sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Limbo | poema

Limbo. O poema que andei a escrever durante os últimos tempos.
Deixo aqui apenas um excerto pois a versão completa é longa e está guardada para outra ocasião...
Que vos apraz dizer sobre isto?

Limbo.
Odeio o limbo.
A fronteira entre ser e não ser.
O caminho sinuoso da moralidade bafienta
que me arrasta para o pântano do que não quero ser,
do que abomino ser.
Uma linha ténue que não se vê,
que não se toca,
que não se cheira,
que não se sente
e, no entanto, que somos forçados a seguir,
calcando a sua distância com uma pegada certeira
que não admite o mínimo desvio.
O limbo.
Odeio o limbo.
Uma regra estabelecida,
um juízo alheio,
um preconceito.
E somos forçados a segui-lo!
E somos forçados a caminhar ao longo do já trilhado,
uma via rápida entre o certo e o errado,
entre o aceitável e o abominável...
Não poderei eu fazer as minhas escolhas?
Viver ao sabor das minhas próprias decisões,
discernir por onde caminhar.
A linha é reta.
A linha é estreita.
Não há margem para o erro
nem tampouco para o sucesso,
só para o sucesso dos outros,
para o dos que começaram ainda os caminhos não estavam abertos.
Agora são altos os muros erguidos,
que nos obrigam a manter a trajetória linear,
sempre igual a si própria
mantendo-nos sempre iguais,
iguais a nós próprios.
Escondem os prados verdejantes,
a areia dourada e a água turquesa,
as montanhas caiadas de branco no alto do seu pico,
a floresta velha na grossura dos seus troncos
e a jovem na frescura das suas folhas.
Tudo se esconde, oculto.
O caminho possível é pobre na sua estreiteza
e curto no horizonte.
O mundo está lá fora, do outro lado
do lado b da realidade que julgamos una.
Que tristeza a nossa limitação!
Que podridão se instala no interior!
O limbo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O livro que Eliseu leu - quinta parte

... continuação

Quinze horas. Eram já quinze horas quando olhou para o relógio que trazia preso ao pulso esquerdo. Eliseu espantou-se, tinha chegado ali ao meio dia para almoçar e já eram três da tarde. Nem tinha dado pelo tempo passar. A sua cabeça já não era como antes, estava cada vez mais distraído. Ou talvez o livro fosse assim tão interessante. Interessante o suficiente para o alienar do mundo real, para o mergulhar tão intensamente no imaginário da sua história. 

Eliseu decidiu que era tarde, que já não tinha idade nem disposição para uma tarde passada na esplanada. Levantou-se e arrumou a cadeira. A sua decisão fora tão forte e repentina que se esqueceu de pagar a despesa. E saiu. Morava perto, aliás, morava no quarto andar esquerdo do prédio do café, o estabelecimento onde almoçava todas as quintas-feiras, sempre à mesma hora. Dizem que os hábitos antigos custam a morrer. Eliseu tinha esse hábito. Criara-o pouco depois do falecimento da sua esposa. Nunca falhara uma quinta-feira desde então. O hábito era monótono, sempre igual. Apenas variava nas iguarias que Eliseu escolhia como refeição que, note-se, pecavam claramente na elaboração requintada. 

Apenas cinco anos depois, cinco anos de hábito e de rotina, algo de novo e surpreendente acontecera. Bastara um livro velho e poeirento, esquecido em cima de uma mesa, para criar um acontecimento, algo digno de espanto. Eliseu já não se interessava por muitas coisas na vida. Tudo lhe parecia sem cor, sem sabor, cada vez mais a progredir numa escala de cinzentos para o negrume. Para onde quer que olhasse, Eliseu via o perigo, o negativo, o risco, o desinteresse.

Continua...

domingo, 25 de agosto de 2013

O livro que Eliseu leu - quarta parte

... continuação

Os seus modos voltaram-se a alterar, eram de novo cuidadosos e gentis. Nas páginas, já só as pontas dos dedos tinham permissão para tocar e o dedo mindinho estava de novo entesado, erguido como uma antena que se esforça por sintonizar o relato. Os olhos não despregavam das linhas, as quais seguia com feroz intensidade. O que parecia ser uma simples e relaxada caminhada no parque, veio-se a revelar numa intensa corrida contra o tempo, quase como se o mundo desabasse atrás dele e Eliseu se esforçasse por atingir terreno seguro, a sua salvação. Mas não seria naquelas páginas que Eliseu encontraria salvação, ou paz, ou felicidade, ou qualquer outra coisa de maior que o ser humano tanto deseje e persiga. Entre as linhas daquele livro, já meio desbotadas, espreitava o incerto, a inquietação, a perdição das certezas em que nos habituámos a acreditar.


