa e caricata? Terá a obra valor intrínseco? Terão estas palavras que escrevo agora à mesa da esplanada valor em si mesmo? Valor para além da minha vida, da minha obra, das vivências que as originaram… Sem isso penso que são apenas rabiscos, conjugações perversas de palavras que nada querem dizer.

Não sei se serei capaz de as abandonar dessa maneira. De certa forma, uma história é como um filho, um filho que não nasce do ventre mas sim da ponta da caneta. Não se abandona um filho assim como não se abandonam as palavras que se escreve. Tal como deve ser recusado o título de mãe a quem o seu filho abandona, também ao escritor se deve recusar esse título quando o objetivo da sua escrita é o abandono numa qualquer prateleira de supermercado, o cortar de relações com a sua escrita, a massificação. Tal como com a metáfora da mãe abandonante, o autor desligado das palavras que cria é alguém desligado de uma parte integrante de si próprio, numa separação que, se não é total, é pelo menos irreversível. Devo dizer que, normalmente, tal fenómeno é difícil de ter lugar. O processo criativo não cria coisas externas estranhas ao seu autor, antes traz ao mundo partes da sua visão e imaginação que quase sempre são metáforas ou distorções do que realmente existe ou aconteceu. A história está ligada à realidade e a invenção pura é nada mais que falácia e demagogia. Uma falsidade!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Composição VIII


Composição VIII, parte do meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis"

Nunca tive intenção de acabar o que foi outrora começado. A enorme sombra que se reflectia no solo quando entrelaçava-mos as mãos dava ao que nos unia uma aparência sobrenatural. Mas a intocabilidade reflectida na sombra nunca se figurou sozinha. Desde sempre que no negrume sombrio se expiava uma dor agónica que não era fácil de suportar. O medo crescia face ao perigo desconhecido mas ainda assim nunca pretendi roubar o que teu era por direito. E o que era teu também meu era e muito me custou perdê-lo. Mas agora tenho tudo quanto quero. O prazer de partilhar a vida contigo foi agora substituído pela satisfação de ver realizados os mais loucos desejos que se escondiam num canto da alma. 

A explosão imensurável de prazer que me trouxe a descoberta de novas coisas estrangulou a dor e a memória que já se vinham afirmando no meu pensamento. As amarras que nasciam do solo e me castravam os movimentos, nada puderam contra a inviolável leveza do ser que se manifesta quando da nossa mente apenas provém a liberdade. As condições exteriores são as que nos prendem menos. É na nossa mente que a fera fica enjaulada e se acaba por amestrar mesmo sem darmos conta. O instinto que nos incita a fugir de qualquer coisa desconfortável é inimigo da descontracção que poderíamos ter. Por mais rápido que consigamos correr, a nossa sombra acompanha-nos sempre. A flor que cresce lá no fundo deslumbra os sentidos. Pela janela fito a dança eterna que decorre onde não posso conhecer. O preto que o homem traja funde-se com o branco que a mulher ostenta. O vulto daquela cena ficará para sempre gravado no muro despido que se impõe à direita de quem entra. 

De incógnitos a realizados, fiz tudo o que me satisfazia e nada disso te envolveu. Agora, a tristeza mora ao lado e o passado também. Posso não ser o escolhido mas quem elege tem a condição de júri. A distinção não está em quem é preferido mas sim em quem o prefere, e isso faz toda a diferença. É uma oportunidade que se perde, uma porta que se fecha. As janelas que se abrem são mais pequenas e dificultam a passagem. É claro que são um caminho e que a diversos sítios conduzirão, mas estão longe de ser a opção óptima. Não existem segundas oportunidades. A vida não volta atrás nem se apaga a ela própria. Existem apenas outros caminhos distintos e outras oportunidades que são também elas únicas. 

E quando a memória se desvanecer sei que a posso substituir. Sei também que estive fora por muito tempo. Cheguei a pensar que já não estava vivo. Mas a vida agora encarregou-se de me presentear com circunstâncias que são tão boas quanto novas e adapto-me a elas para as aproveitar. A vida já nos impõe tantos combates e tantas decisões que não vale o sacrifício estar sempre a desejar algo mais. Se as nossas acções nos levaram a certa situação, então é porque podemos aprender algo daí. A plenitude está em nós, não nos momentos ou coisas. 

Ai que prazer! Poder desfrutar da vida sem os grilhões da consciência. O prazer está algures entre o querer e o poder. Isto digo eu… Outros, algo diferente dirão.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Crónica de um amor burguês - A carta que regressa da escuridão


- Larga-me o braço, estás-me a magoar!

- Não ouses dizer que te estou a magoar, tu não sabes nada sobre a mágoa! Já pensaste em como me senti ao descobrir aquela carta no fundo da gaveta? Todos esses sentimentos que guardaste só para ti, sabe Deus quanto tempo… E eu aqui, sem saber de nada, a fazer papel de idiota.

- Talvez te assente bem… A idiotice, claro está. O idiota é aquele que segue a sua vida errónea pensando enganar todos à sua volta. Pensavas o quê? Que eu não sabia onde andavas quando chegavas tarde a casa, que eu não sabia o que pensavas quando te cruzavas com outras mulheres, ou pior, o que fazias… Sei mais sobre tudo isso do que aquilo que podes imaginar, sei mais sobre ti do que tu alguma vez saberás, sempre soube…

- Olha bem para ti, armada em detetive… Sabes tudo, tu! És a encarnação da perfeição, um anjo caído do céu para iluminar esta Terra sombria. Tretas! Tudo tretas! Se sabes tanto quanto dizes porque te casaste comigo? Porque ainda continuas aqui, na nossa casa?

- Eu sempre te conheci o fundo da alma, desde a primeira carta que trocámos. Acontece que, nessa altura, tu ainda eras o artista por quem eu me apaixonei. Esse espírito livre conhecedor dos maiores segredos do universo, capaz de amar e de se comprometer. Não tinhas medo do compromisso. Espera aí um segundo… - disse a mulher enquanto se dirigia a passo apressado em direção ao seu roupeiro. Sem pausa, abriu a gaveta do fundo e retirou um molho de envelopes abertos, que já indiciavam a sua idade avançada, que folheou até encontrar o que desejava. – Toma, lê. Lê a primeira carta que tu próprio me endereçaste e diz-me se esse rapaz, autor de tão magníficas linhas, é o mesmo que encontro agora à minha frente.

O homem segurou o envelope, retirou a velha carta do seu interior, e começou a ler. A cada linha que passava, os seus olhos humedeciam-se até que, quando finalizou a sua leitura, uma e apenas uma lágrima foi derramada.

- Sabes? Penso que tens razão. Penso que merecia todas aquelas acusações que guardaste naquela gaveta, naquela carta que nunca me enviaste. Talvez já não seja o mesmo… Ou talvez sempre tenha sido assim, apenas com menos meios para me realizar. No outro dia, no escritório, quando falava com o meu sócio, ele disse-me que não devia adiar mais aquela viagem que tínhamos pensado fazer. Por momentos estive decidido a comprar os bilhetes, mas depois… Em menos de nada a ideia mudou por completo e a decisão passou a adiamento. Ainda queres viajar comigo? Eu sei que pensas que já não sou o mesmo, que mudei. Só quero uma oportunidade para mostrar que ainda te amo, que ainda te desejo, que ainda sou o mesmo que te escreveu aquela carta guiado pelo desejo do nosso primeiro encontro… Se procurares aí nesse molho vais encontrá-la. Diz-me, por favor. Ainda queres viajar comigo?