A história de uma vida comum, uma vivência sem grandes feitos ou particularidades, uma história de amor como há tantas por aí. 


O miolo do livro não tinha novidade, nem originalidade, nem frescura alguma. Histórias como aquelas existem em abundância, sempre existiram, desde que o primeiro dos homens olhou para a primeira das mulheres e se apaixonaram. As páginas daquele velho livro eram o relato de uma velha vida, de uma vida comum como as nossas. Nascer, viver e morrer. Sempre por esta ordem. Aquele livro era sobre viver, sobre a vida, sobre todas as coisas que nos levam a levantar da cama diariamente. Eliseu continuou a ler, quase sem conseguir despregar os olhos de cada página. Já nem o pó  incomodava a sua asma. E o livro continuava com a sua história, escrita em jeito meio tosco. Mas era fluído, o raciocínio mesclava-se bem com o pensamento de quem o lia. Talvez isso só acontecesse com Eliseu, talvez porque achava tudo aquilo familiar, demasiado familiar. Estranho. Nunca antes tinha visto aquele livro, nem lido aquela história, nem sentido aquele cheiro peculiar que tinham as páginas.

Continua...

sábado, 27 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - terceira parte

... continuação

Tal como se previra e Eliseu adivinhara. No seu juízo precipitado, apenas o julgamento da história se viu errado, não era impercetível, nem estranha, nem invulgar. Antes, era bem familiar e acolhedora. Sem saber muito bem como, nem porquê, a articulação daquelas letras feitas palavras formava um conjunto com um significado que Eliseu começava a achar próximo a cada página que passava. 

Como poderia aquele livro, perdido e encontrado, encontrado porque perdido, transportar uma qualquer mensagem capaz de penetrar Eliseu? «Que feitiçaria seria aquela?», pensou ele a determinado momento. Eliseu fechou o livro repentinamente. Tinha abandonado todos os cuidados e mariquices com que tratara aquele velho livro até então. Olhou em redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra; chegou até a virar-se para trás. Quem estaria a observá-lo? Não viu ninguém.


Levantou-se e arrumou a cadeira em que tinha estado sentado, debaixo da mesa. Pegou no chá fumegante que bebericava naquela tarde solarenga, olhou em redor uma vez mais (pertenceria aquele livro a alguém e o dono estaria a observá-lo?), pegou no livro e colocou-o debaixo do braço, preso no sovaco direito. Dirigiu-se para a esplanada do café. A mesa a que se sentou erguia-se junto ao pilar que ajudava a suportar as arcadas da fachada do prédio. O seu novo assento deixava-o de costas coladas ao pilar, de frente para o rio, com vista privilegiada a toda a sua volta. 

Eliseu não estava confortável em mexer naquele livro, nem com a situação, nem consigo mesmo. Escolhera um lugar que impossibilitasse a surpresa à retaguarda, aproveitando-se alguém do seu ângulo morto de visão. A razão por que o fez nem ele próprio a conhecia. Olhou de novo em seu redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra, como se alguém se interessasse pelos interesses de um velho homem num velho livro. Já tudo na sua ação era inconsciente, irrefletido, a roçar a paranoia. 
Então leu, abriu de novo o livro poeirento de capa velha e roçada e leu. 

Continua...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - segunda parte

... continuação

Eliseu olhava o livro. Parecia-lhe que ele causava alguma espécie de atração sobre si, uma atração que suplantava todos os pensamentos de rejeição àquele velho livro que lhe cruzavam a mente. Apesar de o seu pensamento tecer considerações pejorativas que formavam um juízo negativo sobre o livro, o seu olhar não conseguia não repousar sobre ele. Era um livro misterioso, velho mas misterioso, misterioso porque velho. Eliseu olhava-o. Olhou-o até se conseguir levantar da cadeira, mover-se até à mesa onde o livro se encontrava e lhe deitar a mão. Então segurou-o. Eliseu mexeu-lhe, folheou-o, cheirou-o, tossiu com a asma a dar de si. Eliseu era velho, tão velho quanto aquele livro. 

Eliseu estava gasto, tão gasto quanto aquele livro, tão roçado pela vida, tão comido pelo sol. Os anos tinham passado e com eles vieram as dores, o ranger dos ossos, as maleitas múltiplas que acusavam as múltiplas vivências. Sentou-se de novo no lugar que era seu apenas pela ocasião de se ter ali sentado primeiro que qualquer outra pessoa naquela tarde e leu. O livro rangeu ao abrir, tal como rangeu a anca de Eliseu ao sentar-se na cadeira. Segurava as páginas com cuidado, a medo, como se o papel se fosse desintegrar ao toque da pele ensebada e engrossar a poeira que jorrava de entre as mesmas. 

Eliseu segurava-o muito direito, pousado em cima da mesa, e manuseava-o com extremo cuidado e interesse. A cada virar de páginas servia a ponta do polegar e do indicador para segurar a pontinha da folha e o mindinho, esticado, para indicar a cautela da operação. O interior, esse, era aborrecido. As letras que enchiam as páginas amareladas e bolorentas formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. 

Continua...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - primeira parte

O livro poeirento de capa velha e roçada estava em cima da mesa mesmo no centro do café. Eliseu olhou-o. A tinta que dava forma às letras da capa estava sumida, gasta pelos anos de uso, tantos quantos tinha aquele livro - adivinhavam-se muitos e longos. Os cantos das páginas eram arredondados, não por qualquer opção editorial ou estética publicitária mas pelo envelhecimento natural do papel, pelo roçar dos cantos nas pastas de cabedal, e depois nas mochilas de tecido e também nas estantes de madeira e de metal pelas quais tinha passado. Era velho, usado, antigo. Era poeirento e comido, pelo sol claro está. A capa castanha, como se usava no seu tempo de publicação, conferia-lhe um ar pesado, aborrecido até. Fazia-se adivinhar que no seu interior as letras formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. Adivinhava-se também que a junção dessas palavras formava uma história sem interesse, um relato impercetível de uma vivência estranha e invulgar, como já não há nem pode haver. As histórias perdidas no tempo que já não é presente e que, por isso mesmo, já não têm lugar no mundo de hoje, no mundo que já não é o mesmo e que fechou as portas aos modos antigos de fazer, e de ser. Eliseu olhava-o. Pensava que ali não iria encontrar nada de interessante, nada digno do esforço da leitura, nada que o enriquecesse. O livro poeirento de capa velha e roçada repousava no tampo da mesa no centro do café, quase como se estivesse perdido e desejasse ser encontrado. Estranho pensamento, um livro não tem desejos, vive à mercê dos acontecimentos que resultam do desejado por outros. 

Continua...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Aos escritores

No topo digladiam-se. Entretêm-se os comandantes em jogos de poder, combatem-se em jogadas palacianas. E nós que assistimos a partir da base, território que nos pertence. Esquecem-se os chefes que comandam o povo, lembra-se o povo que tem nas mãos o poder, aquele que preenche os jogos. E as mesas começam a virar: manifestos aqui, encontros acolá... Os que comandam estão entretidos em birras sem nexo e decisões sem fundamento, cá em baixo, o resto das gentes está a acordar, está a mexer. Subitamente compreende-se que o livro é o do escritor e depois do leitor, que o livro só existe nesta interação, que escrever ainda é uma arte... E começamos a sair para a rua. Tempos perigosos estes que vivemos…

sexta-feira, 24 de maio de 2013

I feel an overwhelming love

Alguma vez te sentiste arrebatada pelo amor? Um sentimento irresistível, esmagador, opressivamente libertador. Um sentimento tão perfeito que parece não ser real, não existir…

É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Choro por dentro

Choro por dentro. Uma angústia terrível assola-me a alma de uma maneira violentamente subtil que me deixa indefeso e sem capacidade de reação. Ontem encontrei-te, hoje desejo ter-te de volta. Sei que nunca mais te verei, que foi coisa de uma única noite. Por que são sempre essas que me arrebatem o espírito e me submetem à insaciável vontade de ter mais? Hoje sei que não te posso ter, cruel destino para quem te deseja com tanta força. Nunca antes tinha visto tamanha beleza e graciosidade, nem tão pouco beijado e abraçado tão bela mulher. Agora que me deito, desejo não estar sozinho, desejo partilhar contigo a minha cama, aninhar-me contigo pela noite dentro. E não consigo adormecer. Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. 

Sei que nunca mais beijarei os teus lábios e isso consome-me qual labareda infernal que arde dentro do meu estômago. À volta do pescoço, sinto uma corda que se aperta mais a cada momento tornando extremamente complicado a respiração. A garganta seca e o olhar vazio. A angústia. Sinto um apelo fortíssimo em deixar tudo e partir ao teu alcance, enquanto a tua presença ainda se encontra no meu modesto raio de ação. Desejo ver-te outra vez mas sei que nada irá mudar. A angústia não passará, apenas será adiada. Seja hoje ou amanhã, a nossa despedida é inevitável. Tu não pertences aqui. De que serve ver-te de novo, saciar a louca vontade de ti? Sei que nunca conseguirei captar-te a essência, guardar-te para mim. Hoje ou amanhã, irás sempre tornar-te numa memória e nada mais que isso. Oh, como eu desejo a evitabilidade do inevitável... Se ao menos fosse eu dono do destino, nunca partirias de junto de mim. Serias a tal e assim te trataria. A mulher mais bela que alguma vez conheci, beijei, abracei… E partes no dia seguinte. A diversão que dá lugar à lágrima, o êxtase que dá lugar à angústia. Pergunto-me se sentirás o mesmo, agora que também te deves estar a deitar numa cama vazia.

Se ao menos houvesse alguma maneira de prolongar a sensação de te ter junto a mim, captá-la, guardá-la, senti-la sempre que quisesse... Sei que, invariavelmente, a memória acabará por se desvanecer e quero lutar contra isso com todas as minhas forças.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Diário de um voluntário


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Estava entusiasmado por ajudar as pessoas, por servir a comunidade! Nessa noite, não consegui dormir… Nem nas seguintes. A miséria que presenciei, os rostos que vi, nada me saía da mente quando finalmente repousava a cabeça na almofada. Tantas histórias por aí perdidas, tantas vidas que ficaram a meio. E nós, distraídos com os mais mundanos assuntos, chafurdando na riqueza que chamamos de escassa. Quando cheguei a casa, por volta das três da manhã, depois de fazer a volta numa carrinha por Lisboa a distribuir comida e mantas aos que na rua se abrigam, comecei a digerir tudo quanto os meus olhos haviam visto naquela noite. Só aí, quando a minha mente repousou, tanto quanto é possível repousar depois da primeira vez que se desempenha tal tarefa, comecei a processar tudo quanto vira e sentira. No momento, a urgência do bem-fazer e o pragmatismo de ajudar tantos quanto possível não permitem que o cérebro elabore sobre o que os olhos vêm e torna-os imunes ao que à nossa volta vai tendo lugar. Mas depois não é assim... 

Quando finalmente chegamos ao lar que chamamos de nosso, disfrutamos de uma refeição quente e abundante e nos deitamos num colchão macio é que nos apercebemos que aquela gente não tem nem lar, nem cama e a refeição é escassa. O processo seguinte é olhar para o telemóvel de segunda geração, para o computador já desatualizado e para o risco que se tem na porta do carro e perceber que são esses os nossos problemas mais urgentes. Damos por nós a desejar possuir a gama mais alta de tudo quanto tocamos e esse desejo só desaparece naquele momento, quando chegamos à cama depois de uma volta nas carrinhas da noite. E acreditem, elas andam aí todas as noites. Sempre que estiverem confortavelmente a dormir nas vossas camas delicadas, sempre que estiverem a desejar por um telemóvel mais avançado, por um computador topo de gama ou por uma pintura nova para o carro. Têm de andar. Para aqueles voluntários não há outra maneira, outra opção. Eles já viram a realidade, já não estão protegidos no nosso castelo de marfim onde os sonhos vêm através de um ecrã de alta resolução. Eles já viram a miséria, a pobreza, a dificuldade. Já não conseguem ignorar o assunto.


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Lembro-me particularmente de estar no duche e lavar essencialmente a alma, as mágoas, e não o corpo que não estava sujo comparado com a sujeira que os meus olhos tinham visto nessa noite. Subitamente dei pela minha mente a vaguear e os meus desejos já não eram os mesmos. Mil ideias assaltavam a minha mente, ideias empreendedoras para combater a pobreza e acabar com tudo o que tinha visto. E eram boas ideias! Numa só noite consegui identificar vários problemas graves que necessitam de solução e identifiquei também algumas soluções. Ideias... Ideias que a pequenez da idade e a ingenuidade do saber não permitiram que saíssem da mente. Nunca na minha vida me senti tão impotente. Um sentimento apenas comparável ao amor não correspondido. Algo tão arrebatador que nos prende num colete-de-forças, corpo e alma. Somos esmagados pela vida, por tudo quanto nos rodeia e não temos qualquer meio ao nosso alcance para escapar a tal fado. 


Lembro-me também que era uma sexta-feira, noite de festa para muitos jovens. Lembro-me de uns bêbedos, outros a meio caminho, uns com as namoradas, outros à procura delas, todos alheios à realidade que estava a acontecer ali mesmo ao lado. Quantos passaram, no seu caminho para os bares ou discotecas desta cidade, e nem um olhar de preocupação nos deitaram, nem curiosidade tampouco. Jovens iludidos pelos prazeres mundanos, imediatos, efemeridades que buscam incessantemente e que lhes roubam o tempo para pensarem no que significa a vida. Será que só cá andamos para viver as coisas boas, experimentar o radical, ir ao limite e ter a sensação que de facto estamos a desafiar a perigosidade? Que há mais de limite do que alimentar um sem-abrigo nas ruas de uma cidade indiferente? Que há mais de limite do que conhecer as histórias de quem já foi como nós e agora vive assim, sem nada? Nada, eu vos digo, nem que saltem de um avião. Aí, terão sempre um para-quedas... Não há para-quedas que nos salve a alma quando olhamos nos olhos de um sem-abrigo e não lhe sabemos explicar por que razão é ele quem está ali, vestindo as roupas da sua condição, e não nós que nascemos numa família que nos deu pelo menos o mínimo indispensável.


Um homem não é aquele que enfrenta o touro ou o abismo, que faz truques com o carro ou com a bicicleta, que desafia o medo com qualquer desporto estúpido. Um homem é aquele que chora ao ver a miséria, o sofrimento. Não é um choro de prostração, de incapacidade. É sim um choro de quem se abre ao mundo para o compreender, de quem se abre às emoções, às sensações, e se deixa tocar. Já pouco toca o homem, ser que se fechou aos sentimentos. Já nem o amor encontra o seu caminho até à alma do sujeito. Que esperança há para uma humanidade assim? Uma humanidade que vê a miséria e desvia o olhar pensando apenas na noite maravilhosa que vai ter com os seus amigos num bar qualquer por aí... Não basta ver o sofrimento, nem tampouco ajudar a corrigi-lo. É preciso sentir, sentir o mundo, sentir os nossos semelhantes. É isso que nos torna humanos! A nossa capacidade de sentir e de nos deixamos tocar por sentimentos, emoções e sensações. A ajuda é bem-vinda e necessária mas esgota-se em si mesma quando não parte de uma alma tocada. Tal como acontece ao relacionamento amoroso que não tem o amor por sua base.


Nessa noite não dormi. Foi a minha chamada de atenção. Julgava que ia colecionar mais uma experiência, uma vivência sem sentido, mas foram aquelas pessoas que acabaram por colecionar mais um voluntário para a sua causa, mais uma alma tocada pela miséria que se esconde debaixo de um viaduto secundário ou num canto resguardado dos olhares curiosos. Senti uma tristeza muito grande. Ver-me naquela situação, conhecer aqueles que nada têm e apenas me vinham à memória as caras dos transeuntes anónimos que passavam alegremente por nós. Que alegres eles estavam, que felizes! Como se pode ser alegre ou feliz quando ao nosso lado tem lugar a plena degradação humana? Como pode isso não tocar a alma de alguém? Que angústia sentia eu naquela altura! O peso nos ombros de toda aquela situação, carregar comigo aquela mala de viagem tão pesada e os outros à minha volta sem me oferecer ajuda ou sequer reparar que a transportava comigo.

Aquela noite foi decisiva na minha maneira de pensar, de ver o mundo. Não mais poderia ser um caçador de experiências efémeras, de futilidades passageiras. Não mais seria o mesmo, não depois de experienciar todos aqueles sentimentos tão fortes e poderosos. Decidi que chegara o momento de fazer algo por aquela gente e por esta sociedade que vive tão despreocupada e enganada. Decidi que iria dedicar a minha vida a criar algo, a desenvolver uma obra, algo que fizesse a diferença na vida das pessoas, na sociedade do meu país. Decidi que iria meter mãos à obra para, um dia mais tarde, ser capaz de dar o meu contributo para reverter ou, pelo menos, atenuar esta situação. Foi assim que abri os olhos para o que está a acontecer à minha volta, foi assim que percebi o significado de ser humano, de estar vivo, de habitar este mundo. Foi assim que me tornei num voluntário.